caras de culpado

Não tem gente que já tem essa cara, me diz? De culpado?  De manjado? Pode ser que seja, pode ser que não, mas os traços parecem estar lá, nos gestos e, claro, no que em geral se revela com o tempo. Também há as caras angelicais, que no fundo eram só uma máscara.

Quadrado preto dos desenhos animados Foto stock gratuita - Public Domain Pictures

Falo disso porque ultimamente já nem me surpreendo mais com tantas revelações que vão surgindo, pior que diariamente, desvendando falcatruas, expondo roubos, verdadeiros assaltos. Do nosso, do meu, do seu. Aí acompanhamos as tais caras falando, tentando se mostrar inocentes, se desculpando – piora muito. Nem coram, mentem com seus argumentos da forma mais deslavada.

São nomes que frequentam ou já frequentaram vários noticiários, incluindo o de glamour, celebridades, o de fofocas, o nacional, político, social e econômico, do poder ou da tentativa incessante de alcançar o poder, algum poder. Nos últimos dias foi até engraçado pensar que as notícias pareciam mesmo repetidas. Todos, de lá e de cá, já tinham sido alvos de alguma investigação, de alguma suspeita, algum malfeito – isso focando apenas o século atual, para limitar um pouco, embora conhecidos, alguns, também de outros muitos carnavais. Entre eles também a troca de gracejos e dedos em riste nos lembra alguns ditos populares, como “o sujo falando do mal lavado”. “o roto falando do rasgado”, “quem tem teto de vidro não atira pedra no telhado”, “macaco não olha para o próprio rabo”. Quase um Shakespeare: “eu sou, ele também, quem sou eu?”

A hipocrisia faz parte da sociedade, ao menos parece, já que a sua presença se espalha no histórico nacional. Mas agora o que vemos surgir são a cada dia mais pessoas conhecidas, reincidentes, personalidades, influencers, políticos, sendo pegos no pulo justamente por trocar atos escusos por benesses. E mais: as provas dos gracejos podem ser encontradas tranquilamente, fotos, filmes, que depois passam a ilustrar lindamente os processos junto com trocas de conversas interessantíssimas encontradas nos celulares apreendidos nas operações.  É diária de hotel (muito) chique pelo mundo, aquele tchauzinho para a câmera dentro do jatinho, o sorriso e os dedinhos em V de vitória no camarote de um show, momentos de intimidade e até incríveis segredos de alcova. As variações aparecem, muitas envolvem a família inteira, além de em pacotes de notas vivas, vivíssimas, em malas, gavetas, na forma de bebidas, whiskies, charutos, roupinhas, bolsas, e muitos etceteras. Inovação: em imóveis maravilhosos. A indústria do luxo se refestela com a corrupção, a daqui, e a do mundo.

Nós? Nos deliciamos com as descobertas reveladas. Nesse ágil mundo digital, então, as coisas se espalham. Não precisamos mais nem citar nomes, não é verdade? Todos já sabem de cor e salteado. Caras de culpado comprovadas. Não precisa também nem mais daquela revista.

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marliMARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, assessora e consultora de comunicação, com passagem pelos principais veículos do país, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.  marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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