É possível fazer linguística sem ser militante? Por Aldo Bizzocchi
… essa ideologia se reproduz indefinidamente na medida em que os estudantes, muitos dos quais ainda desprovidos de senso crítico, são expostos a esse “pensamento único”, sem possibilidade de um contraditório, ao mesmo tempo que estudantes identitaristas, que já entram na universidade imbuídos dessa mentalidade, se regozijam ao ver que seus professores “jogam no mesmo time”.

Em um debate intitulado Novos estudos em historiografia linguística no Brasil, promovido pela Abralin — Associação Brasileira de Linguística — e disponível em https://www.youtube.com/live/VJNDzRRMVwc, a linguista Cristina Altmann, que foi minha professora na USP quando tanto eu quanto ela éramos bem jovens, faz (no vídeo, a partir de 1:42:43) uma série de afirmações sobre a neutralidade ou não do linguista em face de seu objeto de estudo, a língua. E ela defende que, do mesmo modo como os produtos tecnológicos das ciências naturais impactam a sociedade e, por isso, os cientistas dessas áreas devem assumir a responsabilidade social sobre esses impactos, o pesquisador de Humanas não pode ficar alheio às questões sociais que perpassam seu objeto. Até aí, concordo com ela: a ciência traz impactos à nossa vida, e o cientista deve estar consciente disso. No entanto — e aí está o primeiro equívoco dessa professora —, a ciência simplesmente estuda e descreve a natureza, produzindo conhecimentos que posteriormente vão se transformar em tecnologias nas indústrias, nas fazendas, nos hospitais, etc. Portanto, o uso ético de uma tecnologia cabe a quem a comercializa e a disponibiliza à humanidade. Seria cabível culpar a física pelo desenvolvimento da bomba atômica? A responsabilidade pela destruição de Hiroshima e Nagasaki é de Albert Einstein e sua equação E = mc² ou do governo dos Estados Unidos, que financiaram o Projeto Manhattan e decidiram usar a nova arma para pôr fim à guerra?
Mas Altmann vai além e afirma que, na medida em que as ciências da linguagem estão rompendo com o sistema saussuriano segundo o qual, dentre outras coisas, gênero gramatical não tem relação com sexo biológico e discutem dentro de seu objeto relações de poder, o linguista também é, sim, militante, pois estuda objetos científicos híbridos, isto é, que não são mais neutros. (Neste ponto eu confesso que nunca havia ouvido falar em objetos neutros; o que pode ser neutro ou não é o pesquisador, não o objeto.) E afirma também que o pesquisador da linguagem não é mais separado do objeto que procura analisar e descrever, pois há uma mistura entre sujeito pesquisador e objeto pesquisado. E, como historiógrafa da linguística, diz que, ao analisar o conhecimento produzido em determinado contexto social e cultural, é preciso levar em conta se quem produziu tal conhecimento era homem ou mulher, branco ou negro, rico ou pobre. Sua justificativa é que tais categorias influem no resultado produzido, isto é, no conhecimento elaborado. Ela chega a afirmar que uma vacina para um homem branco europeu é enviesada ao ser aplicada a uma mulher negra africana. Em sua visão, até a biologia do corpo humano é uma construção social, portanto os vírus também fazem discriminação de gênero, raça, etnia, orientação sexual, língua, cultura, religião, etc.
A ser verdade a afirmação da professora, então todo o conhecimento linguístico produzido no Brasil até agora é enviesado e, portanto, viciado, logo não teria validade científica. Trata-se de uma acusação muito grave. Mas ela endossa esse enviesamento ao defender a militância dentro do fazer linguístico.
Em primeiro lugar, o que caracteriza e define a ciência é o chamado método científico, um conjunto de procedimentos bastante rígidos que visa a garantir que os dados obtidos numa pesquisa sejam os mais próximos possíveis da realidade. Visa também a assegurar que a análise desses dados seja a mais objetiva, isenta e imparcial possível, sem a interferência de opiniões ou crenças pessoais, sem nenhum viés enfim que possa comprometer a validade e a credibilidade dos resultados. Para que o resultado de uma pesquisa seja confiável, é preciso justamente que haja um distanciamento epistemológico entre sujeito pesquisador e objeto pesquisado, mesmo que sujeito e objeto tenham a mesma natureza, no caso, a humana. Jamais podemos ter uma visão ampla e nítida de um objeto se nos colocamos dentro dele. Jamais podemos ser isentos se nos colocamos de um dos lados.
Portanto, não importa se o pesquisador é homem, mulher, branco, negro, azul, verde, rosa, europeu, chinês, africano, brasileiro ou marciano; desde que ele aplique com rigor os preceitos do método científico, seus resultados serão os mesmos de qualquer outro pesquisador. Tanto que um dos critérios de validação de um conhecimento científico é que o experimento que o ensejou seja replicável e produza sempre o mesmo resultado. Isso só não ocorrerá se o pesquisador introduzir em seu trabalho visões pessoais e ideológicas, o que não é lícito na atividade científica.
Entretanto, é usual em se tratando de ciências humanas basear o raciocínio em bibliografia constituída tanto de trabalhos científicos quanto de ensaios filosóficos, em que o autor veicula uma doutrina, logo um artigo de fé, e não uma teoria construída a partir de observação e experimentação sobre a realidade. E, como todos sabemos, a filosofia não é uma ciência, é um discurso que, embora racional, provém muito mais da visão particular que o filósofo tem do mundo, portanto de suas convicções pessoais, de suas idiossincrasias e de seu viés ideológico.
