FOTOGRAFIA

A fotografia. Por Antonio Contente

Ando mais, sabendo o que faria ao chegar na próxima esquina. Dobraria por ela, desceria por viela tomada por casas baixas, e chegaria à beira do rio. Ando, observo, e verifico que, por ali, pouco mudou. É verdade que, a meio caminho, quase tropeço num orelhão vermelho…

FOTOGRAFIA

Como já disse em crônicas várias, navegar pelo rio Tocantins, no Pará, no trecho que se aproxima da foz, é uma experiência sempre nova; mesmo mil vezes repetida.  E até a cidade ribeirinha que avistei naquela manhã, entre as brumas, assentada ali, na época, há quase 400 anos, me apareceu renovada ante a expectativa e o, digamos, anseio. Cametá talvez não seja a localidade mais charmosa do imenso vale. Tem igrejas antigas, é certo, na rua que margeia o curso d’água há sobradões com azulejos portugueses, mas são as árvores, as mangueiras que esqueceram de plantar ali ao logo das calçadas, que fazem falta. É que elas constituem, afinal, a marca registrada de todas as cidades paraenses que ficam em beiras de rios.

Bom, mas na praça, na Praça da Matriz, elas estão. Mangueiras antigas e nobres, de troncos grossos a galhos espalhados, capazes de gerar sombras largas, próprias para toda noção de paz e qualquer espécie de silêncio. Vi, à minha direita, um sobrado azulejado anterior a tempos afastados das memórias, uma vez que em mil setecentos e qualquer coisa já estava lá. A igreja, propriamente, tem muitas coisas especiais. Uma delas: de um dos seus púlpitos pregou, quando esteve refugiado no Brasil, o padre Antonio Vieira; exatamente, o lusitano dos “Sermões”. Outra: há quem jure, de mãos juntas e genuflexão feita, que, sob o chão da nave central vive uma imensa tartaruga. Se perguntar a algum nativo, virá a explicação:

         — É o casco dela que mantém a construção equilibrada, num terreno muito infiltrado pelas chuvas.

Andei, na límpida manhã daquele sábado, por ruas que estavam deixando de ser como deveriam ser todas as ruas. Vagarosamente as construções de janelas baixas e pés-direitos altos estavam desaparecendo, para dar lugar aos medonhos tijolos aparentes, aos parapeitos de alumínio e às luminárias de acrílico e metal dourado. Na briga do mau gosto do presente com a doce impotência do passado, resistem, apesar de tudo, e por incrível que pareça, os quintais. Numa esquina paro e fico olhando, atrás de cerca com estacas tortas, um desses refúgios de árvores, ninhos e passarinhos. Galhos derramados de um verde intenso, troncos cobertos de musgos brotados aos orvalhos da primeira aurora, sob o tênue cintilar das estrelas. Isso sem falar de abacateiros vergados de tão carregados, ou sapotilheiras de frutos enormes, bicados por bandos de pipiras, suís e sabiás. Esses alados irmãos do azul, e das brisas com aroma de infinito.

Ando mais, sabendo o que faria ao chegar na próxima esquina. Dobraria por ela, desceria por viela tomada por casas baixas, e chegaria à beira do rio. Ando, observo, e verifico que, por ali, pouco mudou. É verdade que, a meio caminho, quase tropeço num orelhão vermelho. E a simples certeza de que, por ele, por exemplo, poderia falar com uma pessoa que estivesse em Londres, me remeteu ao álacre tom da civilização. Virei a vista para o outro lado. E desci.

De pé numa pequena ponte à beira d’água, sabia que a mata avistada do outro lado eram ilhas, a margem oposta estava a quilômetros de distância. Fixo-me em uma canoinha, com vela azul, que passava; sou tomado pela ilusão de que nada mudara.

         — Se o senhor quiser, há lugares mais bonitos.

Viro e percebo que um rapaz falava comigo.

         — Tenho um táxi – ele segue – se o senhor quiser…

         — Não, não – abano as mãos – estou apenas olhando.

         — Mas há ótimos lugares. E o senhor poderá fazer boas fotos – aponta para minha máquina – eu tenho ajudado a muitos turistas.

         — Bom – coço a cabeça – por que você imagina que eu sou turista?

         — Ora – ele sorri – com sua pinta, a bermuda, o chapéu, esses óculos…

Tomo um susto, olho meus braços e meu pé, e me apalpo. Começo a me sentir como a casa de azulejos portugueses na qual colocaram acrílicos e alumínios.

         — O senhor é turista, não é? – O taxista insiste.

         — Sou sim – murmuro a mentira – do Rio Grande do Sul.

         — Então o meu carro está ali mesmo. À sua disposição.

Acabei subindo no veículo, e partimos. Ao passar numa espécie de praça, bem lá em cima, peço que pare e salto. Diante de uma casa com telhado alto, meio desabado, os caixilhos das janelas tortos, a pintura descascada, as grades dos respiradouros do porão soltas e até plantas nascendo nos vãos da platibanda, armo a máquina e bato algumas fotos. Depois, chamo o motorista:

         — Eu queria, amigo, ser fotografado com esta casa aparecendo ao fundo. Você pode fazer isso, basta focar e apertar este botão, OK?

         — Mas essa construção quase caindo, doutor? Olhe, se empurrar a porta, ela se desfaz. Vamos procurar coisas bonitas…

Passo o lenço no suor da testa, insisto no pedido e o moço fotografa. Ainda corremos por mais de uma hora. E eu não achei jeito de dizer ao camarada que, naquela já quase inexistente casinha da praça, vendida pela família ainda nos anos 40, quando mudamos para Belém, eu nasci.

   __________

Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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