DEUSA

Negociando com a Deusa. Por Lula Vieira

… Fulana, deusa incontestável da televisão, do cinema e do teatro, garantia permanente de audiência, era a chamada celebridade, muito antes de surgir a revista Caras. Aliás, era ainda o tempo da Amiga,  Capricho e  Ilusão. Situemos lá pelos anos 70 ou 80, por aí. Fulana concedera aparecer na agência para discutir sobre uma possível participação num comercial.

Negociando com a Deusa

A grande atriz era esperada pela agência inteira. Desde manhãzinha especulava-se como seria ela pessoalmente. Muita gente não resistia e telefonava para avisar os amigos: “sabe quem está vindo aqui para uma reunião?  Fulana!”

Fulana, deusa incontestável da televisão, do cinema e do teatro, garantia permanente de audiência, era a chamada celebridade, muito antes de surgir a revista Caras. Aliás, era ainda o tempo da Amiga,  CaprichoIlusão. Situemos lá pelos anos 70 ou 80, por aí. Fulana concedera aparecer na agência para discutir sobre uma possível participação num comercial.

Como eu já disse, estávamos em 70 e o esquema de assessoria, advogados, agentes e representantes não funcionava como agora. Naquele tempo ainda se negociava frente a frente com a celebridade, normalmente acompanhada por um assessor – no máximo um advogado. Estávamos nervosos e apreensivos com o resultado da reunião, pois o cliente tinha ficado eufórico com a possibilidade de colocar no ar um testemunhal da deusa. Dizer a ele que tínhamos fracassado seria um desastre. Era o centésimo roteiro que tentávamos emplacar e não conseguíamos. Um foi aprovado. O da deusa. Não pela criação, convencional, mas por ela. Aceitaria o cachê? Faria o comercial como queríamos?

Escolados em celebridades, pelo menos daqueles tempos, sabíamos o quanto poderíamos sofrer. Sofrer com a falta de pontualidade, com a mudança de humor, com os ataques de estrelismo. Ainda me lembro de uma atriz famosíssima responder ao diretor que pedia um pouco mais de amor em relação ao produto: “meu bem, estou aqui mostrando um xampu. Não um caralho!”  Ou do ator que se apaixonou pelo câmera e só rodou o comercial depois de conhecer em profundidade o tamanho do zoom do profissional.

Trabalhar com estrelas, e não do futebol, era sim uma caixinha de surpresas. Mas voltemos à agência naquela manhã. Claro que o tempo passou e o atraso parecia infinito. Uma hora, duas horas, três horas. Por fim, chega a criatura. Acompanhada por uma dama de companhia, uma senhora com cara de prima e jeito de secretária pessoal, um advogado de terno e cara feia.

Toca todo mundo para a sala de reunião. Café? Café? Suco de laranja? Brioches? A copeira de uniforme novo tentava parecer que passávamos o dia comendo mini sanduíches, croissants, pão de queijo e bebendo suquinhos variados. Logo a gente que quando era o caso mandava subir do botequim rissoles, coxinhas, empadas e coisas saudáveis como Coca-Cola, Fanta Uva e depois do meio dia, uma honesta cervejinha.

Comemos, bebericamos, falamos de novela, comentamos frivolidades e chegou a hora do vamos-ver. Mostramos o roteiro, destacando a nobreza e a elegância que estávamos tratando a deusa diante de seus milhões de fãs espalhados por todas as mídias. Aprovado. Depois falamos do cronograma de filmagem. Aprovado. E entramos no pantanoso terreno da grana, do vil metal, ou – como dizia Jorginho Abicalil – do faz-me-rir. Dissemos a quantia.

O advogado tomou a palavra: “a senhora tal considera essa quantia ridícula! Quase ofensiva!” Tratar a atriz pelo sobrenome e com a palavra “senhora” o antecedendo era o máximo de elegância e ao mesmo tempo denotava distância. Argumentamos com exemplos nacionais e internacionais, falamos do preço do mercado, apelamos para o nacionalismo (o cliente era brasileiro) e a senhora começou a dar sinais de enfado.

Burro como sou em matéria de negociar, tinha dado o cachê que havíamos combinado com o cliente, sem margem para negociação. Para aumentá-lo era necessário falar com o cliente. Lá fui eu para o telefone. A resposta foi delicada, sutil e profundamente elegante: “manda essa puta à merda. Faz com a Ciclana”.

A tal Ciclana, diga-se, era namorada do cidadão. Mas muito menos importante para o chamado consumidor. Voltei à sala de reunião: “Fulana, infelizmente a verba estava no seu limite. Para mim é um desastre, mas não vai ser possível aumentar nada. O próprio cliente está desolado, quase deprimido, mas é uma questão de orçamento, entenda. Peço um milhão de desculpas pelo tempo perdido. Mas vamos ter que partir para outra solução”.

Fez se silêncio constrangido. O advogado olha para a atriz, a atriz olha para o advogado. A reação é absolutamente inesperada. Ela delicadamente pondera: “seu merda! Quem vai pagar essa grana vai ser você!” 

Vira-se para mim: “Pode mandar escrever o contrato. E esse bosta não vai receber os vinte por cento dele nem fodendo!” Foi daí que eu me lembrei da hora que apresentei o comercial para o cliente: “o mais importante é que ela transmite um ar de finura, delicadeza, refinamento”.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

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