ralé do planeta

A ralé do planeta. Por Edmilson Siqueira

… o destino desse infeliz continente vai sendo marcado por desgraças atrás de desgraças, por péssimos governos seja qual for a preferência ideológica e pelo adiamento eterno de um crescimento sustentável, provando que jamais chegaremos a frequentar o primeiro mundo. Somos a ralé do planeta e vamos continuar assim por muito tempo…

ralé do planeta
Entre os anos 1960 e 1970, várias ditaduras de direita, militares, se instalaram na América Latina através de golpes. Eram todas violentas, com torturas, assassinatos, censura, controle sobre a economia, sobre sindicatos e sobre os partidos que só existiam, legal e politicamente, se a ditadura permitisse. Era o modelão ditatorial que tanto a direita quanto a esquerda promovem quando tomam o poder com intenção de lá não mais arredar pé.
Foi assim em Cuba e, antes, na Rússia, apenas pra ficar nos exemplos mais notórios. O fim de todas as liberdades políticas e sociais é sempre condição essencial para que uma ditadura sobreviva, seja ela de que matiz ideológico for.

Inclusive essa discussão de que Hitler era socialista, que Mussolini era de esquerda, se há alguma comprovação factual – e há, já que Hitler era aliado de Stalin e dele copiou campos de concentração e outras medidas extremas e Mussolini era editor de um jornal comunista na Itália – não têm a menor importância. O que igualava os extremos em quase tudo era o autoritarismo mantido com a máxima violência contra os que ousavam pensar ou agir contra o regime instalado.

Depois da eliminação física da oposição, a próxima vítima era a imprensa. Se no comunismo a imprensa pertencia ao governo diretamente, ou seja, jornalistas e editores só podiam arranjar trabalho nos órgãos de imprensa do governo, pois outros não existiam, nas ditaduras de direita a imprensa era cooptada pelo ditador em troca de benesses, como farta publicidade. Mas quem ousasse sair da linha de apoio total ao governo tinha suas redações invadidas, o maquinário destruído e até donos de jornais e jornalistas assassinados. A Venezuela está aí pra comprovar tudo isso.

Quando essas ditaduras começaram a cair, principalmente por causa da falência econômica dos países – o nacionalismo de direita era tão fracassado quanto o método de esquerda socialista: ambos exigiam o domínio das forças de produção, um indiretamente, outro diretamente e o resultado era sempre uma conta maior a ser paga com um resultado financeiro menor – forças de direita e de esquerda se assanharam para entrar no ligar do milicos, democraticamente.

Assim que as ditaduras foram caindo, deram lugar a eleições livres e diretas que, para infelicidade geral da nação, elegeram velhos políticos que implantaram o velho populismo de centro ou centro-esquerda, produzindo novas constituições que algemaram os países em si mesmos tantos eram os benefícios que eles queriam distribuir para, claro, se manter no poder, não importando quanto o caixa do Tesouro suportasse.

Resultado: o grande progresso e desenvolvimento prometido nas campanhas, não passou de um traque e a inflação começou a mostrar suas garras e a empobrecer o país e o povo, enquanto governantes ficavam sempre mais ricos.

Nesse cenário de quase desespero, os eleitores começaram a eleger gente cada vez mais aventureira e demagógica. Aqui no Brasil foi um tal de “caçador de marajás” que, dois dias antes de tomar posse, tirou todo dinheiro do mercado, deixando todas as contas bancárias – inclusive as poupanças – com, se não me falha a memória, 50 mil cruzeiros (o que era uma merreca). Foi uma “revolução” que não teve nenhuma consequência boa, pelo contrário: sem dinheiro, a produção diminuiu e os preços explodiram. A ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, coitada, parecia cada vez mais perdida no meio do tiroteio econômico. Depois que se demitiu do governo – ou foi demitida – nunca mais se ouviu falar dela, tamanho o trauma que provocou e, com certeza, sofreu.

Após um breve respiro de quatro anos, com o governo de Fernando Henrique Cardoso, cujo mérito, cada vez mais isolado, foi o de conter a inflação e criar uma moeda forte, o populismo e, no caso do PSDB, a covardia política, fizeram o resto: FHC entregou o país a um líder de esquerda, com um partido inimigo da direita, do centro e da esquerda tradicional que, no poder, se aliou ao que de pior havia no mercado político do Congresso. Se houve algum avanço, foi só na distribuição, sem método, de dinheiro aos mais pobres em troca dos votos deles. O resto foi só corrupção, tanto da escória do Congresso quanto dos próprios partidos de esquerda que, sem qualquer pudor, também meteram a mão no erário com gosto.

O fim desse pesadelo “esquerdizoide” no Brasil, trouxe outro pesadelo travestido na figura de um obscuro deputado, ex-militar, admirador da ditadura e da tortura como método de confissão, que só não afundou de vez o país porque nem pra isso ele tem capacidade.

Completamente perdido na cadeira de presidente, seu governo vive de factoides que ele tenta criar diariamente, contra tudo e contra todos. A economia, agravada pela covid-19 que paralisou o país e quase todo mundo, e que ele não soube enfrentar, colaborando para o inacreditável número de mortes, e, agora, pela estúpida invasão da Ucrânia, degringolou de vez. O dólar avança rumo aos seis reais (em janeiro de 2019, primeiro ano de Bolsonaro, estava em R$ 3,65) e a taxa Selic passou de 4,4% no primeiro ano deste governo para 13,25%. A inflação chegou aos dois dígitos para não só permanecer assim, como continuar crescendo sabe-se lá até quando. E o Banco Central anuncia, eufórico, que a previsão de crescimento neste ano que era de 1% subiu para ridículos 1,7%. Em setembro do ano passado, as previsões eram de 2,7% para 2022.

Essa situação no Brasil é mais ou menos parecida com os países da América do Sul que trocaram ditaduras por governos populistas de direita, depois elegeram alguns governos de esquerda, para voltarem à direita e, agora, parece que é a vez da esquerda chegar ao poder novamente, com Lula (de novo!) aqui e com presidentes mais à esquerda na Argentina, no Chile, no Peru e na Colômbia.

Basta olhar o que mudou na situação da América do Sul ao longo das últimas décadas para se poder concluir que nada mudou, ou seja a miséria social e política é a mesma. A inflação desce e sobe como uma gangorra maluca, as taxas de juros descem e sobem ao sabor dos gastos desmedidos dos governos, o desemprego se mantém insistentemente num percentual de dois dígitos, o dólar dança ao sabor dos humores de um mercado perdido por conta de decisões ou da falta de decisões dos governos e a corrupção, essa imortal senhora que acompanha e incentiva todos os políticos de “nuestra America”, continua cada vez mais saudável, inclusive ganhando leis e mais leis de proteção no Brasil, com juízes de altíssima instância soltando todos os corruptos que, com grande esforço, o país tinha conseguido prender.

Assim, o destino desse infeliz continente vai sendo marcado por desgraças atrás de desgraças, por péssimos governos seja qual for a preferência ideológica e pelo adiamento eterno de um crescimento sustentável, provando que jamais chegaremos a frequentar o primeiro mundo.

Somos a ralé do planeta e vamos continuar assim por muito tempo.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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