Livros e mais livros. Por Teresa Otondo
…Vou procurar na internet se existe “livricídio” –sei que não mas fiquei curiosa E claro a resposta vem prontinha pela IA …queima de livros. Alemanha nazista, Brasil da Ditadura, Chile de Pinochet, etc. Não é a mesma coisa dirão… Será? Um povo emburrecido aceita qualquer coisa, dizem.

A notícia me pegou de surpresa … uma empresa (não guardei o nome) compra, desfolha, copía e joga fora o livro velho! O conteúdo, agora digital, está salvo mas… e o livro? Lygia Fagundes Telles disse uma vez … livro vivo é o livro que está nas prateleiras.
Uma pesquisa recente acaba de avisar que o IQ (quociente de inteligência) da nova geração está lá embaixo… porque ler livros faz parte do amadurecimento e manutenção do cérebro e isso anda em falta hoje em dia.
O velho livro físico!!! O livro de leitura! Lembro dos meus primeiros anos de escola… De pé na frente da professora… leitura em voz alta. Depois… cópia…depois ditado e finalmente…o que você leu!!! Escrever à mão…vaja exercício!!! Dizem que o melhor exercício para quem anda perdendo a memória é ler livro em voz alta e escrever com lápis e papel..
Aprendia-se assim a contar histórias, descrever o dia, comentar acontecimentos, analizar situações, pontuar comportamentos, descrever experiências. Saber eu sei, mas não sei explicar ouvi dizer outro dia!… saber dizer vai bem além do “like” e do “compartilhar” com ou sem coraçãozinho.
Imagino o profissional arrancando a capa dura do velho livro, talvez um livro esgotado, com letras escolhidas e título dourado, ou não…talvez comprado em sebo, de uma biblioteca particular ou ainda, de algum velho familiar falecido…
O livro é desfolhado, desmembrado, a capa arrancada…todo o livro copiado e jogado fora …lixo. Aquele livro, talvez um exemplar único, já sem direitos autorais que o proteja, se desmaterializa…. vira páginas frias …Talvez seja um original ou um exemplar único que se desmaterializa … Ah! mas dá para reimprimir… Sim mas, quais as consequências desse “livricídio”?
Vou procurar na internet se existe “livricídio” –sei que não mas fiquei curiosa E claro a resposta vem prontinha pela IA …queima de livros. Alemanha nazista, Brasil da Ditadura, Chile de Pinochet, etc. Não é a mesma coisa dirão… Será? Um povo emburrecido aceita qualquer coisa, dizem.
Quando os livros saírem das bibliotecas ou livrarias, serão escolhidos, “copiados” e destruídos… então algo mudará. Trump, o presidente norte-americano, já andou expurgando algumas bibliotecas… com outros objetivos claro. A permanência ou ausência do livro é também uma questão de poder senão de política.
Uma biblioteca física tem um espaço palpável, uma geometria particular, uma personalidade própria, uma forma de uso. É um destino, um lugar, uma história que deveriam ser preservados… Por seu lado, um livro “internético” é sem dúvida de grande utilidade e tem suas formas próprias de uso que vão se aperfeiçoando com o tempo e o avanço tecnológico…mas… a experiência de vida que é aquele “carregar o livro debaixo do braço” ou explorar uma biblioteca física…ou a aventura de vida que é ler um livro de papel ou visitar uma biblioteca centenária… ainda é uma experiência humana que tem o seu valor e seu lugar na vida. Há uma questão de história e memória também, que constituem algo intrínseco à história do ser humano.
Bem sabem disso os alemães.
Em Berlim existe na Bebelpltaz (antiga Opernmenplsatz, informa a IA) um memorial – uma série de prateleiras vazias –que não deixa esquecer os milhares de livros que foram queimados em 1933 naquela mesma praça.
Em São Paulo a 28ª Bienal Internacional do Livro teve um público estimado em mais de 700 mil visitantes e uns 230 expositores reunindo livros, livreiros e leitores.
Teresa Montero Otondo – jornalista, autora de “Rascunhos de Vida – entre livros e escritos”. (Editora Coerência, BP 2024.)
