Espeto. Por Antonio Contente
… em plena avenida São João, em São Paulo, o delegado Cabral, barba por fazer, envergando puído casaco de lã, mastigava um palito de fósforo preso no canto da boca, ao murmurar: – Espeto. Por Santa Rita do Passa Quatro, espeto…
![]()
Como se fosse caso policial saído das páginas de um dos romances de Dashiell Hammett, naquela fria madrugada dos anos 80 do século passado em plena avenida São João, em São Paulo, o delegado Cabral, barba por fazer, envergando puído casaco de lã, mastigava um palito de fósforo preso no canto da boca, ao murmurar:
— Espeto. Por Santa Rita do Passa Quatro, espeto.
À sua frente, estirado na calçada e já com duas velas acesas em cada lado da cabeça, estava um corpo, meio coberto por folhas de jornais. Pelas pernas, dava para ver que se tratava de mulher. Se este detalhe não bastasse, os cabelos, fartos, negros, saiam de sob o papel para se esparramar pelo chão.
— Espeto – Cabral volta a murmurar – espeto.
O primeiro repórter a chegar ao local foi o depois famoso Percival de Souza, do Jornal da Tarde. Que perguntou à autoridade:
— E então, doutor, se atirou ou foi atirada?
— Aí é que está – o policial suspira, apontando para o prédio – numa cabeça-de-porco dessas, com milhares de apartamentos, vai ser duro saber de onde despencou. Espeto.
— De fato, espeto – o jornalista concorda.
De repente, como do nada, pintou uma dica. Dica algo esgarçada, algo inconsistente, é certo, porém dica. Assim foi que um sujeito, com o inesquecível nome de Athos, acabou despertado com a porta do seu mínimo, exíguo, microscópico quitinete a ponto de ser derrubada com os murros batidos sobre ela.
— O que é? O que é? — Tentava, diante dos investigadores, abrir os olhos que pareciam grudados por toneladas de cimento.
— Polícia, meu chapa! – Um dos homens falou.
Enquanto isso Cabral olhava em volta: garrafas vazias, copos com restos de bebidas, milhares de baganas de cigarros até no chão, roupas atiradas ao léu, e até restos de frango ao lado da cama, ossos misturados a chinelos e meias.
— Não adianta negar – um dos policiais encara o ainda não completamente acordado Athos – aqui houve luta.
— Não, é que sou meio bagunçado mesmo, doutor — ele ainda tentou.
Só que a acusação, agora partida de outro investigador, voltou, encharcada de certeza:
— Houve luta sim. Houve luta.
Nessa altura, sentado em uma cadeira, o dono do apartamento, se é que se podia chamar aquilo como tal, via um dedo indicador a balançar diante do seu nariz:
— Não adianta negar, meu chapa, não adianta negar. Já sabemos de tudo. Vamos lá, por que atirou a “mina” aqui de cima? Tava pensando o que, que ela tinha asas?
— Mas doutor…
— Não adianta negar, porra!
— Tudo bem – o camarada afina – mas tem uma coisa.
— O que?
— Não fui eu. Ela mesma se atirou.
— Ah, então ela resolveu dar uma de Batman, né? – Cabral coloca um novo palito na boca.
— Superman – o fotógrafo do IML, ao lado, cutuca o delegado – quem voa é o Superman, não o Batman…
— Pois é, ela se atirou – Athos volta.
Daí em diante o coitado contou uma longa história. Que falara para a guria, com quem mantinha caso há mais de ano, que estava tudo terminado, que não havia mais condição de permanecerem juntos.
— Sabe?, doutor – murmura, olhando pro chão – como eu bebera muito, falei para ela que ia dormir, que não estava mais a fim de discutir.
— Só isso?
— Não, também liberei.
— Liberou o que?
— Disse pra ela que se quisesse se atirar, a janela estava ali mesmo. E caí desmaiado na cama, de tão porre.
Mais alguns instantes e todos descem, com Athos algemado e os policiais satisfeitos pela fácil resolução do caso. Só que, na porta do prédio, ao sair, o detido berra ao ver a moça que entrava trazendo dois pães e um litro de leite.
— Por Deus, Bituca, é você? Então você não se atirou, meu amor?
Todos, em torno, se olham. O delegado Cabral murmura:
— Diabo, quando a esmola é muita o santo desconfia.
Tira da boca o palito que mordia e atira longe. Não sem antes murmurar:
— Espeto.
__________
ANTONIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
