licantropia

Amor e Licantropia. Por Antonio Contente

      … Licantropia… resultado do periélio, que é quando o Sol se aproxima da Terra. Os tais astrônomos juram que, a olho nu, não se pode detectar o fenômeno no luar. Engano deles, certamente, pois no último, para usar uma palavra linda, plenilúnio, ali pelos fins do mês passado…

Mundo Tentacular: Licantropia 101 - Tratando dos Mitos sobre Homens que se transformam em lobos

Quando ocorrem órbitas coincidentes, garantem os astrônomos, a lua cheia fica mais bonita, mais clara, mais, naturalmente, plena. Isso aconteceu recentemente e, segundo meus arquivos da chamada cultura inútil, é resultado do periélio, que é quando o Sol se aproxima da Terra. Os tais astrônomos juram que, a olho nu, não se pode detectar o fenômeno no luar. Engano deles, certamente, pois no último, para usar uma palavra linda, plenilúnio, ali pelos fins do mês passado, percebi que a claridade certamente andou mais intensa. Depois, os efeitos dessas coisas andam ao nosso redor. Os pássaros, nestes dias, cantam melhor, como fazem o mesmo os galos que, mais cedo, abrem os bicos. Não estranhem eu estar falando de galos em Campinas, pois perto de onde vivo há um, relíquia de antigos quintais, que toda madrugada desperta a vizinhança. Mas também as flores em tal época brotam opulentas, os frutos sazonam com perene ternura e os seres humanos, ah, os seres humanos, viajam. Como a formidável, a bela, a moderna Débora.

        Num dos últimos periélios, ocorridos no ano passado, a moça, pelas condições da presença e intensidade do luar, viveu uma estranha experiência; me garantiu, num papo de chope no fim de semana, ter sido a mais estranha de sua vida. Ela se apaixonou. De resto, desde o começo foi algo com feições, digamos, especiais. Pois conheceu o rapaz ao trombar com ele numa prosaica esquina na Treze de Maio. Os pacotes que ela carregava caíram, o moço ajudou a juntar, rolou um papinho e, logo, tomavam um café, no Regina.

— Te vejo de novo? — Ele arquejou.

— Até as pedras se encontram.

— E nós?

— Amanhã. No Galeria.

Com um mês de namoro, uma amiga chegou pra Débora e perguntou se ela já havia reparado direito em Ronaldo, que era o fruto da paixão.

— O que é que tem ele?

— Ah, sei lá, mas com tanto cabelo no rosto, no peito e nos braços, parece um lobisomem.

— Ah, Martinha…

— Não, parece sim um lobisomem. Se eu fosse você tomaria cuidado, pois vamos entrar no periélio.

— Em que?

A outra, que era mais sabidinha que o normal das gurias da sua idade, explicou. Ao fim, levantou o indicador:

— Épocas de órbitas coincidentes, minha filha, quando a lua fica maior e o luar mais bonito, é que ocorrem as coisas da licantropia.

— De que?

— É quando certas pessoas se transformam em lobisomens.

Por incrível que pareça, aquilo ficou na cabeça de Débora de forma total e intensa, a ponto de ter sonhado com o negócio. E tão impressionada andava que, quando leu no jornal que o periélio ia ocorrer na semana seguinte, chegou a ofegar de emoção. Era a chance de descobrir se Ronaldo, de fato, virava lobisomem.

No dia marcado para a lua cheia com as órbitas coincidentes, convidou o rapaz para irem a uma casinha que uma amiga lhe emprestara na estrada de Joaquim Egídio, próxima ao morro das Cabras. Foi para lá com o rapaz e, trêmula de emoção, esperou o luar se derramar. Isso posto, fez com que o cara tirasse a camisa. Uma réstia de luz, entrando pela janela, iluminava a sala.

Pois é, isso tudo Débora me contava na mesa do chope no último fim de semana. Como ela fizesse suspense, apertei o seu braço.

— Mas e aí, vamos, conte, o que aconteceu?

— Aconteceu – ela deu um gole e limpou a espuma com a costa da mão – aconteceu que corri pro meu carro e fui embora.

— Porque o cara começou a ficar peludo? E com focinho de lobo?

— Negativo. Larguei o imbecil lá porque ele não era porcaria nenhuma de lobisomem. E o que eu tava, mesmo, era a fim dum…

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Antonio ContenteANTONIO CONTENTE

Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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