Temos de nos preparar para responder à injustiça dos EUA. Por Fernando Gabeira
INJUSTIÇA…Poderemos retaliar no futuro no campo dos minerais estratégicos. Para isso, precisamos pelo menos mapear os recursos…

- PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO - E NO SITE DO AUTOR- www.gabeira.com.br 28 DE JULHO DE 2026 -
Os Estados Unidos estão sendo injustos com o Brasil. Parte das novas tarifas aplicadas a nossas exportações é baseada em acusações falsas. O país combate o trabalho escravo e reduz o desmatamento. Aqui foi aplicada a lógica do lobo e do cordeiro. Se não somos nós os culpados, então foram os nossos primos.
Num momento como este, muitos falam em retaliação. É uma reação emocionalmente compreensível. Mas, pensando bem, é possível encontrar uma solução melhor. Ela seria um grande projeto de união nacional para que a gente desenvolva capacidade real de retaliar. Você pode chamar isso de soberania, mas não deve confundi-la com os gritos de soberania nos comícios eleitorais.
Na verdade, é algo mais profundo que, em alguns casos, implica décadas de esforço contínuo, independentemente da troca de governos. É preciso, para começar, uma política para incentivar as exportações, que transcenda o puro financiamento. Isso implica maior abertura.
No campo da soberania digital, é preciso um trabalho de décadas. A política chinesa data de 1988 e parte da concepção de que a internet deve ser governada pelo próprio país. É um modelo difícil de replicar porque a China começou por criar uma “Great Firewall”, bloqueando Google, WhatsApp, Instagram, enfim, todas as plataformas.
Não é esse nosso caminho. Muito menos nosso estágio. No momento, o Brasil desenvolve um sistema de mensagens para uso do governo. É um trabalho conjunto da Abin, do Serpro e da Universidade Federal do Ceará. Para pensar em algo amplo, será necessário construir uma infraestrutura de data centers, rede de telecomunicações e criptografia nacional. Isso para mencionar apenas alguns itens essenciais.
Ao contrário da China, um aplicativo nacional teria de atrair os usuários numa competição direta com as redes. Isso depende muito de coerção regulatória. Mas a existência de uma infraestrutura nacional traria um escudo contra boicotes externos. Hoje, se o WhatsApp deixasse de funcionar no Brasil, os prejuízos seriam grandes para a economia do país.
Outro campo em que poderemos retaliar no futuro são os minerais estratégicos. Para isso, precisamos pelo menos mapear os recursos. No momento, americanos em Goiás e australianos em Minas extraem terras raras. Ainda não há como retaliar. No caso do nióbio, o Brasil é o país dominante. Temos cerca de 90% da produção mundial e aproximadamente 95% das reservas globais. Aí está uma possibilidade que, combinada a outras, daria ao país uma chance de encarar com altivez as injustiças que sofre. No momento, é importante proteger os exportadores atingidos e formular uma política de longo prazo que reduza os impasses no comércio exterior.
A conjuntura é negativa. Os Estados Unidos governam a Venezuela por meio de um vice-rei, Marco Rubio. Arrecadam o dinheiro do petróleo e repassam parte aos ditadores como se fosse a mesada de adolescentes. Os resultados eleitorais recentes no Chile, no Peru e na Colômbia mostram que o continente tende a isolar o Brasil, com aliados de Trump por todos os lados.
Nesse contexto tão especial, seria interessante buscar o maior nível possível de unidade nacional em torno de um projeto de longo alcance. Não temos tempo para bobagens, e as eleições, infelizmente, parecem produzi-las em grande escala.

