O Exemplo Francês e o Desafio Brasileiro: duas maneiras de cuidar de quem está longe. Por Ana Fábia Martins
Exemplo… destaca-se a França, com um modelo robusto e abrangente de suporte a seus nacionais no exterior. Já o Brasil, ainda que possua uma diáspora criativa e resiliente, enfrenta dificuldades significativas em estruturar políticas públicas duradouras voltadas para a proteção e valorização de seus cidadãos fora de suas fronteiras.
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A França se consolidou como uma das nações que melhor compreendeu a força transformadora de sua diáspora. Com políticas públicas consistentes, estruturadas e de longo prazo, o país enxerga seus cidadãos expatriados não apenas como indivíduos afastados do território nacional, mas como pontes vivas que ampliam sua presença cultural, econômica e diplomática pelo mundo. Esse modelo de suporte às comunidades no exterior é exemplo de visão estratégica de Estado, capaz de gerar benefícios que ultrapassam o campo humanitário, fortalecendo a influência global francesa.
Como binacional franco-brasileira, advogada internacional e conselheira eleita dos franceses no exterior, representando São Paulo, Região Sul e Mato Grosso do Sul, testemunho de perto o impacto positivo do modelo francês — e o quanto o Brasil tem a ganhar ao se inspirar nessa experiência.
O movimento mundial das diásporas nunca foi tão frequente e relevante como na atualidade. Ele é resultado de uma combinação complexa de fatores: globalização, crises institucionais, conflitos econômicos, guerras civis, disputas territoriais e, mais recentemente, mudanças climáticas. Esses fenômenos empurram milhões a deixarem seus países de origem, seja por sobrevivência, seja pela busca de melhores oportunidades ou pelo desejo de realizar um sonho.
Cuidar dessas comunidades expatriadas, portanto, não pode ser visto como uma medida reativa, episódica ou apenas assistencialista. Deve ser entendido como uma política de Estado, estruturada e contínua, essencial para o fortalecimento da presença global de uma nação. Governos que reconhecem o valor de sua diáspora e a integram estrategicamente em suas políticas colhem benefícios muito além do humanitário, ao consolidar laços culturais, econômicos e políticos que potencializam sua influência internacional.
Entre os países que compreendem esse conceito, destaca-se a França, com um modelo robusto e abrangente de suporte a seus nacionais no exterior. Já o Brasil, ainda que possua uma diáspora criativa e resiliente, enfrenta dificuldades significativas em estruturar políticas públicas duradouras voltadas para a proteção e valorização de seus cidadãos fora de suas fronteiras.
Representatividade e Soft Power
O modelo francês é uma referência global. Composto por 12 senadores dedicados à diáspora, 11 deputados na Assembleia Nacional quase 500 conselheiros eleitos pelas comunidades francesas ao redor do mundo, essa estrutura representa mais que presença política: revela o compromisso do Estado francês em integrar e cuidar de seus cidadãos onde quer que eles estejam, reconhecendo sua diáspora como parte estratégica da Nação.
Além de garantirem representatividade no processo político, os franceses no exterior contam com uma infraestrutura consular exemplificada por ações que vão além da burocracia. Isso inclui apoio estratégico em crises – como repatriações de emergências ou assistência a cidadãos em contextos de vulnerabilidade social ou econômica – e a promoção de vínculos culturais sólidos, por meio de iniciativas como os renomados liceus franceses e as Alianças Francesas.
Essa estrutura não atende apenas à demanda imediata dos expatriados: ela reflete uma visão sistêmica e perene. A França enxerga sua diáspora como fator-chave para sua projeção no cenário global. E não à toa, lidera rankings de países de maior soft power, consolidando sua habilidade de influenciar o mundo por meio de valores, cultura e iniciativas humanitárias. O sucesso desse modelo reside em sua integração de longo prazo – uma política de Estado que não oscila com trocas de governos ou crises pontuais.
