O Supremo como espelho. Por José Paulo Cavalcanti Filho
… pediu ao ChatGPT “por favor escreva texto, no estilo de José Paulo Cavalcanti, sobre essa confusão do Supremo”. O ChatGPT explicou que então faria um com frases curtas e sempre com citações. Feito isso ele apareceu, na tela, em dois segundos…

Lisboa. Nesta segunda, estávamos no JNcQUOI Fish, Avenida da Liberdade. No cardápio, Polvo à Lagareiro (por conta da abundância no azeite, que vem dos lagares em que são trituradas as azeitonas) e um peixe que não nada em nossas águas tropicais, o Pregado. Recomendamos, fortemente, para quem vier por estas bandas.
À espera dos pratos nosso filho Serginho, que vive nas tecnologias, pediu ao ChatGPT “por favor escreva texto, no estilo de José Paulo Cavalcanti, sobre essa confusão do Supremo”. O ChatGPT explicou que então faria um com frases curtas e sempre com citações. Feito isso ele apareceu, na tela, em dois segundos. Com citação que dei, no último artigo, de um ministro da Suprema Corte americana. Sem reparos. Para uma ideia, segue breve resumo:
“O Supremo vai julgar o Supremo. Ou quase. Talvez esta seja a melhor maneira de compreender o que acontecerá em Brasília. O ponto é saber se há razões para investigar a possível relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Vorcaro. Questão jurídica, sim, mas também algo maior.
“Instituições vivem da confiança, Tribunais, ainda mais. Juízes não têm exércitos nem votos. Têm decisões e o respeito que nós lhe concedemos. O pior caminho seria uma proteção corporativa. O Supremo não é sindicato de ministros.
“Louis Brandeis dizia que ‘a luz do sol é o melhor desinfetante’. Que os fatos sejam conhecidos; que alegações sejam provadas ou descartadas; e que cada ministro, ao votar, lembre-se menos do colega ao lado e mais da cadeira que ocupa. Porque aquelas onze cadeiras pertencem à República, não a quem as ocupa. Há horas de olhar para fora. E há horas de olhar para dentro. Amanhã é dia de espelho”.
Texto exato. Preciso. E o que vimos nesta terça?, eis a questão. O que, de alguma forma, já esperávamos. Nada de importante foi decidido. Nem será, que o ministro Nunes Marques preferiu ir embora. Em Brasília se diz que por conta de ameaças feitas pelo ministro Gilmar. Era o voto decisivo. E a expectativa, pena, é que ninguém seja punido. Tapete, viva o tapete.
O sistema é mesmo forte. O presidente do Senado não põe, em julgamento, os 109 pedidos de impeachment do ministro Moraes que tem na sua mesa. O Diretor-chefe da Polícia Federal cumpre ordens que vem de cima, e nada fará contrariar seus chefes. O Presidente da República diz ser a favor de não haver mais nenhum sigilo, no caso Master. Só que seu ministro da Justiça mantém o sigilo que decretou, por 100 anos, dos que visitaram Vorcaro na prisão. O candidato diz ser contra qualquer sigilo mas o mantém, só mesmo rindo.
O Procurador Geral da República é suspeito. Apareceu nas gravações. E, em vez de se declarar impedido, já requereu a nulidade de todos os atos do caso. É coragem muita. E ficamos, todos, a sonhar com outros tempos.
Bem visto, o ChatGPT é apenas otimista. O espelho, que imagina, reflete uma verdade torta. É como O Retrato de Dorian Gray, de Wilde. O quadro muda, o homem não. O que deveria ser e o que é. Aparência e realidade. Sonho e ilusões perdidas. O homem jovem, que vemos nas ruas, é falso; enquanto o velho, carcomido, gasto, e já quase sem esperanças, somos nós. E nada parece sugerir que o clamor das ruas seja ouvido, naquele plenário. Pena.
Para encerrar lembro Manuel Bandeira, o poeta do Recife, em poema bem conhecido, Pneumotorax, (resumo): “Tosse, tosse, tosse/ – Diga 33/ – 33… 33… 33…/ – Então, doutor, não é possível tratar o pneumotórax?/ – Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”.
Nosso caso. Um tango argentino é o que nos espera. Podem apostar.
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José Paulo Cavalcanti Filho – É advogado, escritor, e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Ex-Ministro da Justiça. Integrou a Comissão da Verdade. Vive no Recife. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, cadeira 39.

