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É quase impossível, seja quem for, não estar nesse momento ao menos um pouco aflito, ansioso, revoltado ou preocupado. Dias estranhos, não só na política, no complexo comportamento humano, no revoltado meio ambiente, exalam o ar geral e violento que respiramos já há tempos.

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Não é coisa de agora não, desse momento eleitoral, ou dos impasses catastróficos no meio jurídico e institucional que agora se aceleram e vêm à luz; pior, ainda com muitas sombras. Tudo isso que assistimos perplexos vêm correndo e ocorrendo há muito tempo, desenhados e ignorados continuamente como se a sociedade esperasse aquele famoso jeitinho nacional, o esquecimento. Mas os fatos – alguns até comemorados por uns e outros como vitórias sobre inimigos – foram se empilhando em covas abertas, e delas se levantam para assombrar.

Tampouco foi culpa só da pandemia cruel e seus personagens, que levou tantos que amávamos e tampouco tiveram o direito de sobreviver. Que transformou todas as formas de relacionamento e informação. Aquela, da qual achávamos, otimistas, que dela sairíamos melhores. Perceba que já a vivemos arrastando correntes, que nem precisamos nomear. Ouvimos agora de novo o terrível som de seu arrastar.

Buscamos, repito que há anos, de um lado ou outro, criar e glorificar heróis, salvadores da Pátria, defensores do que acreditávamos correto ou justo. Alimentamos monstros que fulminaram, acusaram, prenderam, levantaram lebres, depois demonstrando seus reais interesses, os tais mitos, alguns ainda por aí tentando voltar à proa de onde foram desbancados morosamente. Aplaudimos e nos calamos depois diante de outras decisões despropositadas punindo com sentenças duras uns feios, velhos e pobres ignorantes mortais de verde e amarelo arregimentados, guerrilheiros destreinados, evocando moral, família, e a “liberdade” que acabaram perdendo. O Olimpo dos casos, os mandantes, os cabeças, os deixaram ardendo enquanto continuavam seus planos. Aí estão. Nos abrigamos sob capas pretas, já rotas, furadas, que remendamos.

A divisão das peças do tabuleiro se embolou, mostrando todos juntos no mesmo saco da corrupção, dúvidas, mentiras, manipulações, revelações. Se engalfinham em praça pública, estilingadas para lá e para cá, revelados nas notas soltas pelo caminho de um protótipo de banqueiro. Em detalhes cinematográficos.

A imprensa busca informações em milhares de páginas de documentos que o vento abre com sopros misteriosos, e que até a ela divide, acirrando concorrências, incluindo participações duvidosas de alguns. Nos mostra trechos do juridiquês, revela conversas. Como estão, se estão, de verdade, sendo entendidas?

A eleição bate à porta no meio de tudo isso. O temor é a de que seus resultados sejam novamente amargos e arrastados pelos tempos vindouros, nesse círculo nacional historicamente impreciso.


 MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, com passagens por alguns dos principais veículos, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.  marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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