O PERÚ MOLHADO

A morte do dono do Perú(*). Por Lula Vieira

(*) Esse peru tinha acento. Decisão de seu editor. Ninguém jamais soube por que.

Existia em Búzios um jornal único na imprensa mundial: O Perú Molhado. Assim, com acento no ú, não se sabe por que. Foi publicado durante 30 anos, sempre engraçado, mordaz, crítico e completamente esculhambado. Como seu proprietário, Marcelo Lartigue, era amigo de todo mundo, o jornal tinha como colaboradores mais ou menos constantes alguns dos nomes mais importantes da cultura brasileira. Não era raro Chico Caruso, Jaguar, Ziraldo, Ruy Castro, Ancelmo Gois e outros cobrões aparecerem em suas páginas. Mas, após um transplante de fígado, Marcelo morreu deixando órfãos sua filha (aliás, a doadora do fígado) e o Perú. Por ocasião do 30º aniversário, a convite do editor, eu escrevi uma espécie de editorial para o Perú Molhado. Em homenagem ao Marcelo e na esperança de que o Perú continuasse vivo (apesar de cada vez mais duro) reproduzo aqui.

“Ora, salve ele! O trintão Perú, com garra de adolescente, ostentando glorioso o prepúcio dos vencedores. Perú Molhado, velho de guerra, 30 anos, quem diria? O único e verdadeiro órgão de grande penetração da imprensa brasileira. Impávido, colosso, um jornal com cabeça e tronco. E membro. Rígido em sua filosofia, duro em sua labuta, altaneiro na sua fé. Um jornal que nunca dá de ombros diante dos problemas sociais. Até porque, como dizia a zelosa mãezinha à sua filha: “não se esqueça nunca – este troço não tem ombros”.

Ou seja: o Perú Molhado nunca propôs colocar apenas a cabecinha. Sempre entrou com tudo na luta em defesa da cidade e de seus cidadãos. Em sua longa trajetória jamais ficou murcho diante dos ricos e poderosos. Pelo contrário. Toda vez que um sátrapa de ocasião fez ameaças, o Perú levantou a cabeça e partiu para a peleja, pulsante e firme em suas convicções. Em suas veias corre o sangue dos heróis, daqueles que preferem a morte do que broxar. Não há repouso para os de sua estirpe. Seja qual for o objetivo, sejam quais forem as dificuldades, um Perú que se preze – e o Perú Molhado se preza – vai em frente. Adentra com tudo, não esmorece. Como diria Winston Churchill: “lutaremos nas praias, lutaremos nas ruas e nas colinas, jamais nos renderemos”.

Pode não parecer à primeira vista, mas há grande semelhança entre as duas ideias: defender a Inglaterra e editar o Perú. Ambos precisam de entusiasmo, fé, esperança e – sobretudo – espírito de sacrifício. Voltando ao Churchill.  Ele disse: “mais do que tudo, manteremos a cabeça erguida”. Também esse é um dos lemas do Perú. Um jornal de cabeça erguida.

Cabeça erguida e olhos fechados, pois Perú que se preza é cego. Cego, surdo e mudo. Um aríete, cuja glória é arrebentar tudo que se lhe opõe. Mas não foram  de rosas estes trinta anos de permanente ereção cívica. Por suas atitudes o Perú já foi agredido, violado, difamado. Mas, como disse Marcelo Lartigue quando foi agredido na sacrossanta redação do Perú por uma autoridade menor, antes de desmaiar: “Sou um Perú, não mera bimbinha”.

Esta frase lapidar, que mereceria estar imortalizada, se perdeu na poeira do tempo, pois como todo Perú, este aqui também tem memória curta. O Perú Molhado é conhecido em quase todo Brasil por suas posições corajosas. O seu coirmão menor editado no Rio de Janeiro, chamado do O Globo, não cansa de registrar acontecimentos relativos ao jornal. Aliás, dizem os mais bem informados, a grande maioria das jornalistas do Globo sonha toda noite com o Perú. Isaura, a patroa do Agamenon Mendes Pedreira, o mais sério colunista do já citado O Globo, é viciada no Perú”.

Apesar na torcida e da falta que faz, o Perú feneceu. Fosse um Perú comum, diria que descansou para sempre. Editei um almanaque pela Ediouro, com o melhor do Perú. Foi um sucesso, mas de nada adiantou.

PERÚ MOLHADO
Marcelo Lartigue: SEM ELE, SEM PERÚ

Sem Marcelo não havia Perú. Que descanse em paz.

 

 

 

 

 

 


Lula Vieira – Lula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

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