Revoluções científicas e a “revolução” na gramática. Por Aldo Bizzocchi
Revoluções… A normatização da escrita formal é uma atividade técnica e não científica, que se pauta por critérios objetivos plenamente defensáveis e razoáveis, mas não necessariamente científicos…

Nos últimos tempos, tenho me dedicado bastante a criticar a postura militante de certos colegas que, em vez de fazer ciência, fazem política identitária travestida de ciência. E defendem que o pesquisador de humanas deve ter uma atitude engajada — desde que esse engajamento seja na direção de uma certa ideologia política e não de outra qualquer.
Pois bem, no livro Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores, organizado por Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira, este último afirma às páginas 40 e 41:
Kuhn afirma que as revoluções científicas assemelham-se às revoluções políticas, e eu alargo seu pensamento ao contexto das produções emergentes das gramáticas do português brasileiro. Seus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica. Não à toa as características que Kuhn afirma pertencerem às revoluções políticas e científicas podem ser apontadas como constitutivas da revolução do fazer gramatical brasileiro. Assim, a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional e grandes alterações nos problemas e técnicas arraigados historicamente no nosso fazer gramatical, algo próprio do caráter revolucionário. (grifos meus)
Como se pode depreender das palavras de ordem inflamadas do autor, o que se pretende é uma revolução do fazer gramatical análoga provavelmente à Revolução Bolchevique ou à Revolução Cultural chinesa. Isso porque, segundo os autores do livro e os demais linguistas que militam nessa causa, a gramática normativa atual do português é elitista, excludente, opressora, conservadora/reacionária, elaborada por homens brancos, burgueses, heterossexuais, homofóbicos, racistas e misóginos. Talvez Vieira defenda que se faça com os gramáticos o que Mao Tsé-Tung fez com os intelectuais e os opositores de seu regime.
Mas vamos analisar o grande erro conceitual cometido por esse linguista e escorado numa leitura equivocada do filósofo da ciência americano Thomas Kuhn. Em seu livro A estrutura das revoluções científicas, Kuhn explica que o progresso científico passa pelas seguintes fases:
1) estabelecimento de um paradigma, isto é, de um metamodelo teórico que serve de base e guia para o desenvolvimento das teorias científicas numa determinada época histórica. Por exemplo, o geocentrismo de Cláudio Ptolomeu, o mecanicismo do século XVII, o positivismo do século XIX, o estruturalismo e o funcionalismo do século XX, e assim por diante. São as chamadas escolas ou correntes de pensamento cujas diretrizes norteiam as hipóteses que, se comprovadas, darão origem às teorias.
2) ciência normal, período durante o qual o paradigma vigente funciona bem e permite explicar satisfatoriamente os dados empíricos colhidos nos experimentos científicos.
3) crise do paradigma, quando novos dados experimentais já não podem ser explicados satisfatoriamente pelas teorias em vigor, e o paradigma começa a ser posto em xeque.
4) ciência extraordinária, quando novos paradigmas são propostos e competem entre si até que um deles se prove o mais adequado a explicar os novos dados e, ao mesmo tempo, a explicar igualmente bem os dados antigos, dos quais as teorias anteriores davam conta perfeitamente.
5) revolução científica, em que esse novo paradigma vitorioso suplanta definitivamente o anterior, ponto a partir do qual o ciclo recomeça.
Portanto, diferentemente das revoluções políticas, em que um determinado grupo, não necessariamente melhor que o então dominante, o depõe e toma o poder em seu lugar num ato de violência, uma revolução científica se inicia com uma descoberta que desafia o poder de explicação do conhecimento de que se dispunha até aquele momento e mostra que algo no paradigma vigente está errado ou incompleto.
A primeira grande revolução científica dos tempos modernos ocorreu com a publicação em 1543 do livro De revolutionibus orbium coelestium (Da revolução das esferas celestes), de Nicolau Copérnico, no qual ele mostrava que o modelo astronômico geocêntrico de Ptolomeu, do século I d.C., além de ser extremamente complexo, não dava conta do movimento de certos corpos celestes observados pelos astrônomos. Copérnico propõe que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. A seguir, o alemão Johannes Kepler demonstra que não só o Sol está de fato no centro do sistema, mas que as órbitas dos planetas são elípticas com o astro-rei ocupando um dos polos.
Então Galileu Galilei, fazendo experimentos com planos inclinados nos quais deslizam pequenos objetos e com pêndulos que oscilam suspensos por cordas fixas a grande altura (um desses pêndulos foi fixado no topo da torre de Pisa), enuncia as primeiras leis matemáticas do movimento. É o surgimento da física moderna.
Simultaneamente, dois filósofos, o inglês Francis Bacon e o francês René Descartes, dão estrutura teórica a esse novo paradigma, em que o conhecimento deve ser construído a partir da lógica, da matemática e da observação dos fenômenos naturais e não a partir do argumento de autoridade de antigos pensadores ou de teólogos. Nasce assim o chamado método científico, em que a teoria deve conformar-se à realidade e não o inverso.
