Dr. Fu Manchu

Imagens do que se foi. Coluna Carlos Brickmann

IMAGENS DO QUE SE FOI

COLUNA CARLOS BRICKMANN

Dr. Fu Manchu
                                             Fu Manchu

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE DOMINGO, 10 DE JANEIRO DE 2021

Não, a democracia americana não correu riscos por causa da invasão do Capitólio, a sede do Congresso dos Estados Unidos. Como diria o general de Gaulle (que assim se referiu aos tumultos na França em 68) foi um chienlit – uma cachorrada. De Gaulle, político de pés no chão, conversou com seus comandantes de tropa, viu que tinha base, e pediu a Georges Pompidou, seu aliado, que liderasse a passeata gaulista que parou Paris. Acabou-se a guerra.

Trump chegou ao dia 6 de janeiro com uma estatura. Como presidente reduziu o desemprego a quase zero, chegou a um acordo com o México que diminuiu a imigração clandestina, criou condições para que empresas americanas em outros países voltassem aos Estados Unidos, obteve apoio de aliados na disputa de 5G com a China, enquadrou a Coreia do Norte, foi o primeiro presidente americano a pisar em solo norte-coreano, conseguiu quatro acordos de paz no Oriente Médio, não se envolveu em guerra alguma. Geriu a pandemia com rara incompetência, mas liberou verbas para a Pfizer e a Moderna, ambas já fornecendo vacinas ao mundo inteiro – ou quase.

Trump saiu do dia 6 de janeiro muito menor do que entrou, após estimular as manifestações que geraram a invasão do Capitólio (e cinco mortes). Ainda pode ser afastado do cargo, por incapacidade, mesmo a poucos dias do fim do mandato. Perdeu o controle do Senado, ganhou o repúdio de seu partido.

E, como diria o poeta espanhol, para que? Para nada.

 The second one

Mark Pence, vice de Trump, tomou a palavra tão logo os vândalos foram expulsos do Capitólio. “Àqueles que criaram caos na nossa capital hoje: vocês não venceram. A violência jamais ganha”. Verdade: Trump, após a derrota, já era chamado de lame duck (pato manco). Após a confusão, o pato continuou manco. A outra perna, os que se afastaram dele, foi-se.

 Recordando

Mais riscos correram os EUA nas duas guerras contra a Grã-Bretanha, no século 19; mais riscos correu a democracia americana na Guerra Civil, ou na quebra da Bolsa (crise que durou dez anos), ou quando, enfrentando grupos isolacionistas, o presidente Roosevelt levou o país à Segunda Guerra. Houve presidentes assassinados, houve Watergate. Chienlit de uma noite, risco zero.

Nosso futuro, nosso passado

Parece claro que o presidente Bolsonaro trabalha com tática semelhante à de Trump: dois anos antes das eleições, já prevê fraudes. Mais que Trump, tem alguma tropa armada, e por algum motivo parece ansioso em importar armas sem impostos. Mas lembremos: em 13 de março de 1964, houve no Rio imenso comício pró-governo João Goulart. Goulart tinha o apoio de algo chamado Dispositivo Militar, chefiado pelo general Assis Brasil; de cabos e sargentos dispostos a ignorar a hierarquia militar; de “generais do povo” em tudo que era estatal; de Grupos dos Onze comandados por Leonel Brizola, das Ligas Camponesas de Francisco Julião, de generais amigos em todos os comandos militares, tudo gente armada. No palanque, o líder comunista Luiz Carlos Prestes proclamava: “Já estamos no Governo, só nos falta tomar o poder”. Dezoito dias depois, sem um único disparo, o Governo era deposto.

 Velhos livros 1

Nas primeiras décadas do século 20, fez sucesso um herói do Mal: o Dr. Fu Manchu, criado por Sax Rohmer. Fez sucesso em livros e em filmes. Sax Rohmer jamais foi à China, mas imaginou um lugar sombrio, perigoso, onde não ser bandido era quase um crime. O Dr. Fu Manchu era uma espécie de Lex Luthor (alô, fãs do SuperHomem), sempre buscando dominar o mundo.

Na Biblioteca, na época em que era hábito frequentar bibliotecas, li muito o Dr. Fu Manchu. Pois não é que as histórias antichinesas de hoje são iguais às dele? Só entra um capítulo novo, o comunismo. A China é uma ditadura, e este é um bom motivo para este colunista rejeitar seu regime. Mas também é verdade que, com raras exceções – Tibete, a principal – não busca ampliar seu território, aliás já vastíssimo. Não, não querem conquistar o Brasil, nem a Argentina: parece que estão mesmo interessados em fazer bons negócios.

 Velhos livros

E essa bobageira toda sobre Nova Ordem Mundial globalizante, que junta banqueiros, industriais, o Papa, artistas pedófilos de Hollywood e, naturalmente, os comunistas? Está tudo descrito num livro em quatro volumes que se pode conseguir na Amazon: “The International Jew”, de Henry Ford – sim, ele mesmo. Ford era ferrenho antissemita e escreveu inspirado pelo “Protocolos dos Sábios do Sião”, obra forjada pela Polícia Secreta do czar do Império Russo.

O livro de Ford é citado em Mein Kampf (“Minha Luta”), de Hitler; Ford recebeu de Hitler a maior condecoração do país, a Grande Cruz da Águia Alemã. Está tudo ali. Hoje, não usam a parte referente aos judeus, mas haja judeus citados entre os (é insulto) globalizantes!

E não há limites: para eles, o Papa Francisco é tão comuna quanto a China.

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