pressa

A pressa do Mundo. Por Meraldo Zisman

 … Precisamos de pausas, de ritmos próprios, de silêncio para escutar a nós mesmos. A vida não pede pressa. Pede o sabor de uma refeição sem olhar o relógio. Pede a alegria de uma conversa sem celular na mesa. Pede o passeio sem destino, o tempo de amadurecer sentimentos como frutos que só adoçam devagar…


A pressa virou nossa companheira diária. Acordamos já correndo, mesmo quando o corpo ainda pede silêncio e calma. O celular vibra, as mensagens chegam cedo, exigindo respostas antes mesmo de abrirmos os olhos por completo. O relógio não apenas marca as horas: ele nos governa, dita o compasso da nossa vida. Vivemos como se não houvesse amanhã e, nesse atropelo, esquecemos do hoje, do instante que temos nas mãos. À tecnologia, que prometia nos dar mais tempo, acabou nos prendendo em uma rede de urgências. Estamos conectados sem pausa, como se descansar fosse pecado. Entre uma notificação e outra, esquecemos de respirar fundo, de olhar com atenção, de nos encantar com as pequenas coisas . A velocidade virou regra, mas nos tornou rasos.

E as relações?

Também se perderam nesse caminho apressado. Conversas profundas viraram respostas rápidas. Os encontros presenciais foram substituídos por telas. O afeto, reduzido a um clique. Corremos para estar em todos os lugares e, no fim, não estamos em lugar nenhum. Cercados de gente, sentimos solidão. A pressa rouba o tempo do cuidado — com o outro e conosco. O corpo aguenta até onde pode. Depois, começa a falar. E fala alto. Dores sem explicação. Insônia que não cede. O peito apertado. O cansaço que não passa. São gritos silenciosos, mensagens da alma que se escondem no corpo.

A Psicossomática nos lembra que nada disso é acaso. Cada dor, cada sintoma é uma forma de linguagem. O corpo traduz em sinais aquilo que a mente não consegue dizer. A pressa, quando constante, rompe o equilíbrio entre emoção e organismo, transformando tensão em doença, ansiedade em insônia, solidão em dor física. O corpo não mente: ele revela o que tentamos esconder. É por isso que desacelerar não é luxo — é necessidade vital. Não somos máquinas. Somos humanos.

Precisamos de pausas, de ritmos próprios, de silêncio para escutar a nós mesmos. A vida não pede pressa. Pede o sabor de uma refeição sem olhar o relógio. Pede a alegria de uma conversa sem celular na mesa. Pede o passeio sem destino, o tempo de amadurecer sentimentos como frutos que só adoçam devagar. Talvez a verdadeira revolução do nosso tempo não seja correr mais, mas aprender a parar. A pressa pode até nos levar adiante, mas quase sempre nos afasta de quem somos. Redescobrir a lentidão é reencontrar a vida. Porque é na calma que a alma floresce — e é no compasso humano, não no das máquinas, que a saudade e a verdade se revelam.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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