Cultura na ponta da língua. Por Adilson Roberto Gonçalves
O aniversário da TV Cultura remete à memória afetiva da emissora, sempre com programas de altíssima qualidade e com recursos escassos. Por muito tempo foi de financiamento exclusivo estatal e, depois, passou a captar patrocínio por meio de propagandas inseridas em sua programação.

A TV Cultura completou 57 anos neste 15 de junho, com o programa Roda Viva entrevistando Miguel Falabella, o multifacetado artista. Das várias falas belas dele (famigerado trocadilho), anotei uma conclusão minha: a qualidade da atividade cultural depende mais da vontade do que de apenas haver recursos financeiros disponíveis.
Isso remete a artigo recente de Neca Setúbal, que faz parte do conselho curador da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, em que clamou pelo essencial, mas escondeu o fundamental (“Qual é o nosso compromisso com a TV pública?”, Folha de S. Paulo, 5/6). Ela fez a necessária defesa da TV Cultura, mas citou de forma gratuita (ou não?) o nome do governador, que sistematicamente tem precarizado a educação no Estado de São Paulo, tenta privatizar as áreas de pesquisa de nossos institutos, e despreza nossa excelência universitária, haja vista a greve que estava em curso por melhores condições de trabalho e de aprendizagem. A TV Cultura é patrimônio dos paulistas, nisso concordamos, mas são muito preocupantes os rumos que a ela estão sendo dados por um governo que tem mais compromissos com os ditames bolsonaristas e norte-americanos do que com os nacionais.
O aniversário da TV Cultura remete à memória afetiva da emissora, sempre com programas de altíssima qualidade e com recursos escassos. Por muito tempo foi de financiamento exclusivo estatal e, depois, passou a captar patrocínio por meio de propagandas inseridas em sua programação. Castelo Rá-tim-bum, Co-co-ri-có, Metrópolis, Bem Brasil (de volta agora com Wandi Doratiotto), Mundo da Lua, Nossa Língua Portuguesa e vários outros fazem parte desse rol. Difícil citar algum programa que não tenha sido produzido com qualidade e gerado impacto positivo em público variado, independente de orçamentos.
O professor Pasquale Cipro Neto foi uma figura marcante ao trazer para a tela uma discussão leve acerca das normas linguísticas e gramaticais. Lembro que figurou por muito tempo também nas páginas da Folha de S. Paulo, coluna hoje ocupada por Sérgio Rodrigues, do qual já foram abordados, neste espaço, seus didáticos jogos com nossa língua (https://www.chumbogordo.com.br/brincando-com-palavras-por-adilson-roberto-goncalves/).
Recentemente, Sérgio teve de se defender de uma suposta e inverídica guerra promovida por ele entre os diferentes continentes falantes do português. Ele mostrou que criaram uma guerra onde não havia qualquer razão, tal qual fazem mandatários insanos mundo afora. Nossa língua portuguesa, sexual que é, não deixará de nos dar prazeres. Difícil é entender por que não falam aqueles que deviam, como seria esperado no Parlamento em aprovações de peso e pesarosas, mas sem qualquer discussão.
Assim, a cultura continua em alta e a língua não está flácida; pelo contrário, também está em ascensão, haja vista que hoje são duas as colunas na Folha que tratam dela, incluindo a de Caetano Galindo, sem esquecer que, no teatro, Gregório Duvivier tem dado um show com seu “O Céu da Língua”.
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– Adilson Roberto Gonçalves – pesquisador da Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista. Vive em Campinas.
