CHEGAMOS - COMO CHEGAMOS?

Como chegamos a isso? Por Edmilson Siqueira

Potiguar Serviços : Dedetizar ou Detetizar???? | Ilustração de personagens, Menininhas fofinhas, Ilustração empresarial A história recente do Brasil nos ajuda a entender como chegamos a essa situação, onde um presidente totalmente insano governa o país e sua sucessão parece encaminhada para que o maior corrupto que já houve na história do mundo volte ao poder.

Depois do golpe de 64 que afastou a esquerda dita revolucionária que queria instaurar no Brasil uma ditadura comunista nos moldes da soviética, da cubana, da chinesa, ou seja lá de quem for, não faria diferença, pois qualquer uma delas resultaria no mesmo atraso de vida, com milhões de execuções, censura total, partido único, tortura como método de investigação, economia em frangalhos, uma pequena elite gozando das riquezas todas e todos os cidadãos estritamente vigiados. No lugar desse terror, tivemos uma ditadura de direita, menos assassina que os modelos conhecidos, mas, de resto, muito parecida com as de esquerda.

E foi a partir daí que a prática política do Brasil contemporâneo, baseada no binômio “poder e corrupção” começou a se moldar. No início, alguns generais até estavam imbuídos de fazer alguma coisa além de eliminar a esquerda. Castelo Branco talvez fosse bem-intencionado, mas seus sucessores, todos os quatro, criaram o pesado estado brasileiro, cheio de estatais e cheio de oportunidades para os mais espertos.

A classe política que, por ser altamente desonesta em sua grande maioria, sabe se moldar a qualquer situação, soube tirar proveito da nova ordem. Os dois partidos permitidos pela ditadura, Arena e MDB, toparam participar do circo desde que tivessem algumas vantagens. Foi assim que muitos políticos da chamada oposição, se enriqueceram durante a ditadura militar. Dois exemplos: Orestes Quércia, ex-prefeito de Campinas, foi eleito senador e chegou a governador. À sua carreira inicial de político ele acrescentou uma empresa que se beneficiou, e muito, do seu governo municipal. Ele saiu rico da prefeitura, ficou um pouco mais rico como senador e bilionário como governador.

Mas ele não era o único. O quase inatacável Ulysses Guimarães cobrava 10% mensais dos salários dos servidores municipais que ele encaixava nas prefeituras do MDB. Uma espécie de rachadinha ampla e geral no estado mais rico do Brasil. E o MDB nunca teve, durante a ditadura, menos de 100 prefeitura no Estado de São Paulo, chegando a mais de trezentas no fim do período ditatorial.

Esses “modelos” de enriquecimento que, claro, eram conhecidos dos militares, não eram reprimidos como deveriam, já que muitos militares também deles se beneficiavam. Por exemplo: um milico de Campinas (não sei se já reformado à época) abriu uma empresa de engenharia e ganhou as maiores e melhores concorrências do governo de um prefeito que, eleito pelo MDB, se bandeou para a Arena, aliando-se à ditadura. Esse prefeito era sócio do Quércia em pelo menos um empreendimento, uma rede de cemitérios. A empresa do milico  fechou logo depois do fim do tal governo.
Exemplos como esses devem ter proliferado pelo Brasil inteiro e só não eram denunciados porque a imprensa viveu sob ferrenha censura até o fim da ditadura, o que acabou criando aquela história, que muitos repetem por aí, de que durante os governos militares não havia corrupção. Não é que não havia; elas não podiam ser publicadas na imprensa.

Ao fim da ditadura, o governo Sarney, que assumiu com a morte de Tancredo Neves, foi uma continuação da ditadura em vários desses aspectos não republicanos. Não houve presos políticos, nem tortura, nem censura, mas a corrupção encontrou uma enorme avenida pela frente para correr livre, leve e solta, ainda mais incentivada pela ausência de mecanismos eficientes de combate, o que só ocorreria depois de Constituição de 88 e com a reestruturação do Ministério Público.

Fernando Collor, que sucedeu a Sarney, tanto fez que foi derrubado por corrupção com dois anos de governo. E, hoje se sabe muito bem, que a queda de Collor se deu porque ele se isolou no governo, não quis fazer acordos ($$$) com o centrão da época e achou que a vontade popular seria suficiente para mantê-lo no poder. Não foi, claro. Seu vice, Itamar Franco, velha raposa mineira, soube costurar arranjos para derrubar o titular e assumiu por quase dois anos um governo que acabou sendo surpreendente, e não por causa do presidente em exercício. Sua única façanha foi convidar algumas pessoas certas para fazer o que ele não sabia. E, sem saber muito bem o que estava acontecendo, assinou as leis e os decretos que provocaram uma revolução econômica no Brasil, que elegeu e reelegeu seu sucessor.

