Lefèvre, o médico, o homem. Por Antonio Silvio Lefèvre

Lefèvre, o médico, o homem

Antonio Silvio Lefèvre

Lefèvre é lembrado por muitos como “o homem que amava as crianças”.  Sim, porque poucos médicos ousavam, então, dedicar-se com tanto empenho a doenças infantis de tal gravidade, frequentemente irrecuperáveis, como a poliomielite ou a paralisia cerebral.

Sob este mesmo título, o Estadão publicou em julho de 1982, um artigo de minha autoria sobre meu pai, o Dr. Antonio Branco Lefèvre, com esta introdução: “O médico brasileiro que fundou uma especialidade, a Neuropediatria, foi também o intelectual brilhante da “geração Clima”, o líder respeitado da classe médica, o humanista lúcido e radical.”  Fazia então um ano de sua morte prematura em 1981, aos 64 anos.

A reprodução deste artigo, contendo sua extensa e rica biografia está no site que relembra sua vida e obra: www.antoniobrancolefevre.com.br  Neste 6 de outubro de 2016 comemora-se o centenário de seu nascimento. É importante lembrar que, como médico e cientista, foi ele quem criou, em escala mundial, a padronização do exame neurológico do recém-nascido e o exame evolutivo da criança, o que fez dele o pioneiro de uma nova especialidade, a Neurologia Infantil, da qual é considerado o “pai” em nosso pais e da qual foi o primeiro professor titular, na FMUSP.

Não fosse sua extensa produção científica e seus ensinamentos como primeiro professor  de Neuropediatria  em nosso país e como autor dos livros de referência da especialidade, para demonstrar sua importância para a saúde do nosso país bastaria lembrar que foi ele quem conseguiu junto  aos cientistas Salk e Sabin que as recém-criadas vacinas contra a paralisia infantil fossem aplicadas no Brasil, levando à erradicação total desta trágica doença neurológica, em poucos anos.

Lefèvre é lembrado por muitos como “o homem que amava as crianças”.  Sim, porque poucos médicos ousavam, então, dedicar-se com tanto empenho a doenças infantis de tal gravidade, frequentemente irrecuperáveis, como a poliomielite ou a paralisia cerebral.  Tanto que  fundou a primeira instituição a elas dedicada no Brasil, a Associação Cruz Verde, que até hoje  abriga crianças com graves deficiências e também pacientes já idosos, que ele mesmo atendeu na infância e dele se recordam com imenso carinho.

… Lefèvre foi uma presença política importante em sua época, não se calando durante as ditaduras de Vargas e do regime militar pós-1964. Líder da classe médica, notabilizou-se por suas denúncias sobre os efeitos da desnutrição sobre o sistema nervoso das crianças e sobre o sucateamento da medicina nas administrações populistas de Adhemar de Barros e Paulo Maluf.

Mas não foi apenas pela grandeza de sua carreira científica que Lefèvre foi reconhecido como um sábio. O “intelectual brilhante da “Geração Clima” foi aquele que, junto com Antonio Cândido, Lourival Gomes Machado, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Sales Gomes, Ruy Coelho, entre outros, colaborou na revista Clima, porta-voz  da jovem intelectualidade brasileira nos anos 40 e 50, dirigida pelo cativante  Alfredo Mesquita, o fundador da Escola de Arte Dramática de São Paulo, em cuja simpática  Livraria Jaraguá, na Rua Marconi, reunia-se a redação e outros amigos que Antonio Cândido gosta de chamar de “Geração Clima”.

Sim, Lefèvre era também um sábio no campo  da cultura, em especial da literatura e da música erudita, da qual foi divulgador e crítico do mais alto nível na época de Clima e depois nas páginas do então Suplemento Literário do Estadão. “Lefèvre tudo lia, tudo sabia” disse sobre ele a teatróloga e escritora infantil Tatiana Belinky, de quem era amigo próximo : “Inteligência privilegiada, fina sensibilidade, profundo senso social e humano… faziam dele um interlocutor tão instigante quanto encantador. Era atento tanto à forma quanto ao conteúdo da literatura, tão interessado pelo estilo quanto pelo teor histórico, ou a linha política ou ideológica de um livro, que analisava com agudez, as vezes severa, outras irônica… sempre coerente com as suas posturas filosóficas, mas livre de preconceitos, aberto e receptivo“.

