Greta Garbo
História de um retrato. Por Antonio Contente
Retrato… Nos dias seguintes nossa heroína, de fato, caprichou. Estabeleceu uma tabela alimentar tão rigorosa que, nos exíguos primeiros dias em que a aplicou, conseguiu perder nada menos de três quilos. Além disso, entrou para uma academia de ginástica, comprou uma bicicleta para andar pelas ruas do bairro…

Eu a encontrei na praça do Centro de Convivência, a tomar sol na manhã fria. Tinha no colo um livro já antigo, e que reconheci logo pela capa. A autora era a já falecida atriz Elizabeth Taylor que, ao longo das muitas páginas, conta sua experiência para chegar a ser ex-gorda. Aponto:
— E aí, está gostando?
— Olha – ela passa a mão na capa – achei num sebo; e estou achando mais ou menos.
Então, depois de pedir que eu também sentasse, contou que dentro do tema de mulheres que perderam a autoestima e engordaram desmesuradamente, tinha vivido uma experiência que considerava mais densa do que a da atriz.
— Naquele tempo – lembra – eu não mandava nenhum terno do meu marido para a lavanderia sem examinar os bolsos.
— As mulheres são mesmo curiosas… – Observo.
— Não, não era curiosidade. É que, naquela época, as pessoas ainda eram honestas; e o chinês da lavanderia veio, certa vez, devolver duas notas de 100 que estavam num paletó.
Na continuação recorda que, numa segunda-feira, fazia o trabalho com as roupas que mandaria lavar quando, no bolso interno de um jaquetão, encontrou uma foto de mulher.
— Sabe a Greta Garbo – pergunta – aquela artista do passado que, na época em que ocorreu o caso que te conto ainda existia?
— Claro, lembro bem. Era lindíssima!
— Pois bem, a tal foto que encontrei era de alguém com a cara da Greta Garbo quando andava pelos vinte e poucos anos.
Com a fatal estampa entre os dedos, minha amiga ficou uma verdadeira fera. Basta dizer que durante quase uma hora permaneceu hirta numa poltrona pois, com a tontura que a acometeu, se levantasse cairia.
— Bem depois de achar a foto – ela segue – fui, aos poucos, caindo na real.
— Bom – admito – ter como rival uma sósia da Greta Garbo quanto jovem é uma experiência e tanto.
— Não – ela me encara – não foi por aí que eu vi o troço. Vi ao olhar para mim mesma.
— E o que você viu em você?
— Apenas o seguinte: com esta minha altura, que não é muita, eu estava pesando, simplesmente, mais de 100 quilos.
— Segundo li no livro que você está lendo agora, a Elizabeth, ao se surpreender fora do peso, pregou o próprio retrato na geladeira. Você acaso fez isso com a estampa da tal Greta Garbo?
— Não, não, nada disso. A primeira coisa que fiz, diante da situação, foi justificar.
— Como assim?
— Concluí que, com aquele tremendo bagulho dentro de casa meu marido tinha mais era que arranjar outra, mesmo. Daí, de estalo, resolvi.
— Resolveu? Resolveu o que?
— Emagrecer.
— Na verdade – junto as mãos – estou também curioso quanto à foto da Greta. O que você fez com ela?
— Olha – minha amiga sorri – pra te falar a verdade meu primeiro impulso foi rasgar. Contudo, conclui que precisava dela para dar uma lição no meu marido. Por isso, guardei.
— E quando ele chegou do trabalho, à noite, como foi que você o recebeu?
— Normal, normalmente. Só que, já naquele jantar, tranquei a boca. Sabe o que comi?
— Não faço a menor ideia.
— Duas folhas de alface e duas rodelas de tomate.
Nos dias seguintes nossa heroína, de fato, caprichou. Estabeleceu uma tabela alimentar tão rigorosa que, nos exíguos primeiros dias em que a aplicou, conseguiu perder nada menos de três quilos. Além disso, entrou para uma academia de ginástica, comprou uma bicicleta para andar pelas ruas do bairro e, em coisa de alguns meses, se encontrava na mais completa forma. Então, esperou um sábado, exatamente um sábado para chamar o marido às falas. No que ele estava tranquilamente na sala, de bermudas, lendo o jornal com a cervejinha ao lado do prato com as lascas de queijo, a fulana se planta diante do cara.
— Muito bem – abre os braços – agora você vai escolher.
— Escolher? O que, meu amor?
— Eu ou ela.
— Ela? Ela quem? – O bom homem dá um gole na breja.
— A tua amante, é claro.
— Mas que amante? Você enlouqueceu?
Ao invés de responder a dona, em passos lentos, foi até a gaveta de um aparador. Volta com uma foto na mão. Mostra, perguntando:
— Você, por acaso, é um fã tão grande da Greta Garbo a ponto de andar com o retrato dela no bolso do seu paletó?
Ele pega e olha. Primeiro, coça a sobrancelha. Depois, dá mais um gole na bebida. Por fim, fala:
— Não me diga, Nair, que você não está conhecendo essa moça da foto?
— Não brinca comigo, Borges. É ela ou eu!
— Claro que você, minha vida. Pois quem está nessa foto é apenas você aos vinte anos, quando te conheci…
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ANTONIO CONTENTE –
Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
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Tudo bem, Nair tem um auto controle absoluto , um sangue mais frio que de uma cobra, e uma capacidade de planejamento digna de um engenheiro. Conseguiu aguentar o sapo na garganta por meses até se sentir pronta para enfrentar o marido supostamente infiel. Para descobrir que estava com ciúmes de si mesma! Ah, eu confesso que nao conseguiria…no momento mesmo da descoberta da foto meu sangue quente iria ferver , e nao sossegaria enquanto não pusesse tudo em pratos limpos…ou quebrados. Mulher como Nair, acho que só ela mesmo.