O Brasil se solidariza à Rússia

O Brasil se solidariza à Rússia. Por José Horta Manzano

O Brasil se solidariza à Rússia

Para Celso Luft (1921-1995), grande dicionarista e profundo conhecedor da língua, o verbo solidarizar pode ser usado pronominalmente (solidarizar-se). Nesse caso, pedirá a preposição com: Solidarizar-se com algo ou com alguém.

Em conversa com Vladimir Putin, o autocrata russo, nosso capitão rosnou que “o Brasil se solidariza à Rússia”. Digo que ele rosnou porque rosnar é o verbo que melhor descreve seu modo habitual de se expressar. O capitão não fala “pra fora”, como se diz. Ele lança sons meio enrolados. O final das palavras sai engolido. Muitas vezes, faltam os verbos. Para serem entendidas, suas frases têm de ser reconstruídas, como fazem os linguistas com línguas desaparecidas.

Tirando a pisada de bola na regência do verbo e depurando a frase, fica a afirmação de que “o Brasil se solidariza com a Rússia”. Que diabo ele quis dizer com isso? Analistas de boa cepa espremem as meninges pra entender aonde o presidente quis chegar. No fundo, ninguém conhece ao certo a abrangência do pensamento presidencial. Nem ele mesmo, provavelmente.

Para Merval Pereira (d’O Globo e da ABL), “Bolsonaro não sabe usar as palavras, e é possível que nem soubesse o que estava falando quando afirmou que o Brasil é ‘solidário à Rússia’. Ele provavelmente estava se referindo à economia e ao comércio, mas se solidarizar com a Rússia numa visita oficial é um erro absurdo neste momento de crise.”

Para Bruno Boghossian (da Folha de São Paulo), “O Bolsonaro que visitou Putin exibiu sua própria falta de expressão. Ninguém se incomodou muito quando o presidente disse que os brasileiros eram ‘solidários à Rússia’ – o que poderia indicar que o país apoiava o Kremlin nas tensões com a Ucrânia. Na mesa dos adultos da diplomacia, ele praticamente desapareceu.”

Há outras análises, todas no mesmo tom. Ao final, fica a terrível impressão de termos um presidente ignaro que, como num jogo de cabra-cega, é conduzido de olhos vendados por não se sabe quem, para não se sabe onde. O homem não parece ser mestre do próprio destino. Vai para onde mandam que vá.

Nosso país parece estar sendo dirigido por uma junta misteriosa, sem rosto, sem etiqueta, sem nomes. Quem, na verdade, conduz os negócios? Entre os organizadores dessa farsa macabra, estarão certamente os filhos, os generais palacianos, os cabeças do centrão. E sabe-se lá mais quem. Fica patente que o presidente não é senhor de seus atos. Embora, pelo cargo, devesse representar a nação brasileira, seu desempenho denuncia que ele é apenas representante de si mesmo.

Insignificante fora das fronteiras e nocivo no país, qual é o lugar de Bolsonaro? Acredito e espero que os rios de (nosso) dinheiro que ele possa torrar daqui até outubro não serão suficientes para reelegê-lo. Nossa Senhora dos Aflitos não vai nos faltar.

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JOSÉ HORTA MANZANO – Escritor, analista e cronista. Mantém o blog Brasil de Longe. Analisa as coisas de nosso país em diversos ângulos,  dependendo da inspiração do momento; pode tratar de política, línguas, história, música, geografia, atualidade e notícias do dia a dia. Colabora no caderno Opinião, do Correio Braziliense. Vive na Suíça, e há 45 anos mora no continente europeu. A comparação entre os fatos de lá e os daqui é uma de suas especialidades.

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1 thought on “O Brasil se solidariza à Rússia. Por José Horta Manzano

  1. Acrescentem-se ao vasto cabedal linguístico do atual ocupante da cadeira presidencial aquilo que o ministro Barroso definiu como “limitação cognitiva” e “baixa civilidade”.
    Barroso sempre elegante.

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