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Dias piores virão. Por Edmilson Siqueira

DIAS PIORES VIRÃO

EDMILSON SIQUEIRA

…a maior troca nos Ministérios do atual governo deve resultar no mesmo que mijar em incêndio. Na verdade, como disse o jornalista Josias de Souza, o nome da crise não é o de nenhum ministro, é Jair Messias Bolsonaro. De nada adiantarão as trocas todas, pois continuarão as mesmas e péssimas políticas em praticamente todas as áreas do governo.

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 As mudanças ministeriais ocorridas meio de supetão revelam que o capitão não quer mais ninguém que sequer hesite em lhe bater continência e dizer “sim senhor” a tudo que ele quiser. As trocas seriam de 6 por meia dúzia, não fosse esse detalhe, que só as torna piores, muito piores.

O ministro da Defesa que saiu, general Fernando Azevedo, vinha se mantendo no fio da navalha, entre os arroubos e besteiras do capitão, as idiotices de seus filhos, as estultices de outros ministros olavistas e as próprias forças militares e o STF. Ex-auxiliar de Dias Toffoli, o ex-ministro tinha bom trânsito na cúpula do Poder Judiciário e sabia contornar situações que poderiam, num pequeno gesto ou palavra, se tornarem explosivas. Além disso, sabia dizer não ao capitão, como quando foi sondado para promover Pazuello a general de quatro estrelas. Teria que furar a fila das promoções e dar uma quarta estrela a um general que está demonstrando não merecer nem a terceira. Deixa de ser ministro, mas continua general da ativa e nome forte entre as três forças. Logo após a demissão, em conversa com o presidente do STF, Luz Fux, o general declarou que “as Forças Armadas não vão se curva aos desejos autoritários de Jair Bolsonaro.” É uma declaração forte que, se revela um compromisso com a democracia e a Constituição, desnuda também intenções pra lá de péssimas do capitão de plantão no Palácio do Planalto.

A saída do Advogado Geral da União, José Levi, segue esse mesmo “protocolo”. Levi, há pouco mais de dez dias, percebeu uma grande bobagem que o capitão queria fazer e se recusou a dela participar. Resultado: o pedido ao STF para julgar inconstitucionais as medidas de três governadores impondo toque de recolher para tentar conter a pandemia e salvar vidas, foi encaminhado sem a assinatura (e o aval, diga-se) da AGU. Trata-se de erro grosseiro na propositura de ações da Presidência da República junto ao STF, pois elas têm, obrigatoriamente, de serem propostas pela AGU. O ministro Ricardo Lewandowski nem entrou no mérito para arquivar o pedido:  em uma página assinalou o “erro grosseiro” e apenas alertou o capitão que ele tinha sim obrigações para melhorar as condições de combate à pandemia.

A volta de André Mendonça à AGU no lugar de Levi, escancara a intenção do capitão de judicializar seu mandato contra todos aqueles que ele considere inimigos. E Mendoncinha (um apelido que seria até simpático, não revelasse sujeição extrema) está lá pro que der e vier, como demonstrou em seu curto período de ministro da Justiça ao usar a famigerada Lei de Segurança Nacional para tentar calar, com feroz censura, vozes contrárias aos descalabros do capitão.

A primeira demissão que destampou o inchado balão de inutilidades em que se transformou o Palácio do Planalto, foi do inacreditável ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Diplomata de carreira, sem nunca ter servido como embaixador, foi guindado a chefe de todos os embaixadores por ser seguidor fiel de um guru, ex-astrólogo, que se autointitula filósofo, chamado Olavo de Carvalho e que mora nos EUA, não se sabe bem porquê. Sua “fé” nas filosofadas olavistas encontram eco no, digamos, pensamento dos filhos do capitão e de vários membros inferiores do governo, que formam uma turma mais unida e coesa que arroz papa. Conseguiu comprar briga com os mais importantes parceiros comerciais do Brasil, colocou a maior mina de ouro do país – o agronegócio – em risco de parar de vender para os maiores compradores, enxergava comunistas até sob a própria cama e considerava a pandemia da covid 19  um plano chinês para conquistar o mundo. Sim, ele é formado pelo Itamaraty, um órgão cujas qualidades são tão elevadas que nem o PT conseguiu estragar. Araújo, com mais um ano de poder, talvez conseguisse. Seu substituto, Carlos Alberto Franco França, é outro embaixador que, sem passar pelo cargo maior da carreira, vai assumir o topo por nomeação política. Como é bem novo ainda, deve se submeter a tudo que o capitão mandar, preenchendo o protocolo de substituição criado para mudar tudo sem mudar nada. Ou piorar.

A troca no Ministério da Justiça e Segurança Pública aconteceu porque Mendoncinha foi para a AGU. O terceiro ministro do capitão em área tão sensível será um delegado da Polícia Federal e muito ligado aos filhos de Bolsonaro. Por aí já se vê que a troca é realmente de seis por meia dúzia, com a vantagem para o capitão de que terá um domesticado na AGU e um que nada vai mudar na Justiça e Segurança Pública. Ou seja, vai continuar ruim.

O general Braga Neto, que estava na Casa Civil, vai assumir o Ministério da Defesa. Braga era do círculo íntimo de Bolsonaro e não se tem notícia de que tenha contrariado o chefe alguma vez. Na Defesa, vai cuidar de coisas muito maiores, como as três forças armadas. Separar essas forças da política mequetrefe do capitão é missão que seu antecessor cuidou muito bem. Vamos ver como Ramos se sairá no ofício. É uma incógnita num setor sensível demais.

Para o lugar de Ramos na Secretaria de Governo, o capitão resolveu fazer um agrado explícito ao Centrão. Convidou a obscura deputada federal Flávia Arruda (PL-DF) que exerce seu primeiro mandato. Sua maior credencial era ser do grupo de  Arthur Lira (PP-AL) e mulher do ex-governador de Brasília José Roberto Arruda (PL). Como sua secretaria nem verba própria tem, será uma espécie de secretária mesmo, só que do Centrão, para levar e trazer os,  talvez, milhares de pedidos do grupo, todos, com certeza, pedindo verbas e cargos.

E, assim, a maior troca nos Ministérios do atual governo deve resultar no mesmo que mijar em incêndio. Na verdade, como disse o jornalista Josias de Souza, o nome da crise não é o de nenhum ministro, é Jair Messias Bolsonaro. De nada adiantarão as trocas todas, pois continuarão as mesmas e péssimas políticas em praticamente todas as áreas do governo.

Ou podem, como muita gente teme, piorar tudo. Afinal, os que estão ressabiados, estão se lembrando da troca de Moro por Mendoncinha; de Mandetta por Pazuello e, agora Queiroga; de Ricardo Vélez por Milton Ribeiro; de ninguém (não existia o Ministério das Comunicações) por Fábio Faria; ou seja, tem tudo pra piorar mesmo.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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