Brasil: Uma Diáspora Subestimada
O Brasil, por sua vez, possui uma diáspora considerável – mais de 4,5 milhões de cidadãos vivem no exterior, segundo o Itamaraty. Trata-se de uma comunidade criativa, trabalhadora e altamente resiliente, que frequentemente se destaca em terras estrangeiras como empreendedores, profissionais especializados e exemplos de adaptabilidade. Entretanto, o país ainda enfrenta dificuldades em traduzir esse potencial em políticas públicas eficazes e permanentes.
A abordagem brasileira é majoritariamente episódica e reativa, baseada em uma visão limitada do papel do consulado como órgão provedor de serviços burocráticos, como emissão de documentos e registro civil. Muitos compatriotas relatam frustrações com o atendimento consular, que se mostra, em muitos casos, insensível e pouco preparado para lidar com emergências, como deportações, crises humanitárias ou problemas econômicos. Essa postura transmite a impressão de que os brasileiros no exterior são considerados cidadãos de segunda classe.
No entanto, a diáspora brasileira poderia ser um ativo estratégico essencial para o país. Como demonstrou o modelo francês, a presença de comunidades bem apoiadas fora do território nacional não apenas fortalece os laços com o país de origem, mas também gera oportunidades culturais, políticas e econômicas valiosas. A falta de uma política de Estado sólida e contínua deixa esse potencial inexplorado, desperdiçando um recurso que poderia ampliar a influência do Brasil no mundo.
Nosso Papel: Aproximar e Humanizar
Como Conseillère des Français de l’Étranger, que representa a comunidade francesa da região Sul, São Paulo e Mato Grosso do Sul, nosso trabalho consiste em criar pontes tangíveis entre os nacionais franceses no exterior e a França.
Parte fundamental do nosso trabalho como eleitos de proximidade consiste em ouvir atentamente, informar e agir para ajudar os compatriotas franceses e binacionais. Seja conectando aqueles que precisam de apoio administrativo a recursos locais, seja promovendo encontros que reforcem o sentimento de pertencimento, nosso papel é criar acesso e voz – ajudando a moldar uma relação respeitosa e funcional entre o indivíduo e o Estado.
A França demonstra que é possível oferecer esse cuidado mesmo com restrições orçamentárias, porque enxerga isso como uma prioridade permanente. O Brasil, no entanto, ainda precisa entender a importância de tratar o apoio à diáspora como um pilar estratégico e duradouro, independentemente dos ciclos políticos.
Oportunidades Estratégicas para o Brasil
A construção de uma política contínua e integrada para atender seus cidadãos no exterior deve ser vista como uma responsabilidade de longo prazo – e não como uma ação limitada a situações de emergência ou obrigações burocráticas.
O Brasil precisa começar a reconhecer a sua diáspora como um diferencial estratégico. Cuidar de milhões de cidadãos espalhados pelo mundo é também investir no fortalecimento da economia, no intercâmbio cultural e na projeção da influência positiva do país. Mais que isso, é um ato de respeito e reconhecimento por aqueles que contribuem, mesmo de longe, para a construção de uma imagem nacional forte e resiliente.
Em especial durante 2025/2026, com a Saison Croisée França-Brasil, que essa proximidade nos inspire a valorizar e aprender mais sobre o papel estratégico de nossas comunidades no exterior.
Como conselheira franco-brasileira, sei que a dedicação a uma estrutura sólida faz toda a diferença. E como brasileira, acredito que o Brasil pode – e deve – fazer mais. Cuidar dos seus cidadãos, onde quer que estejam, é projetar grandeza, humanidade e visão ao mundo.
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Ana Fábia R. de O. Ferraz Martins – Advogada especialista em Direito e Negócios Internacionais e Moda. Conselheira Consular da França no Brasil. Conseillère des Français de l’Étranger – São Paulo, Sul do Brasil e Mato Grosso do Sul .

Além, é claro, da terceira maneira: a de Eduardo Bolsonaro cuidar de seu país quando longe dele. É a melhor de todas! Ainda vai destruir de vez o que restou desse recanto ensolarado que paga seus salários… Coisa de gente patriota.