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De volta ao futuro. Por Myrthes Suplicy Vieira

De volta … O que mudou dentro de mim a partir daquele dia foi o próprio conceito de autoridade. Naquele momento entendi que, quando se troca o diálogo e a persuasão amigável pela força ou impossibilidade de negociação, não se está mais lidando com autoridade, mas sim com autoritarismo…

De volta ao futuro

Aos 12 anos, tive uma briga muito séria com meu pai, não me lembro mais por qual motivo. Em meio às acusações mútuas de desrespeito, olhei desafiadoramente para ele e gritei: não suporto mais viver nesta casa, vou pegar minhas coisas e vou embora pra nunca mais voltar.

Friamente, ele respondeu: “A porta da rua é serventia da casa. Pode ir, mas preste atenção: só leve com você aquilo que for seu. Não leve nada que tenha sido comprado com meu dinheiro”.

Humilhada, fui para meu quarto, pensando em arrumar a mala e fugir ainda naquela madrugada. Quando a retirei do armário, não foi preciso muito esforço mental para me dar conta de que a mala não me pertencia. Tentando me acalmar, disse para mim mesma, com desdém: não tem problema, jogo minhas coisas num lençol, amarro tudo numa trouxa e carrego no ombro. Poucos segundos se passaram para de novo constatar o óbvio: o lençol também não era meu, muito menos minhas roupas e sapatos, ou quaisquer outros pertences. Aos poucos, uma verdade aterradora emergiu na minha consciência: nem eu mesma me pertencia.

Ainda tentando espantar o pânico, respirei fundo e me imaginei saindo à rua totalmente nua, com as mãos abanando. Mas o medo e a vergonha falavam mais alto: para onde eu iria, onde dormiria, onde tomaria banho, como comeria, se não carregava comigo nem um mísero centavo? Minha determinação de ir embora de qualquer jeito começou a esmorecer.

Uma vez esgotadas todas as possibilidades, tomei uma decisão. Voltei ao quarto dos meus pais e, reunindo toda a empáfia que me era possível então, declarei solenemente (não com essas palavras, é claro): de hoje em diante, meu único propósito na vida vai ser me tornar independente financeiramente. Quando esse dia chegar, vou-me embora para sempre, sem olhar para trás.

O que mudou dentro de mim a partir daquele dia foi o próprio conceito de autoridade. Naquele momento entendi que, quando se troca o diálogo e a persuasão amigável pela força ou impossibilidade de negociação, não se está mais lidando com autoridade, mas sim com autoritarismo. Autoritarismo passou a ser, para mim, evidência de autoridade incompetente e impotente – por não saber como se fazer respeitar, ela precisa se valer das armas da opressão, do silenciamento do outro, da invalidação de toda forma de divergência.

Jurei a mim mesma que nunca mais me subordinaria aos desmandos de outra pessoa, fosse ela quem fosse. Foram precisos outros 12 anos para que minha promessa se concretizasse: aos 24 anos, já formada e empregada numa grande empresa, consegui enfim honrar minha palavra. Embora minha libertação do jugo paterno tenha representado um imenso alívio, muitas e muitas vezes eu me senti acossada por sentimentos de culpa e desamparo.

Obedecer sem contestação às regras determinadas por outrem nunca foi um princípio aceitável na minha cabeça. Resignar-me a um destino não escolhido por mim menos ainda. As normas de gênero daquela época – casar, ter filhos e cuidar de uma casa – também me pareciam draconianas e insensatas. Construir um futuro com minhas próprias mãos era meu único sonho substituto.

Como tudo o mais na vida, o tempo se encarregou de cicatrizar as feridas. A sensação boa de ser dona do meu próprio nariz me transformou numa espécie de feminista avant la lettre, ainda que jamais tenha sido panfletária. Me preparei arduamente, através de muita terapia, para nunca mais depender emocional ou financeiramente de ninguém. Com altos e baixos, sobrevivi às duras investidas do patriarcado e da misoginia.

No entanto, o que mais me doeu foi constatar que a autonomia não é geográfica. O patriarcado dispõe de meios muito mais insidiosos de impor suas vontades. Alugar um imóvel, pedir financiamento bancário, negociar diagnóstico e preço com um mecânico de automóveis ou com profissionais para reparos domésticos são apenas alguns exemplos das dificuldades praticamente insuperáveis que uma mulher tem de enfrentar sem a ajuda de um homem. Isso sem falar que sua imagem torna-se automaticamente a de uma libertina perigosa, eternamente pronta a seduzir os homens, expor ao ridículo as mulheres submissas e destruir a paz familiar. A forma como você passa a ser tratada por chefes e subordinados, síndicos e vizinhos e até por familiares só reforça a imagem de inconfiabilidade.

Tristemente, as conquistas femininas de emancipação que me pareciam irreversíveis lá atrás no tempo hoje deixaram de o ser. Nestes tempos bicudos, assistindo apalermada à retomada da discriminação explícita de gênero, às tentativas de proibição do aborto para crianças e adolescentes estupradas e ao aumento exponencial dos casos de feminicídio, além de projetos legislativos para abolir o direito ao voto feminino individual, só posso abençoar minha briga precoce com um pater familias.

O trabalho psicológico de conscientização das mulheres oprimidas está longe de ser completado ainda neste século. Muitas não conseguem se independentizar de seus companheiros sem colocar a própria existência e a de seus filhos em risco e outras não conseguem se livrar da dependência afetiva por terem internalizado uma imagem de insuficiência. A lição que isso nos ensina é a de que, antes de começar a lutar por autonomia, as mulheres precisam ser universalmente educadas desde crianças a aprenderem a se pertencer.



(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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