sul global

Joaquín Torres García - América Invertida (1943)

Agora inventaram de chamar as nações desenvolvidas de Norte Global e as subdesenvolvidas — ou, se preferirem, em desenvolvimento — de Sul Global. A ideia talvez seja referir-se aos países por sua posição geográfica, eliminando qualquer alusão a seu estado de (sub)desenvolvimento.

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Nos tempos da Guerra Fria, o planeta estava dividido em Primeiro Mundo (os países capitalistas desenvolvidos), Segundo Mundo (os países comunistas) e Terceiro Mundo (os países subdesenvolvidos). Com a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo, o Segundo Mundo desapareceu, e seus países foram redistribuídos entre o Primeiro e o Terceiro Mundos. Portanto, desde então havia apenas dois mundos: o desenvolvido e o subdesenvolvido, cujos integrantes eram — e em parte ainda são — chamados de “países em desenvolvimento”, termo, por sinal, enganoso: outro dia, ouvi uma reportagem chamar o Senegal (ou seria a Zâmbia?) de país em desenvolvimento. Em desenvolvimento?! Que desenvolvimento?

Pois é, a academia e a imprensa não cansam de tentar mascarar a realidade inventando nomes positivos para coisas negativas, como se mudar o nome transformasse para melhor a (triste) realidade.

Agora inventaram de chamar as nações desenvolvidas de Norte Global e as subdesenvolvidas — ou, se preferirem, em desenvolvimento — de Sul Global. A ideia talvez seja referir-se aos países por sua posição geográfica, eliminando qualquer alusão a seu estado de (sub)desenvolvimento. Tudo seguindo estritamente a cartilha do politicamente correto. O problema é imaginar que as nações do norte são todas desenvolvidas e as do sul, “em vias de subdesenvolvimento”, como dizia jocosamente o meu saudoso orientador de doutorado referindo-se ao Brasil.

O fato é que os principais membros do Sul Global — China, Rússia e Índia — ficam no Hemisfério Norte. Metade da África fica acima da linha do Equador e metade, abaixo. Quer dizer que a África do Sul é atrasada, mas o Egito, a Líbia e o Sudão são superdesenvolvidos? E o que dizer da Austrália e da Nova Zelândia, dois dos países mais ricos e adiantados do mundo, que ficam no Hemisfério Sul?

Enquanto isso, Turquia, Azerbaijão, Arábia Saudita, Afeganistão ficam no norte. Isso faz algum sentido? Por isso, continuo usando nos meus escritos os únicos dois termos que acho cabíveis e que descrevem com exatidão a atual conformação do mundo: nações desenvolvidas e nações subdesenvolvidas. Até porque não há nações em desenvolvimento: quem está “em desenvolvimento” não é desenvolvido, logo é subdesenvolvido, para não dizer atrasado, como é o caso do nosso Brasil com suas insolúveis mazelas políticas, econômicas e sociais.

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ALDO BIZZOCCHIAldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.

Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”

Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br

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