No lento pulsar da aurora. Por Antônio Contente
Lento pulsar…Há, no ressonar da amada, o palpável do que se tem e o impalpável do que se queria ter. O impossível voar impreciso da borboleta de asas amarelas poderá, por exemplo, por confundi-la com pétala, fazer o pouso brando na mão sonolentamente entreaberta junto ao corpo em comunhão com a brancura dos panos.

Ela dorme, mas, do outro lado da cortina, suspiros da luz da manhã já batem na janela. O lençol que a cobre é proteção que retém o calor e o perfume do corpo. Aroma da mulher amada em descanso é sedução para o pouso, ou plácido mergulho do olhar sobre a cena terna. Ela, que é tão vital quando acorda, no ressonar conduz à véspera da canção; ao alongamento da estrada em época de flores e à certeza de que nunca cessará o brotar das pétalas. Por mais que o mundo se perca em contradições, permanece, tal qual o inevitável correr das horas, a possibilidade de, nas mãos em concha, podermos conter a verdade simples das belezas.
Não há porque não seja para ela, enquanto ainda dorme, o canto quase solto dos pássaros da aurora. Cria-se um mundo sempre renovado que toma o coração da gente diante da inesperada gênese de certos instantes. E a vida, afinal, sempre e sempre, é feita de certos instantes. Instantes que se plasmam melhor em nosso âmago quando são feitos para a entrega que é orquestrada para o ornamento de tantos outros. Amada que dorme é mar, é montanha, é ensolarada manhã, é tarde de chuva; estas sim, eternamente, o melhor estojo para nostalgias esculpidas em lembranças muito bem guardadas. A escorrer junto com os pingos que descem, mansos, pelas vidraças.
Precisamos ter certa arte para a construção do significado das ofertas. E a de ter, ante os olhos, a amada que dorme, acorda risos e gestos, tornando quase palpável o elo de intimidade que a aproximação de rosto e boca adquire; na tonalidade que conduz à colheita do inesquecível.
Para a amada que dorme na formatação da luz matinal há um mundo em preparo para o ritual do despertar. Na íntima forquilha da árvore com galhos sobre o jardim, o passarinho certamente guarda seu canto para o horário preciso. A brisa, ainda úmida do orvalho que torna tão mais suspirosa a madrugada, terá o instante certo para se infiltrar entre as dobras das cortinas, a fim de tornar mais fértil, no quarto, a condição do renascer do tempo bordado de infinito. Virá, inevitavelmente, para perto, a ampla noção do horizonte que abdicará do ter apenas a intimidade das nuvens. Terá outro destino o azul, subitamente condensado para pousar no travesseiro no justo instante do clarear dos olhos.
Há, no ressonar da amada, o palpável do que se tem e o impalpável do que se queria ter. O impossível voar impreciso da borboleta de asas amarelas poderá, por exemplo, por confundi-la com pétala, fazer o pouso brando na mão sonolentamente entreaberta junto ao corpo em comunhão com a brancura dos panos. E a canção, ainda não composta, estará com a partitura aberta para que a clave de sol venha nela colocar as colcheias e semicolcheias do suspiro pronto na ainda tênue teia do astro que vai nascer.
Amada a ressonar na ainda não totalmente brotada manhã é chamamento para o mundo do impossível que, magicamente, está ali ao alcance de nossas percepções. Se a cabeça, com os soltos cabelos mais negros do que asas das graúnas se mexe, certamente também se move o passarinho que guarda seu canto na forquilha da árvore; e o rumor do silêncio tem transparência que mostra, do lado de lá, os gestos de onde brotam todos os carinhos.
E virá, de algum lugar, a sugestão para que se abram os olhos. E quando, afinal, a amada desperta, pousa sobre nós a certeza de que a manhã foi feita exclusivamente para ela. E ainda, sobretudo, que ela mesma é que foi criada para dar cor e vida ao significado do rebrotar das luzes. Pois é de uma pessoa como ela que se nutrem as auroras, uma vez que também libera todos os cantos para a delícia de estar entregue ao tempo que fala de amor; e aos ventos, muito, muito brandos, que impulsionam e perfumam as tarefas que as intimidades guardam.
Bonjour, mlle. Poussin d’Oliveira.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
