A vocação para ser jornalista nos tempos de IA. Por Vanessa Guimarães
Vocação significa colocar o verbo em ação, uma vontade que move, uma inclinação interior, um direcionamento natural para se fazer determinada atividade, uma habilidade que fazemos com naturalidade e facilidade.

Semana passada eu tive o privilégio de ler o artigo do jornalista Paulo Renato Coelho Netto, titulado “Entrevista com o Chat GPT“, onde ele entrevista a Inteligência Artificial.
Inclusive deixarei o link aqui para quem quiser ler também: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/tecnologia/entrevista-com-o-chatgpt/
Paulo Renato esteve afastado do Linkedin mas está retornando, então, deixo como sugestão, para quem gosta de ler textos com qualidade e que fazem pensar, seguir o seu perfil e o seu trabalho no Observatório da Imprensa e no portal chumbogordo.com.br
Vieram muitas reflexões após a minha publicação do artigo da newsletter anterior (Como a IA pode contribuir com a comunicação sem deturpar a essência do jornalismo?).
Uma delas foi a preocupação, o medo e a insegurança que diversos profissionais – não somente jornalistas – estão sentindo e vivendo com a popularização e o aumento do uso da Inteligência Artificial, como o Chat GPT.
A área jurídica e a área médica estão sendo tão afetadas como a área de comunicação.
Se antes da IA era preciso pagar uma consulta e fazer um exame médico para descobrir o problema de saúde e comprar o medicamento certo, agora as pessoas digitam os sintomas na plataforma e mesmo sem a confirmação da suspeita, se automedicam e continuam sobrevivendo – até o problema se agravar e correrem para o hospital.
Se antes da IA o profissional precisava pagar para consultar um advogado e obter aconselhamento jurídico, agora é possível obter todas as informações detalhadas em poucos minutos, sem sair de casa e de graça.
Dentro da área de comunicação nós vemos a mesma coisa: textos, ilustrações, fotos e até livros inteiros produzidos pela IA.
Essa é uma realidade que nós não podemos mudar, mas podemos pensar de que forma lidaremos com essas mudanças. O que podemos aprender e tirar de útil de tudo isso? O que os seres humanos possuem que a IA não?
Nós recebemos a oportunidade de recriar a carreira e reinventar a profissão. Fazer isso de forma melhor, reescrever com qualidade, com humanidade, com respeito ao próximo, com afetividade e empatia.
A Inteligência Artificial contribui com diversas funcionalidades mas somente quem tem o poder de abrir as portas é o ser humano.
Quando trabalhamos com amor, quando uma força interior nos move, nenhum obstáculo pode nos fazer desistir. Podemos parar para descansar e recuperar as forças e até desanimar algumas vezes mas jamais desistir.
Deveria existir um juramento no jornalismo que lembrasse os profissionais a se unirem, a se ajudarem, a serem pontes ao invés de muros.
A vida é repleta de altos e baixos, momentos bons e ruins, e com a profissão não poderia ser diferente. A felicidade precisa ser uma força constante e uma diretriz que ilumina e guia a nossa mente e o nosso coração.
Desde que eu era criança eu sabia que seria jornalista. Já estava dentro de mim, fazia parte da minha força motriz: a escrita e a leitura.
Foram muitos anos percorrendo os mais diversos ambientes e eu tive que me reinventar muitas vezes, mas sempre trabalhei na área de comunicação.
Ao longo de muito tempo eu ouvia que jornalismo não enriquece, que não gera prestígio, que a profissão estava acabando e que existem profissões melhores. Até a minha família, meu marido e colegas achavam que eu deveria mudar de área para conseguir pagar as minhas contas.
Como é que o jornalismo não enriquece se eu me sinto tão rica interiormente? Quantos tesouros recebemos ao fazer uma entrevista, ao conhecer uma pessoa gentil, ao aprender novos conhecimentos e ao compartilhar informações que são realmente úteis para as pessoas?
O que posso dizer? A verdade! Por que estamos aqui neste mundo? Para buscar e compartilhar a verdade. É isso que o jornalista faz. Essa é a força que me move: a das perguntas.
Eu nunca vou esquecer uma vivência de quando comecei a trabalhar com o jornalismo. Após escrever uma matéria de página inteira para um veículo impresso, comecei a questionar o motivo de ter escolhido a profissão. Conversando sobre isso com um fotógrafo da redação, ele me levou até uma ótica que tinha um jornal colado na parede.
Ao entrar, percebi que era a matéria que eu tinha escrito. Ele então me disse: “A sua profissão é muito importante. Veja. Você está conscientizando as pessoas da importância de ir a um oftalmologista ao invés de comprar óculos prontos em uma farmácia. Você está sendo útil à sociedade“. Naquele dia eu percebi a importância de ouvir e de ajudar quem está começando na carreira. Ouvir uma palavra certa em um momento de desânimo, fortalece.
Certamente hoje eu seria capaz de mudar para qualquer outra profissão que escolhesse, ainda teria força e ânimo, mas eu faria por necessidade, não por vocação.
Eu gosto muito da frase que diz “A melhor vocação é aquela em que toda a energia de alguém seja utilizada ao máximo”, Rudolf Steiner.
Vocação significa colocar o verbo em ação, uma vontade que move, uma inclinação interior, um direcionamento natural para se fazer determinada atividade, uma habilidade que fazemos com naturalidade e facilidade.
Eu gosto muito de escrever, pois enxergo o valor das palavras. Se eu tiver que recomeçar mais mil vezes para continuar fazendo o que gosto, assim farei.
Encontrar o que nos move no mundo é muito importante, pois nunca nos perdemos. Sempre haverá essa linha dourada que brilha durante a caminhada. Caímos, levantamos, tropeçamos, nos reerguemos, nos reinventamos, nos fortificamos, nos transformamos, mas continuamos caminhando. O curso da vida humana é construído pela soma de cada profissional que continua caminhando convicto de que está no caminho certo e que está fazendo o seu melhor.
Seguimos juntos nessa jornada.
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Vanessa Guimarães – Jornalista, escritora, palestrante e consultora de comunicação. Trabalha com comunicação há mais de 20 anos, tendo percorrido da redação de jornal impresso à assessoria de imprensa, dos veículos digitais à comunicação interna de diversas empresas. Autora de quatro livros. Ministra cursos e palestras em todo o Brasil.

O texto de Vanessa Guimarães é um primor. É leitura que agrega valor ao leitor seja ele estudante de jornalismo, jornalista ou físico. Afinal, Vanessa Guimarães coloca sentimento na palavras, nas frases e nos parágrafos. Além disso, a jornalista estimula o pensar, algo tão pouco habitual no momento. O raciocínio de mão dadas ao afeto proporcionam descobertas relevantes e motivadoras para seguir em frente com a bandeira do jornalismo. É muito bom observar uma profissional do tamanho de Vanessa Guimarães defender a importância da profissão escolhida. Ótimo artigo.
Concordo plenamente!
Parabéns Vanessa,linda matéria feita por vocação e amor a sua profissão. Sucesso em sua carreira.
Excelente texto de Vanessa Guimarães!! É um convite à reflexão.