A nova imagem. Por Antonio Contente
…Imagem… Nunca, jamais, em tempo algum a moça sequer poderia imaginar a reação diante da sua presença. Murmúrios, gritos, espantos explícitos, urros. Pessoas se atiravam n’água…

Ela era bonita, muito bonita, mas, de repente, achou que estava gorda. Bom, talvez até estivesse, só que a gordurinhas em Belísia ficavam ótimas, localizadas aqui e ali. Todavia, como já disse, a beldade enfiou na cabeça que estava gorda; e resolveu emagrecer. Para tanto optou por duas estratégias: a) Faria tratamento; b) Sumiria do mundo. “Só reapareço quando estiver nos trinques”, prometeu a si mesma.
A rotina da moça, então, passou a ser de casa para a clínica onde tomava injeções, pílulas, poções, alquimias de todas as ordens; de lá, passava à academia; desta, pra casa. Nada mais do que isso.
Claro, lógico, evidente, as pessoas passaram a sentir falta dela. Afinal Belísia gostava de festas, de reuniões. Além disso, com pertinaz pontualidade, todos os fins de semana costumava pintar no clube para braçadas na piscina, banhos de sol. Com o súbito desaparecimento sem explicações era mais do que natural que as pessoas sentissem falta.
Naquele sábado, oito, nove da manhã toca o telefone, Belísia atende. A voz máscula, de locutor da Globo, murmura:
— Como vai essa figura?
— Quem é?
— Uma pessoa que está sentindo sua falta. Você de repente desapareceu, sumiu, estou ligando pra saber o que houve.
— Olha, vamos parar, tá bom? Eu não falo com estranhos; ou você se identifica ou desligo.
— Não precisa esta violência, Belísia. Sou uma pessoa que te vê todo fim de semana no clube, sempre te achei belíssima; como você sumiu, é mais do que natural que eu queira saber…
— Meu senhor – ela corta – se há coisa que me irrita, é trote. Até logo, passar bem. Ou melhor, passar mal!
Bateu o telefone com certa violência.
Esse papo esotérico aconteceu pelas nove horas de um sábado, como já disse. Meia hora depois batem na porta da casa, Belísia abre. Pega o buquê de rosas, lê o cartão: “Eu sabia que você desligaria. Acredite, estou sentido muito a sua falta no clube. Por favor, reapareça”.
Diante disso, a moça balançou. Para concluir que o fulano certamente não poderia ser acusado como despossuído de certa imaginação.
Todavia, talvez o grande erro de Belísia tenha sido tal conclusão. Pois, passados novos 30 minutos, no instante em que o sujeito voltou a ligar, ela deu um “alô” quase encharcado de condescendência, pois tinha certeza de quem se tratava. Após três ou quatro frases, murmura:
— Por que você não diz quem está falando?
— Sou uma pessoa que te conhece… Te acho maravilhosa e como você nunca mais apareceu na piscina do clube, estou sentindo falta.
— Ah… Mas…
— Posso agora saber quando você vai voltar?
— Qualquer dia desses — nossa heroína capitula.
— Então tá. Vou esperar.
Daí em diante ainda aconteceram outros papos. E, em mais algumas semanas, diante do espelho, Belísia se acha outra vez linda, no ponto; em peso, charme e textura. Cicia, encantada consigo mesma:
— Coitado do cara do telefone. Vai cair durinho quando eu voltar à beira da piscina.
Para a reaparição Belísia optou por um domingo, Verão, sol explosivo. Levava, cravada na cabeça, como um punhal, a perspectiva de encontrar não apenas o cara das ligações, mas de levá-lo, no mínimo, à uma ameaça de enfarte do miocárdio. Entrou no clube discretamente, trocou de roupa no vestiário e saiu para a luz da manhã.
Nunca, jamais, em tempo algum a moça sequer poderia imaginar a reação diante da sua presença. Murmúrios, gritos, espantos explícitos, urros. Pessoas se atiravam n’água, outras plantavam bananeira, três ou quatro rapazes, mais exagerados, caíram de joelhos, mãos em prece elevadas ao céu. Dona da situação Belísia para. Então, um moço se aproxima dela, algo nervoso. Fala, baixinho:
— Eu sou o cara do telefone. Por que você está assim?
— Assim como? Será que esse bando de jacus nunca viu um “topless”.
O fulano olha para um lado e outro. Após, encosta a boca no ouvido da beldade. Murmura:
— Mas você fez a coisa errada, querida; a parte do maiô que se tira é a de cima…
Belísia nem arrancou o chapelão que usava e mergulhou de cabeça na piscina. Ao emergir, bastante calma, apesar da situação, apenas pediu, ainda de dentro d’água:
— Alguém me arranja uma toalha, por favor?
ANTONIO CONTENTE –
Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
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