Presidentes do período da ditadura
Um aniversariante sexagenário. Por Adilson Roberto Gonçalves
Aniversariante…Lembra-se que na juventude o aniversário era festivo, com honras, até davam o sangue para marcar a data. Foi assim até chegar à maioridade, período das muitas mortes por saturnismo…

Ele faz aniversário de forma constrangedora e se esconde para ninguém bater nele, muito menos soltar fogos em comemoração. Assim pensamos. Na verdade, o dia mesmo do aniversário é amanhã, 1º de abril, mas, como é dia da mentira, resolveu fazer uma mentira em cima de outra e comemorar hoje.
Lembra-se que na juventude o aniversário era festivo, com honras, até davam o sangue para marcar a data. Foi assim até chegar à maioridade, período das muitas mortes por saturnismo. Aí resolveram falar a data com cautela, pois os ares de um novo tempo de avizinhava. Na verdade, foi somente depois de 21 anos, o da maioridade civil mais robusta, que tudo foi superado. Ou melhor, deveria ter sido.
Nos primeiros anos após a nova maioridade civil, caminhava com passos outros, tíbios, parecendo que o tenebroso passado daquele seu nascimento tinha sido superado. Engano. Com 25, votando pela primeira vez, quase tiveram de pedir permissão a ele para dar passagem a outros que conseguiram aniversariar e não ficarem presos pelo caminho.
As décadas seguintes foram modicamente ativas, com altos e baixos e, chegando nos 50, tudo caminhava para a serenidade da velhice e do esquecimento, se não fosse o advento de pílulas mágicas ressucitativas vendidas ao mesmo tempo no mundo todo. Os doze anos desde então trouxeram uma agitação saudosista, mostrando que não se morre estando vivo. Pensativo, calcula que armas ainda poderá usar para voltar aos plúmbeos tempos da juventude.
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– Adilson Roberto Gonçalves – pesquisador da Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista. Vive em Campinas.
