Economia criativa: moedor de reputações. Por Aylê-Salassié F. Quintão
ECONOMIA CRIATIVA: DO CETICISMO LEGÍTIMO AO RELATIVISMO PERNICIOSO.
Esses estrategistas da Comunicação criativa maledicente são contratados para “hackear”, invadir privacidades, agredir reputações e veicular interpretações de desinformação convenientes, e até mentir…

Numa ambígua tentativa de naturalizar as atividades dos tais “influencers”, surgidos, em sua maioria, de atividades transgressoras, sobretudo no campo da política, em particular em tempos eleitorais, a vereadora Tainá de Paula, uma das mais votadas no Rio de Janeiro, supostamente incomodada com o encaminhamento das discussões e das cínicas descrições dos profissionais das “fake news”, com a autoridade de uma expertise, sentenciou professoralmente: “Não é coincidência, é método”.
Aparentemente é um produto da economia criativa. Ao mesmo tempo em que se anuncia uma bondade, denuncia-se a falsidade no outro. De práticas como essa surgem milícias digitais, perfis imorais, assassinam-se caráteres, disseminam-se conteúdos em massa e destrói-se a lógica do debate público, transferindo para as redes sociais, algo etéreo, a responsabilidade pela informação falseada gerada no meio dos partidos políticos e, muitas vezes, dentro de governos.
Esses estrategistas da Comunicação criativa maledicente são contratados para “hackear”, invadir privacidades, agredir reputações e veicular interpretações de desinformação convenientes, e até mentir. O sucesso é alcançado por aquele que tiver conexões mais amplas, maior poder de fogo narrativo e coragem (“cara de pau”) para falsear a realidade. De maneira sarcástica batizam isso de “marketing”. A língua portuguesa abrasileirada, no seu hibridismo, oferece trânsito livre, disponibilizando, em geral, vinte palavras diferentes para um mesmo sentido, incluindo, ultimamente, vocábulos pouco usados ou moralmente reprováveis nas relações cotidianas. Em tempos de eleição não há como higienizar esse ambiente. Está a reboco da liberdade de expressão, amparada na ideia da “democracia relativa”, que encontra abrigo na imprensa, transformando o ceticismo legítimo em um relativismo pernicioso. Nem as autoridades eleitorais conseguem rastrear a origem daquelas mensagens. Está nas “nuvens!”. Não tem Marco Civil para Internet, nem Lei de Proteção de Dados que consiga controlar a ação dessas tecnologias em ambiente analógico, poluidoras do cenário e da mente das pessoas. Elas se movimentam em tempo real com velocidade quase inimaginável.
“Investigações policiais revelaram que o esquema de ataques virtuais e de desinformação do clã Vorcaro, no assalto ao Banco Master, era comandado pela própria família”. Maliciosamente, a vereadora carioca estabelece uma analogia, como no caso Marielle, com as atividades dos Bolsonaros, que não são santos mesmo, mas que, de verdade, não é esse o caminho para estigmatizá-los. Está aí explícito como surgem as falsidades. Partem de um fato real que, por sua vez vai adquirindo retoricamente vieses e aproximações caluniosas, associadas a um opositor, tratado como inimigo, na tentativa de destruir sua reputação. Partindo de alguém com liderança reconhecida nas urnas, a leviandade viraliza nas redes e na imprensa conduzida justamente por esses “influencers”, indivíduos contaminados ideologicamente ou, financeiramente, pelo método.
Venenosa comparação é repetida sistematicamente até que uma súbita “delação premiada” torna público o nome de um correligionário, obrigando o relator de um processo desses a redirecionar, para se proteger, a linha de investigação, também metodologicamente pré-configurada (Plano B): a do apagamento. No caso do Banco Master, até chegar à família Vorcaro, surgiram no primeiro time delituoso muitos personagens, até no alto escalão do Judiciário e do Congresso, incriminados, a partir da indicação de que se tratava do “amigo, do amigo, do amigo do meu pai”.
São gradual e metodicamente “tirados de cena “e desembaraçados das acusações criminais, para dar lugar a desvios interpretativos e a protagonistas alegóricos, relegando, na Justiça, os acusados ao esquecimento. Trata-se de uma engenharia invisível, um “moedor do ódio, da corrupção e de reputações” que, em clandestina manifestação ou omissão, reproduz-se rapidamente entre os ingênuos. A origem não está nas redes sociais, alçadas à condição de criminosas, embora seja apenas um canal digital de difusão. O ato transgressor está nas pessoas, no cultivo intencional e extremado do ódio pessoal, que se multiplica individual, coletiva e coniventemente. A internet não é humana. Ela é induzida. Não a vê por esse viés quem não quer. E assim, quando introduzida na plataforma do Poder, adquire dimensões danosas, atravessando a moralidade pública, e contribuindo para desqualificar às instituições, ao fazer os fatos deslizarem sinonimicamente em direção a inverdades, provocando desconfiança, descrédito e até pânico em campos difusos de recepção. Da política para a ciência, para a economia até para os esportes. Aqueles desvios de conduta vão se alojar consistentemente entre inocentes desinformados, como na saúde pública, nas academias e na supressão da própria História. Desaparecem os fatos notórios do passado, enterrados por versões e narrativas caluniosas construídas nos espaços ideologizadas da mídia.
No campo da política, no qual é usado com muita frequência, o fenômeno caracteriza-se por agendas e estratégias deliberadas de comunicação, metodologicamente programadas, com propostas inconfessas de destruir a imagem pública de adversários. A introdução dos conteúdos baseados em confrontos desperta e alimenta a polarização e mantém uma conexão com eventos em que a sua aderência é mais rápida de ser absorvida e reproduzida. A afinidade ideológica é fator relevante para ajudar a influenciar as decisões e escolher o momento certo. Por isso, deve-se lembrar ao brasileiro para não ter muitas ilusões quanto às eleições de outubro. Promessas, denúncias, debates será tudo falso. Nada a ver com o interesse público.
Preocupante mesmo é o fato de que este cenário não é propício para a governabilidade. Governar, ninguém vai governar de fato, diria: Nem de direito. Buscar apoios periféricos creditando ao PCC e ao Comando Vermelho intenção política ou ideológica não é o mesmo que dar amparo a grupos revolucionários. É ser cúmplice da violência e da transgressão generalizada, num estilo mesmo do cangaço ou do coronelato. O Estado passa a servir apenas como uma espécie de “resort” para um governo que já chega desacreditado nessa fluída discussão pública pré-eleitoral, onde as instituições e os futuros governantes são incapazes de obter a adesão real dos cidadãos, campo propício para a disseminação da desilusão e do ódio. A população se vê, tardiamente, abandonada ou iludida.
No Brasil, atualmente, a política conseguiu retroceder à rusticidade da vida no sertão. É feita de “ódio”: ódio aos governantes, “ódio” às oposições, “ódio” aos que se recusam a ser protagonistas nesse falso cenário, embora tudo isso esteja depositado pelos “influencers” nas “nuvens” da incivilidade, aparentemente endêmica, mas remunerada também criativamente. Poucos são os que transitam pela via Láctea para conversar com estrelas verdadeiras, conforme sugeriu Olavo Bilac, ainda em 1888: (…) Eu vos direi: ‘Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas’.“
Resta recorrer ao Gilberto Gil: Andar com fé by myself.
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