O fusca vai à festa. Por Paulo Renato Coelho Netto
…Apelidos de infância e adolescência podem ser eternos. Se o alvo achar ruim, aí que pega. O que, à primeira audição, pode soar maldade é suave, gíria atual para na boa. Suave quer dizer que o Fusca gostou do apelido e na boa, se você usar, quer dizer que você está velho…

– Quem vai, filho?
– O Joaquim, o outro Joaquim, o Gustavo, o Marcão e o Fusca.
– Um dos meninos tem um fusca?
– Não, pai! O apelido dele é Fusca. Ele tem um olho longe do outro. Parece farol de fusca. Daí o apelido.
– Ele fica chateado por ser chamado assim?
– Suave. Incorporou na boa.
Por observação própria, a probabilidade do Fusca carregar o apelido de adolescente para a vida toda é alta.
Ainda corre o risco do futuro filho ser chamado de Fusquinha.
Apelidos de infância e adolescência podem ser eternos.
Se o alvo achar ruim, aí que pega.
O que, à primeira audição, pode soar maldade é suave, gíria atual para na boa.
Suave quer dizer que o Fusca gostou do apelido e na boa, se você usar, quer dizer que você está velho.
Um amigo ostenta até hoje o apelido Belém.
Uma colega de escola, a Danete, achou por bem apelidá-lo de Belém-Brasília.
Belém-Brasília era o nome da longa rodovia que ligava o Distrito Federal à Belém, capital do Pará.
A estrada era comprida e mal acabada, assim como o Belém, aos 16 anos, um rapaz magro com mais de 1.90 de altura.
Com o tempo, para simplificar, tiraram Brasília e o apelido Belém pegou.
A Danete, por sua vez, era chamada assim por ser irmã do Danone.
Outro foi apelidado de Tucano.
Relutou no início.
Foi reclamar para a coordenadora da escola, que se saiu com esta:
– Bobagem, tucano é uma ave tão bonita.
A coordenadora gostou tanto que passou a chamá-lo de Tucano.
Com o tempo, ele incorporou Tucano e ainda ganhou um apelido secundário: Bico.
Gostou.
Os amigos cresceram e, na idade da cerveja, colocavam o dedo indicador perto do nariz dele e pediam:
– Bica, Tucano! Bica, Tucano! Bica, Tucano!
Ele bicava.
Como nas batalhas de mamona, chumbo trocado não doía.
Havia sempre alguém atento para emplacar um apelido novo em alguém.
Emplacar significava dar um apelido que ficasse.
Ainda muito pequeno, Edson não conseguia falar corretamente o nome de um goleiro (Bilé) que era seu ídolo.
Dico, como era chamado pela família, pronunciava Pilé quando Bilé fazia suas defesas.
Achando graça, a família e os amigos passaram a chamá-lo de Pelé, apelido que fez o menino Edson Arantes do Nascimento ser conhecido no mundo inteiro.
Simplesmente Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos.
Pelé tornou-se adjetivo no dicionário Michaelis, no dia 26 de abril de 2023. A partir de então, com o termo oficialmente eternizado na língua portuguesa, referir-se a alguém como pelé significa o mesmo que dizer que é o melhor no que faz. Excepcional. Dos livros de história, também para o léxico. A novidade reverberou nos principais jornais e televisões do mundo, na mesma tarde que virou notícia no Brasil. Um golaço.
pe.lé® adj m+f sm+f
Que ou aquele que é fora do comum, ou quem em virtude de sua qualidade, valor ou superioridade não pode ser igualado a nada ou a ninguém, assim como Pelé®, apelido de Edson Arantes do Nascimento (1940-2022), considerado o maior atleta de todos os tempos; excepcional, incomparável, único. Ele é o pelé do basquete. Ela é a pelé do tênis. Ela é a pelé da dramarturgia brasileira.
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Paulo Renato Coelho Netto – Jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de nove livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”. Vive em Campo Grande.

