passagem perguntas sem respostas

A passagem real: o ofício de desengonçar. Por Meraldo Zisman

…Mudança real é outra coisa. Mudança real é artesanal. Não tem fogos. Tem bancada. Tem repetição. Tem suor. É o esforço diário de desengonçar — de destravar as juntas do espírito que ficaram rígidas de tanto tentar parecer inabalável. Eu não quero virar outro; eu quero desengonçar o que travou…

Há uma missa laica no fim de dezembro. A liturgia é conhecida: roupa branca, mesa posta, brinde, abraço, foto. A gente sorri como quem assina um papel invisível com o céu: “agora vai”. Por alguns minutos, tudo parece obedecer. O relógio vira, os fogos estouram, a música cresce — e o coração, coitado, acredita. Mas o corpo não entra nessa por muito tempo. O corpo é mais antigo do que nossas promessas. Ele não lê calendário; ele lê repetição. Ele sabe do sono picado, do susto que não passou, daquela ansiedade que já virou móvel da casa. E sabe, sobretudo, da solidão bem vestida, aquela que a gente chama de “correria” para não ter que dar nome ao vazio. Quando entramos no ano novo com o mesmo peso, não é a vida que recomeça: é só a decoração que muda.

Eu não tenho nada contra a esperança. Eu vivo dela. Mas desconfio da esperança de vitrine — aquela que usa branco para parecer limpa, mas não aguenta ficar a sós com o próprio espelho. A esperança que presta é outra: é discreta, quase tímida. Não faz barulho. Não posta. Ela chega descalça, senta na beira da cama e pergunta baixo, como quem não quer assustar: “E você… como está, de verdade?”

Porque a vida não se decide no estouro do champanhe; se decide na segunda-feira sem glamour, naquele “tudo bem” automático que dizemos para encerrar conversa e evitar a ferida. O Ano Novo engana porque promete velocidade. A gente quer trocar de pele em sete dias, apagar cicatrizes, “emagrecer” a alma como se angústia fosse gordura. Queremos uma versão melhorada de nós mesmos — sem dor, sem contradição, sem recaída. E quando falhamos — porque a alma não aceita dieta, e o coração não é aplicativo — chega fevereiro com sua crueldade silenciosa: a culpa pendurada no pescoço, como um crachá. E aí vem a frase assassina: “Eu não consigo.” Como se fosse falta de caráter. Como se fosse simples.

Mudança real é outra coisa. Mudança real é artesanal. Não tem fogos. Tem bancada. Tem repetição. Tem suor. É o esforço diário de desengonçar — de destravar as juntas do espírito que ficaram rígidas de tanto tentar parecer inabalável. Eu não quero virar outro; eu quero desengonçar o que travou. Desengonçar é perder a pose. É permitir que o ar volte a circular por dentro. É admitir cansaço sem se humilhar por isso. É fazer as pazes com o fato de que recomeçar, no início, é sempre meio desajeitado. A gente dá dois passos e volta um. E ainda assim, se houver verdade, já é caminho.

Eu aprendi — tarde, mas aprendi — que o tempo não é um palco. Ele não aplaude. Ele é um espelho: não elogia, não humilha, apenas mostra. E mostra com uma honestidade quase cruel: o Ano Novo engana, a vida desengana. A vida nos lembra que não existe “virada” de fogos; existe virada de consciência. A verdadeira passagem não é do dia 31 para o dia 1. É do autoengano para o cuidado. É trocar o “agora vai” — bonito, mas oco — pelo “hoje eu começo” — pequeno, mas sólido.

No fim, a vida não quer que você brilhe para os outros. A vida quer que você esteja nela. Inteiro, do jeito possível. Com falhas, com história, com verdade. A coragem mais rara não é mudar o ano. É desengonçar a armadura — e aceitar, finalmente, morar dentro de si.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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