As insondáveis mulheres. Por Antonio Contente
… Insondáveis… — Sinto desconforto porque, depois de tanto tempo juntos, minha ex-mulher passou a desenvolver uma espécie de ojeriza por mim. Já tentei ser pelo menos seu amigo, mas ela foge de qualquer contato. Como o diabo da cruz…

Ele chegou comigo, na happy hour do bar do seu Fernando, e começou dizendo que houve tempo, na vida, em que achou que entendia as mulheres. Como a afirmativa me pareceu altamente temerária, apenas olhei para o rosto do amigo o suficiente para perceber que algo o preocupava. De repente, contendo os perdigotos, ele crava os dedos da mão direita no meu braço esquerdo:
— Você acaso entende as mulheres?
— Bom – cocei a ponta do nariz – sei que você gosta de mim, mas não tente me santificar.
— Como assim?
— É que talvez só Deus, na sua infinita sabedoria, consiga entender as criaturas a que você se refere.
Primeiro ele colocou na ponta da língua um naco do excelente pernil. Seguiu, então, a falar mastigando:
— Você sabe que me separei, não sabe?
Respondi que não sabia, vazando, também, natural lamento, pois a moça com quem viveu exalava, nos mínimos detalhes, luminosidades de simpatia extrema. Além de quase exuberante charme.
— Pois é – ele segue – depois de mais de 10 anos de convivência, separamos.
— Com choro e com velas?
— Não, sem choro nem velas. Ela apenas deixou de gostar de mim, e me colocou porta fora.
— E o que, agora, te preocupa? – Dei um gole na geladíssima cerveja.
— Não sei se a palavra preocupação cabe. Preferia desconforto. Há algo que me deixa desconfortável.
Peguei o limão, tasquei sobre a carne de porco, enquanto o amigo seguiu:
— Sinto desconforto porque, depois de tanto tempo juntos, minha ex-mulher passou a desenvolver uma espécie de ojeriza por mim. Já tentei ser pelo menos seu amigo, mas ela foge de qualquer contato. Como o diabo da cruz.
Nessa altura, limpando a espuma nos pelos da barba, pensei em argumentar que isso seria algo natural diante da circunstância da linda moça em questão ter arranjado outro. Todavia, ele pareceu ler meus pensamentos, pois enfiou os cotovelos na mesinha, ao afirmar:
— Acho que isso não se justificaria nem que ela estivesse de novo amor. Ou até de casamento marcado.
Daí desfilou longo rosário, relembrando que tinham vivido momentos de intensa felicidade no relacionamento, tanto maior pelas dificuldades que chegaram a enfrentar, como a da grana relativamente exígua, por exemplo.
— Que ela não me queira mais até posso admitir – arfou – mas daí a me tratar como se eu fosse um cão sarnento é um pouco demais, você não acha? Afinal, eu nunca fiz nada para merecer isso, meu Deus!
Agora foi a pimenta. Pedi o molho, espargi sobre um naco pouco mais torrado e, antes de levá-lo à boca, observei, com o garfinho pendurado no ar:
— Olha, diante disso você precisa ter uma abertura.
— Abertura pra que? – Ele demonstrou espanto.
— Bom, é que talvez tua ex-mulher esteja apenas exercitando um reflexo que dá muito prazer a algumas representantes do chamado sexo frágil.
— Verdade? – Ele encheu o próprio copo, depois o meu.
— Verdade – confirmei – há um dado na personalidade de certas mulheres que elas fazem questão de exercer quase como um adubo para suas afirmações pessoais.
— E o que seria isso?
— Algo me diz – arfei – que tua ex-mulher está entre aquelas que adoram cuspir no prato que as comeu…
Daí, me servindo de mais pernil, nada mais disse. Mesmo porque nada mais me foi perguntado.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
