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O Complexo do Querelante na Era digital. Por Meraldo Zisman

O complexo do querelante é quando a pessoa vive reclamando, se sentindo injustiçada e culpando os outros por tudo, sem conseguir olhar para si mesma.

 

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O complexo do querelante é quando a pessoa vive reclamando, se sentindo injustiçada e culpando os outros por tudo, sem conseguir olhar para si mesma.

A publicação da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, chama atenção por tratar de um tema que já entrou na vida de todos nós: a inteligência artificial. E falar disso no país do futebol a Copa tem um sentido especial. A Copa 2026 será em três países: Estados Unidos, México e Canadá. Ela será realizada de 11 de junho a 19 de julho de 2026, em três países: Estados Unidos, México e Canadá. Sempre foi mais do que futebol. Ela reúne paixão, esperanças, rivalidades, frustrações e uma estranha necessidade coletiva de vencer. Durante algumas semanas, o país inteiro parece viver em torno da bola. Cada passe vira julgamento. Cada erro vira sentença. Cada derrota procura um culpado.

É nesse ambiente emocional que o complexo do querelante aparece com força. Querelante é aquele que reclama, acusa e contesta como se estivesse sempre diante de um tribunal imaginário. Esse tribunal se espalha pelas ruas, pelas mesas de bar e, principalmente, pelas redes sociais. O técnico não escala: ele “persegue”. O jogador não falha: ele “trai”. O árbitro não erra: ele “rouba”. A derrota deixa de ser parte do jogo e passa a ser prova de conspiração. A paixão, quando perde a medida, transforma torcedores em juízes apressados.

A inteligência artificial entra nesse cenário como um espelho obediente. Ela aprende depressa aquilo que nos prende à tela. Se gostamos de indignação, oferece mais indignação. Se buscamos escândalos, entrega novos escândalos. Se vivemos desconfiados, alimenta novas suspeitas. Assim, uma simples discussão sobre futebol pode virar guerra moral. O algoritmo percebe a nossa irritação e nos devolve mais motivos para reclamar. Aos poucos, já não queremos compreender o jogo, mas confirmar a nossa queixa.

A encíclica não condena a tecnologia. A inteligência artificial pode ajudar muito. Pode organizar informações, facilitar diagnósticos, melhorar pesquisas e tornar tarefas mais rápidas. O problema começa quando a máquina deixa de ser ferramenta e passa a pensar por nós. A grande questão talvez não seja saber se a máquina pensa, mas se nós ainda queremos pensar.

A facilidade da resposta pronta pode enfraquecer o esforço da dúvida. Não se trata de negar injustiças reais. No futebol, como na vida, há erros, abusos e decisões discutíveis. Mas nem toda derrota é roubo. Nem toda discordância é agressão. Nem toda crítica é perseguição. Talvez amadurecer seja aprender a perguntar antes de acusar, escutar antes de condenar e duvidar um pouco das próprias certezas antes de transformar o outro em inimigo.

No país do futebol, onde a emoção coletiva fala alto, a inteligência artificial nos coloca diante de um desafio maior do que vencer ou perder um campeonato. Se a máquina aprende cada vez mais a responder, cabe ao ser humano não desaprender a perguntar. Porque uma sociedade que transforma todo incômodo em denúncia, toda mágoa em espetáculo e toda diferença em confronto pode fazer muito barulho, mas arrisca perder a sabedoria.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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