Entre a cruzada e o algoritmo. Por Meraldo Zisman
O desafio, contudo, surge quando alguém acredita ter a verdade única e tenta impô-la. A história está cheia disso; na Idade Média, cristãos que pregavam amor foram às cruzadas matar em nome de Deus, tentando obrigar os outros a viverem um ideal que eles mesmos não praticavam.

Em 2024, no Festival de Literatura de Hay, no Reino Unido, o historiador Yuval Harari, a jornalista Maria Ressa (Nobel da Paz) e o ex-político Rory Stewart se reuniram para debater o essencial: como viver bem em um tempo de medo, divisão e pressa. Harari lembrou que a humanidade sempre buscou a resposta para o que é uma vida boa, e o liberalismo e a democracia trouxeram uma rara conquista: a liberdade de discordar sem se destruir.
O desafio, contudo, surge quando alguém acredita ter a verdade única e tenta impô-la. A história está cheia disso; na Idade Média, cristãos que pregavam amor foram às cruzadas matar em nome de Deus, tentando obrigar os outros a viverem um ideal que eles mesmos não praticavam. Hoje, a cruzada mudou de forma. As bandeiras já não são de tecido, mas de algoritmos.
No painel “How to Live Well in a Crisis of Information and Fear”(Como Viver Bem em uma Crise de Informação e Medo.), os pensadores discutiram os desafios éticos e humanos do nosso tempo, da desinformação à polarização digital, e como a perda da escuta faz com que pensar diferente se torne um ato de resistência. A nova cruzada é silenciosa, usando cliques e curtidas no lugar de espadas e escudos, mas seu objetivo é o mesmo: buscar conversões, transformar o outro em espelho e destruir a diferença. O ódio ganhou novo uniforme: o da moral virtual. Maria Ressa alertou que o medo é o combustível mais poderoso das ditaduras digitais, pois paralisa e facilita a manipulação, fazendo o cidadão exausto entregar sua liberdade por promessas de segurança. Rory Stewart completou, notando que o mundo está ficando sem intermediários e sem espaços de encontro, transformando o debate em duelo e a empatia em fraqueza, com a pressa tomando o lugar da compreensão.
Entre a cruzada histórica e o algoritmo atual, a escolha permanece a mesma: fanatismo ou diálogo, fé cega ou escuta. A tecnologia apenas mudou o cenário, pois o enredo é idêntico: o medo ainda governa. Talvez, viver bem hoje signifique o simples ato de reaprender a conversar sem matar, escutar sem odiar e discordar sem destruir.
No fim, não é o algoritmo que nos divide — somos nós que o alimentamos com a nossa própria intolerância.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