A era Fernando Henrique, se foi pródiga em sanear quase todo o sistema econômico do país, errou feio ao não privatizar as grandes empresas e bancos estatais e manter as relações com o Congresso num toma-lá-dá-cá que, se foi discreto e não gerou grandes escândalos, cimentou o modus operandi que vinha ocorrendo desde o tempo dos militares e que encontraria seu ápice com Lula e o PT.

Enquanto FHC mantinha o sistema corrupto sob domínio, sem grandes exacerbações, exatamente para poder tocar a economia do país de um modo minimamente satisfatório, Lula e seu partido mais à esquerda que a social-democracia que estivera no poder, tinham outros planos: pretendiam se eternizar por lá e, para tanto, compraram deputados e senadores em número suficiente para ganhar qualquer votação na Câmara e no Senado. Além disso, cuidaram de prover o partido de fundos necessários para realizar grandes campanhas eleitorais e ter um curral eleitoral grande, fiel, e perene, também comprado com programas sociais especialmente voltados às classes mais miseráveis do país.

Ou seja: poder e corrupção no Brasil andam de mãos dadas há muito tempo, tendo feito graduação durante o período militar, pós-graduação com Sarney, doutorado com FHC e o pós-doutorado com Lula, credenciando-se, nos 14 anos do PT, a um Nobel da maracutaia com dinheiro público sem a mínima possibilidade de ter algum concorrente de peso.

Esse cenário todo, que levou ao desespero milhões de brasileiros por não se conformarem em ver tanta roubalheira impune no país, levou pouco mais da metade do eleitorado a apostar num político aparentemente descredenciado para presidente, mas que prometia botar ordem na casa. A Lava Jato muito contribuiu para o clima de possível fim da corrupção no Brasil e seu representante maior, o juiz Sergio Moro, estava ao lado do descredenciado.

Só que o Brasil não é para amadores. Se o eleitorado brasileiro elegeu alguém que prometia combater sem tréguas a corrupção, elegeu também um Congresso com pouca renovação em matéria de caráter e honestidade. Se há muitos nomes novos, a maioria deles entrou lá para fazer justamente o que os substituídos faziam: tentar enriquecer com o dinheiro público.

E não demorou muito para se descobrir que o descredenciado não era bem o que aparentou ser durante a campanha: descoberta a franquia de rachadinhas que ele e seus filhos comandaram durante anos em seus gabinetes de vereador, deputado estadual e federal, a máscara caiu, o avalista Sergio Moro se mandou ao perceber que o barco era furado e aquela galera do Congresso afiou as garras e se preparou para iniciar a caça ao Tesouro, joguinho sujo na qual ela é imbatível.

E hoje estamos percebendo que a experiência desses anos todos – mais de meio século – de corrupção (não que não existisse antes, mas aumentou muito de 1964 pra cá), acabou por aprimorar métodos e melhorar resultados. Tanto que setores dos três poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário – se uniram, formando uma espécie de poder garantidor que, ao mesmo tempo que faz leis para que impere a impunidade, solta todas as quadrilhas e seus respectivos chefes e nada de braçadas nos gabinetes de ministérios e nas presidências das estatais, garantindo o enorme quinhão que surrupiam do Tesouro, boa parte dele garantido por lei e isento de fiscalização. Estamos vivendo o final da construção do estado democrático da corrupção, onde os que estão no poder usufruem do butim e nele se mantêm.

Assim, se Bolsonaro for reeleito ou se Lula voltar ao poder, esse estado de corrupção – que é o que interessa aos tubarões todos – tem garantida a sua continuidade, como disse o banqueiro André Esteves no escândalo do fim de semana, num áudio vazado (ou devidamente distribuído com ares de “vazado” para ajudar um pouco o desmoralizado ministro da Economia, Paulo Guedes). Em outras palavras, ele, que já foi preso em processo de corrupção e solto depois, inocentado, como sói acontecer com os mais ricos, disse: “Está tudo dominado. Bolsonaro ou Lula são gente nossa, são coisas nossas…”

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Edmilson Siqueira é jornalista

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