Cientista, autoridade cultural, Lefèvre foi uma presença política importante em sua época, não se calando durante as ditaduras de Vargas e do regime militar pós-1964. Líder da classe médica, notabilizou-se por suas denúncias sobre os efeitos da desnutrição sobre o sistema nervoso das crianças e sobre o sucateamento da medicina nas administrações populistas de Adhemar de Barros e Paulo Maluf.

Coerente em suas ideias, por elas foi preso pela famigerada OBAN, em 1975,  por ter atendido em seu consultório, sem cobrar, a um militante que o havia “entregue”, sob tortura. Era verdade… ele atendia mesmo, de graça, a muitos militantes e personalidades de esquerda e se ele tivesse “confessado” isso talvez não tivesse sido libertado no mesmo dia deste local sinistro em que, um mês depois, era “suicidado” Vladimir Herzog.

Não, Lefèvre não era um esquerdista no sentido de aceitar com venda nos olhos as “verdades” pré-fabricadas para apoiar alguma causa. Entre os primeiros a apontar as ilusões da esquerda brasileira com o stalinismo,ele  foi também dos primeiros a duvidar das novas ilusões que despontavam em 1980, um ano antes de sua morte, com a fundação do PT. Seu modelo de socialismo, que sonhava para nosso país, era o da Suécia e dos países nórdicos, combinando justiça social com democracia plena.

De fato, Antonio Branco Lefèvre foi um humanista, no sentido de um homem que acreditava nos homens e, dedicado a seus colegas, à sua família, a seu país, de tudo fazia e sem nenhum interesse pessoal, para ajudar a quantos podia, como médico, como escritor, como difusor de cultura, como participante ativo da vida política de sua época. Alheio à vaidade e competitividade que tanto contaminam a universidade pública, distribuiu conhecimento científico a quantos alunos e colegas o rodearam e formou uma verdadeira “escola”, a da Neuropediatria brasileira, que tudo deve a ele.

Justamente por esse último detalhe, o desta “dívida” científica, é que sua importância merece mais do que nunca ser lembrada, em seu centenário. Sim, porque muitos têm o confortável hábito de se esquecer de velhas dívidas, incorporando o patrimônio material, intelectual, daqueles que lhes deram tudo e assumindo esta “herança bendita” como se tudo tivesse começado com eles próprios.

Vimos isso acontecer na política, com a incorporação da herança bendita dos anos FHC pelo sucessor, como se dela fosse criador, e ainda a chamando de maldita. Com Lefèvre vimos isso acontecer na área médica, com a pura e simples pilhagem de sua obra científica por alguns poucos sucessores que lhe devem tudo… a ponto de obrigar os seus filhos a recorrerem à Justiça para verem reconhecidas como dele as obras que publicou e foram republicadas como se de outros fossem, sem sequer lhe darem os créditos.

Mas justiça foi feita e, se vivo estivesse, Lefèvre poderia celebrar seu 100º aniversário aliviado, em 6 de outubro.

Imagem da abertura: Retrato de Antonio Branco Lefèvre, por Carlos Alberto Lozza, especial para a EMEI que leva o seu nome, no campus do Hospital das Clínicas da FMUSP. 

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ANTONIO SILVIO LEFÈVRE-  é sociólogo (Université de Paris), editor e livreiro.

1 thought on “Lefèvre, o médico, o homem. Por Antonio Silvio Lefèvre

  1. Ver artigo e informações sobre Dr. Lefevre é algo que encanta todos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo, parabéns pelo artigo pois qualquer homenagem ao ser humano e médico é pouco.

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