senhor senhora

O senhor, a senhora. Por Aldo Bizzocchi

… a questão é que o uso dos pronomes de tratamento o senhor e a senhora encobrem um certo etarismo. Afinal, somos quem somos desde que nascemos e até quando morrermos. Por que deveríamos ser tratados pelas pessoas de modo diferente só porque envelhecemos? …

senhor senhora

Não gosto de ser tratado por senhor. Nunca gostei. Mas, depois de uma certa idade, tenho gostado menos ainda. Quando criança, aprendi que deveríamos tratar os mais velhos por senhor ou senhora em sinal de respeito. Quando se é criança, mais velhos são todos os adultos, inclusive os de 18, 19 anos. E o respeito aos mais velhos é um princípio basilar da civilização. Afinal, o primeiro fundamento de uma sociedade organizada é o respeito à autoridade, começando pelos próprios pais. Portanto, não respeitamos nossos pais por serem mais velhos que nós, mas por serem hierarquicamente superiores. Embora a palavra senhor provenha do latim senior, que significa “mais velho”, a ideia é que senhor é aquele que tem poder: senhor de si mesmo, senhor de escravos, senhor feudal, assenhorear-se… No entanto, sempre tratei meus pais por você e nunca faltei ao respeito com eles. Em contrapartida, parlamentares se tratam por Vossa Excelência mesmo quando se xingam e se acusam de corruptos.

É por essa razão que tratamos por senhor aqueles que têm autoridade política, administrativa ou intelectual: delegados de polícia, médicos, advogados, professores, nosso chefe, o diretor da empresa, e assim por diante. Também tratamos por senhor ou senhora pessoas desconhecidas, com quem não temos proximidade, desde que não sejam mais jovens que nós.

Assim, depois que passei dos 40 anos comecei a ser tratado por senhor por balconistas, manobristas, atendentes e todo tipo de prestadores de serviço, o que significa que esse tratamento tem a ver com idade, mas também com posição social. Aliás, hoje em dia, a etiqueta empresarial recomenda que todo cliente seja tratado por senhor mesmo que seja jovem. Também sou tratado por senhor por muitos de meus alunos, embora eu nunca tenha feito questão disso e, desde o primeiro dia de aula, os deixe à vontade para dirigir-se a mim como quiserem, desde que com respeito.

Mas a questão é que o uso dos pronomes de tratamento o senhor e a senhora encobrem um certo etarismo. Afinal, somos quem somos desde que nascemos e até quando morrermos. Por que deveríamos ser tratados pelas pessoas de modo diferente só porque envelhecemos? Chamar alguém de senhor sem que haja um desnível hierárquico é uma maneira sutil de dizer “você é velho”. E por que deveríamos tratar os velhos de maneira diferenciada? Nas sociedades tribais e ágrafas, os velhos são os detentores do conhecimento ancestral, que passa de geração a geração; portanto, merecem respeito porque são a própria salvaguarda da continuidade da tribo e de sua cultura. Além disso, são os detentores do poder na tribo. Mas, na nossa sociedade “civilizada”, o velho é geralmente visto como alguém não produtivo, desatualizado, frágil, dependente, sem autonomia, “bananeira que já deu cacho” — enfim, numa palavra, alguém inútil, quando não um fardo que a sociedade tem de carregar. E numa sociedade que exalta a juventude, a vitalidade e a produtividade, o velho é a antítese de tudo isso.

É por essa razão que não gosto de ser chamado de senhor. Porque, mesmo já não tão jovem, sou ativo, produtivo, antenado com as novas tendências, e porque, como disse, o tratamento mais formal não necessariamente indica respeito e sim um preconceito disfarçado. É por isso também que não pretendo ser velho: quero ser vintage.

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ALDO BIZZOCCHIAldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.

Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”

Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br

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