Ainda dentro desse período histórico (séculos XVI a XVIII) conhecido como Revolução Científica, Isaac Newton enuncia as três leis do movimento, conhecidas como Leis de Newton, e a Lei da Gravitação Universal, um corpo teórico chamado de física clássica, que explica tanto os fenômenos físicos aqui na Terra quanto os movimentos planetários. A mecânica newtoniana vigorou sem abalos até o fim do século XIX, quando estudos sobre o eletromagnetismo e a luz mostraram que esta é uma onda eletromagnética que se propaga a uma velocidade constante, representada pela letra c, independentemente do movimento da fonte luminosa ou do ponto de referência adotado, o que contradiz as Leis de Newton, segundo as quais a velocidade, inclusive a da luz, é sempre relativa e dependente do referencial escolhido.
Para explicar essa inconformidade, Albert Einstein propõe em 1905 uma mudança radical de paradigma, a Teoria da Relatividade, em que agora a velocidade da luz é uma grandeza absoluta e, contrariamente à nossa intuição, o espaço e o tempo é que são relativos.
Ao mesmo tempo, outra revolução se desenhava com a descoberta de que, no mundo microscópico das partículas subatômicas, não é possível determinar com precisão ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma partícula, de que os valores das grandezas não são contínuos e sim discretos, chamados quanta, e de que uma partícula pode estar e não estar num determinado lugar ao mesmo tempo, dentre outras revelações assombrosas. Esse conjunto de fatos, que deixaram perplexos os físicos, deu origem a uma nova teoria, a mecânica quântica.
Ainda no século XIX, Charles Darwin propôs a sua Teoria da Evolução das Espécies pela Seleção Natural, que revolucionaria a biologia, e Louis Pasteur sepultava definitivamente a crença na geração espontânea de seres vivos, além de provar que certas doenças antes atribuídas a causas sobrenaturais são provocadas por micro-organismos.
A mais recente revolução científica foi a descoberta de que o Universo está se expandindo, o que ensejou a teoria do Big Bang, em que o Cosmos teve início há cerca de 13,7 bilhões de anos a partir de uma singularidade na qual toda a matéria e energia estavam extremamente concentradas.
Nos estudos da linguagem, a primeira revolução foi a descoberta, por William Jones, de que a maioria das línguas da Europa, do Irã e do subcontinente indiano descenderiam de uma língua ancestral batizada de indo-europeu. Isso fundou o método histórico-comparativo e inaugurou uma nova ciência, a linguística, separando definitivamente o estudo científico da linguagem da tradição gramatical que remontava à Grécia antiga.
A segunda revolução foi causada em 1916 pela publicação póstuma do Curso de linguística geral, de Ferdinand de Saussure, que lançou as bases da linguística moderna e do paradigma científico chamado Estruturalismo.
Em 1957, uma terceira revolução ocorre com a publicação de Estruturas sintáticas, de Noam Chomsky, revelando que a aptidão para a linguagem é inata, portanto, de natureza biológica, e que as estruturas linguísticas seguem padrões matemáticos, tornando a linguística uma ciência ao mesmo tempo humana, exata e biológica.
Mais recentemente, a cooperação entre a linguística, a neurociência e as ciências cognitivas deu origem a pesquisas sobre como o cérebro humano processa a linguagem e a novas disciplinas, como a neurolinguística (não confundir com a Programação Neurolinguística, ou PNL, que é uma técnica de autoajuda), a semântica cognitiva e a semiótica cognitiva, áreas em que também atuo.
Finalmente, a Inteligência Artificial vem possibilitando a solução de uma série de problemas em todas as áreas do conhecimento que permaneciam insolúveis até agora.
Isso são revoluções científicas. A normatização da escrita formal é uma atividade técnica e não científica, que se pauta por critérios objetivos plenamente defensáveis e razoáveis, mas não necessariamente científicos. Mais ainda, o estabelecimento de uma nova norma-padrão, baseada na fala informal ou em textos formais escritos por pessoas de escolaridade deficiente, não é uma conduta científica nem técnica, é simplesmente um ato iconoclasta que privilegia a mediocridade num terreno em que deve imperar a excelência, e tudo por razões puramente ideológicas e político-partidárias. A “revolução” que Vieira, Faraco e outros querem fazer se assemelha mais à invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 ou ao nosso 8 de Janeiro do que a uma revolução científica propriamente. Até porque elaborar gramáticas não é tarefa de cientistas, assim como elaborar leis de trânsito não é competência dos físicos.
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Aldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.
Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”
Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br

Prezado. Gostaria de te parabenizar. Diante de teu destemor (sabemos quantos na universidade brasileira você não está a irritar com ideias que muitos devem chamar de retrógradas, reacionárias, elitistas, conformistas…), apresso-me em dizer que admiro tua coragem de assumir que nada contra a correnteza. Em todo caso, só pra se garantir, declare-se logo não-bolsonarista e faça um bom seguro de vida. Nem toda Revolução é Tranquila (só a quebequense foi tranquila… Nas outras, rola sangue.).
Vale lembrar, em todo caso: você não está sozinho. Os dialéticos não gostam, mas os analíticos sempre ganham na final. Lévi-Strauss que o diga… Sartre não entendia orra nenhuma do que ele dizia.
Continue a escrever teus artigos. Gostarei de continuar a ler.
Em tempo: aqui ao meu lado, o gato de Schrödinger manda – e não manda – saudações. Só depende do momento em que a gente abre a caixa…
Gostei do comentário anterior. Você é revolucionário. Há 50 anos li Thomas Kuhn e você foi preciso na síntese do livro. O que me aborrece é a pobreza do vocabulário dos jornalistas televisivos. Compartilhei com minha revisora. Com quem sempre aprendo algo novo em correções do pouco que escrevo.