Sobretudo após o advento da chamada teoria crítica, do conceito de pós-modernidade, do desconstrucionismo e do relativismo, passou a ser muito viva nas ciências humanas a crença de que não há dados objetivos, fatos concretos observáveis e testáveis segundo o método científico, mas tudo é relativo, tudo é questão de ponto de vista. E esse ponto de vista será tanto mais forte quanto mais for a favor de alguma minoria oprimida. Nem a linguística, a mais exata das ciências humanas, consegue escapar desse dogma, jamais provado e muitas vezes desmentido. E é ele que dá ensejo a que dados objetivos se misturem a opiniões pessoais, juízos de verdade se confundam com juízos de valor, teorias científicas apoiadas em evidências concretas sejam rebatidas por pregações de índole ideológica e palavras de ordem, e assim por diante. Tudo isso contribui para reforçar o descrédito de que as ciências humanas já gozam perante a sociedade em geral, para quem ciências de verdade são as exatas e as biológicas, que geram tecnologias úteis que confirmam a veracidade de suas teorias. Já as ciências humanas seriam um amontoado de pontos de vista e reflexões filosóficas que em nada contribuem para o progresso social e onde o que vale é a dialética dos debatedores e não os fatos concretos.
Outro argumento usado no âmbito da ciência pós-moderna e relativista é que, tendo as ciências humanas por objeto o ser humano e sendo os pesquisadores igualmente humanos, têm estes o direito e, mais ainda, o dever de intervir no objeto estudado e não apenas descrevê-lo. No entanto, na visão desses linguistas, essa intervenção só é legítima se for baseada em sua própria ideologia, jamais em outra qualquer, especialmente numa que lhe seja contrária. De fato, todas as análises feitas por pesquisadores dessa linha ideológica — e que são a maioria nos departamentos de ciências humanas das grandes universidades — embutem juízos de valor onde só deveria haver juízos de verdade, e tais juízos sempre militam em favor de uma pauta demagogicamente rotulada de “progressista”, na verdade uma pauta identitarista e marxista que pouco ou nada tem a ver com progresso.
Já que esses linguistas, incluindo a professora Altmann, consideram legítimo interferir no objeto de estudo e projetar nele convicções pessoais e político-partidárias, eu pergunto se eles aceitariam pacificamente um trabalho de pesquisa que veiculasse valores conservadores, capitalistas, eurocêntricos e mesmo reacionários. Parece que, na visão deles, o linguista pode e deve perfeitamente ser militante em sua pesquisa desde que essa militância seja de esquerda, obviamente.
O fato é que qualquer militância, seja ela de esquerda, centro ou direita, por mais nobres que sejam seus motivos, é incompatível com o fazer científico e compromete a própria credibilidade da ciência, já que o “conhecimento” assim produzido não representa a realidade e sim um ponto de vista relativo, cujo valor de verdade não decorre de evidências concretas, inquestionáveis e muito bem estabelecidas e sim da condição social, de gênero e de raça de quem faz a pesquisa ou de quem é objeto dela.
O problema é que a ciência vem progressivamente perdendo a credibilidade que a tão duras penas (incluindo cientistas queimados na fogueira) conquistou ao longo dos últimos séculos por obra de forças obscurantistas e anticivilizatórias como certas religiões apoiadas no fanatismo, pensadores e pregadores negacionistas, governos autoritários, redes sociais emburrecedoras e outros. Não hesito em afirmar que a vertiginosa ascensão da extrema direita no mundo democrático e civilizado é resultado do desencantamento das pessoas com um discurso acadêmico e midiático que, em vez de privilegiar a verdade dos fatos, doa a quem doer, defende bandeiras identitárias à luz de uma doutrina filosófica e política que já se provou na prática inexequível e fracassada e que só espalhou dor e infelicidade por onde passou.
Infelizmente, essa ideologia está profundamente impregnada em nosso meio acadêmico, especialmente nas humanidades e nas ciências humanas, tal o modo como nossas universidades vieram sendo aparelhadas por certos grupos políticos ao longo das últimas décadas. E essa ideologia se reproduz indefinidamente na medida em que os estudantes, muitos dos quais ainda desprovidos de senso crítico, são expostos a esse “pensamento único”, sem possibilidade de um contraditório, ao mesmo tempo que estudantes identitaristas, que já entram na universidade imbuídos dessa mentalidade, se regozijam ao ver que seus professores “jogam no mesmo time”.
Uma última observação: embora o relativismo, o marxismo e a cultura woke estejam disseminados por todo o meio acadêmico ocidental, linguistas de países desenvolvidos ainda desenvolvem pesquisas úteis e relevantes, em que impera o método científico, como a reconstrução de línguas pré-históricas, a decifração de inscrições antigas, o processamento da língua pelo cérebro, o tratamento de patologias da linguagem e mesmo o estudo de questões sociais envolvendo a língua, mas sem parti pris, sem visão preconcebida e sem defender ou atacar A, B ou C.
Já no Brasil…
Em debate:
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Aldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.
Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”
Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br
