Passado e presente, num zás! Por Maranhão Viegas
…Presente e passado… Eu nasci em 1962. A televisão chegou no Brasil em 1950. Então, fazia doze anos que aquele mundo mágico, cheio de novidades sonoras e visuais, que cabia dentro de uma caixa quadrada, tinha desembarcado por estas plagas. Nessa época, poucas pessoas tinham acesso a ela.

A tarde seguia como sempre. Repleta de tarefas profissionais. Telefone tocando, pedidos de informações, alguns absurdos, fontes nem sempre disponíveis, textos explicativos, planos de viagem, briefings. Cotidiano de uma assessoria de imprensa de órgão público. WhatsApp em modo on, Instagram brilhando na tela, X, caixa de mensagens do correio eletrônico escancarada, jornalões digitais, portais de notícias com manchetes pipocando a cada segundo.
De repente, minha filha, Priscila, me manda um recado pelo zap: “Ravi tem uma tarefa de escola que implica em entrevistar alguém sobre a chegada da televisão ao Brasil. Eu disse a ele que o “vovô Aranhas” (é assim que o Ravi me chama desde quando me adotou como avô) seria um bom nome para essa entrevista. Você pode ser a fonte dessa entrevista?” Claro, respondi na hora.
Já na primeira pergunta, Ravi disse a que veio: Você costumava assistir televisão quando era criança?
Minha resposta exigiu um mergulho no meu passado. Eu nasci em 1962. A televisão chegou no Brasil em 1950. Então, fazia doze anos que aquele mundo mágico, cheio de novidades sonoras e visuais, que cabia dentro de uma caixa quadrada, tinha desembarcado por estas plagas. Nessa época, poucas pessoas tinham acesso a ela. No Nordeste brasileiro, onde eu nasci, então, quase ninguém tinha a mínima noção do que era aquilo.
A primeira vez que eu assisti televisão foi na casa de um vizinho, na Madre D’eus, o bairro onde eu morava. Isso foi por volta de 1967. O dono da primeira televisão da vizinhança era um capitão da polícia militar. Assim que ele comprou o aparelho, a notícia se espalhou “como um rastilho de pólvora”. E como a curiosidade de crianças e adultos era enorme, criou-se rapidamente o hábito de ir à casa do capitão assistir sem convite explícito os poucos programas que começavam a passar a partir do final da tarde, quando a programação começava.
No começo, o dono da casa não se importava e até achava legal. Ter uma TV em casa era sinal de poder. Mas, com o passar do tempo, começou a vir tanta gente que a casa dele ficou pequena e à medida que o povo chegava, a intimidade dos donos vazava pelas janelas e portas. Até ficar totalmente sem espaço. Já a plateia… essa era espaçosa até demais. Sabendo que a casa não tinha lugar pra todos, cada um quando vinha de casa já trazia o seu banquinho e se aboletava onde tivesse a melhor visão da TV.
Até que um dia a coisa passou do limite. A casa estava tão cheia, com gente rindo e falando alto, menino chorando, que o capitão aplicou uma GLO doméstica e acabou com as liberdades do auditório inconveniente. Estava todo mundo desconvidado de ir à sua casa ver televisão. O aparelho foi desligado antes da programação terminar. O povo foi saindo e aquelas portas e janelas da casa do capitão se fecharam pra sempre.
Assim se deu o milagre da multiplicação das TVs no bairro. Cada um dos que enxergaram a decisão como a atitude deselegante ou desrespeitosa com os vizinhos, tratou de se esforçar para ter a sua própria TV e não depender mais da boa vontade de “seu ninga”. Com isso outras pessoas foram comprando outros aparelhos de televisão no bairro. E cada um começou a assistir os programas na sua própria casa. A TV da minha casa chegou beirando a virada de 1969 para 70.
Nas três perguntas seguintes, Ravi me fez relembrar que algo em mim, já desde a infância, me empurrava para a comunicação. O Brasil campeão em Guadalajara eu vi em preto e branco, numa TV que não tinha mais do que 20 polegadas. As únicas cores que me lembro daquele dia são as das bandeiras do Brasil agitadas na rua em frente à minha casa, pelos torcedores eufóricos com o tricampeonato que nos chegou pelos pés de Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gerson e companhia.
Lembrei dos Flintstones e suas engenhocas da Idade da Pedra que me surpreendiam a cada novo episódio. Da mesma forma, mas em outra direção, os Jetsons tiravam o meu fôlego sem saber que aquilo que parecia inacreditável naquele tempo – telefones celulares, comidas prontas ao aperto de um botão, robôs obedientes e carros voadores – são componentes de rotinas habituais nos dias de hoje.
Da lista dos primeiros artistas brasileiros por quem primeiro me interessei constam Sônia Braga, Paulo José, Aracy Balabanian, Flávio Migliaccio, armando Bógus e Sandra Bréa, que emprestavam suas interpretações a personagens humanos que contracenavam com os bonecos do programa Vila Sésamo, fazendo a gente (criança) viajar na imaginação.
Fecho o dia torcendo para que Ravi tire um dez em sua tarefa escolar. Entro no metrô em direção à minha casa. Inspiro e expiro. Solto o ar dos pulmões enquanto o trem passa veloz pelos túneis e estações. Entra gente e sai gente. Eu sigo até a estação onde desço e me sinto como quem acaba de ir e voltar de um passado de mais de cinquenta anos. Tudo em algumas linhas de texto e um breve instante.
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Inorbel Maranhão Viégas – escritor, jornalista e poeta, vive em Brasília. Autor de, entre outros, “Cápsulas de Oxigênio”
Brasília,07/11/25
