PEDRA

Quando a pedra vier. Por Antonio Contente

…Machado de Assis, no tempo em que era cronista, publicou um saboroso texto a respeito de um iminente desastre como o recentemente anunciado pelo tal russo. Se bem lembro, a crônica se intitulava “A Pedra”…

         O fim do mundo que, segundo o poeta Paulo Mendes Campos começou no justo instante em que o dito cujo foi criado, de vez em quando, nos dias atuais, sem pompa e circunstância é anunciado. A última vez que isso ocorreu faz pouco tempo quando um russo, apresentado nos noticiários como cientista, anunciou que uma enorme pedra, vinda do espaço, colidiria com a terra num dia l6 de certo mês. Muitas criaturas acreditaram no medonho vaticínio, é claro; pois há crente para tudo, até a balela de que vivemos dias de inflação sob controle.

         Sei até de pessoas que se prepararam para o macabro evento da colisão espacial. Um bom amigo que mora perto de viçoso bosque urbano entrou num processo de funda meditação a fim de se preparar para o instante do choque. E até me justificou, a exalar conformação filosófica, com o que estaria para acontecer.

         — Precisamos, meu caro, estar preparados para tudo, uma vez que estas coisas estão escritas nas estrelas – me disse.

         Em seguida, olhando nos meus óculos, lançou a pergunta, como um dardo:

         — E você, está se preparando?

         Tomado de surpresa, abri os braços:

         — Fique tranquilo que eu sempre estou atento. Para o que der e vier…

         Mas esses recorrentes anúncios que de vez em quando pintam anunciando a colisão do nosso planeta com algo que vem de longe não é coisa nova. Já Machado de Assis, no tempo em que era cronista, publicou um saboroso texto a respeito de um iminente desastre como o recentemente anunciado pelo tal russo. Se bem lembro, a crônica se intitulava “A Pedra”, e saiu no jornal dias depois da catástrofe, anunciada lá por mil oitocentos e tanto, não se ter confirmado. Ao final, porém, o autor de “Dom Casmurro” deixava no ar que a hecatombe, mesmo tendo sido falsa, não deveria ser descartada como possível de acontecer em algum tempo.

         Voltando aos nossos dias, confesso que a tal pedrona que não despencou sobre nós resvalou pelos meus pensamentos. Dias antes da data marcada pelo soviético eu estava num simpático barzinho na Chácara da Barra, aqui em Campinas, com mesas sob os galhos de duas proustianas sibipirunas em flor. Tendo chegado lá no fim da tarde, me vi coberto pela noite e, graças a um céu bastante claro, de repente soltei o olhar para o alto e avistei algumas estrelas. Imediatamente pensei na enorme pedra que estaria a caminho. E fiquei atento. Como se, de repente, seu traço em fogo pudesse cortar o sidéreo espaço ante meu nariz, fazendo a colisão correr ali mesmo entre os dispersos sonhos das poucas pessoas que tomavam cervejas.

         Saindo do boteco não pensei mais no assunto. Porém, no dia seguinte, ao chegar para o costumeiro cafezinho com os amigos no Regina, percebi que o assunto na mesa era a tal pedra que colidiria com a terra no dia 16. A primeira frase que ouvi, foi esta:

         — E daí? Tudo isso é bobagem, meu. Tanto faz o cometa bater na tua casa como no Cristo Redentor a destruição será a mesma.

         Bom, outros comentários ocorreram e a conclusão a que cheguei é que ninguém estava assustado com o medonho evento. Que, de resto, como todo mundo viu, de fato não ocorreu na data marcada, e não faço a menor ideia de onde o russo que fez a predição se meteu após o fiasco. Se fosse nos velhos tempos do comunismo, com o fracasso do vaticínio o coitado provavelmente seria mandado para a Sibéria.

         Mas foi só lá pelo dia 20 do mesmo mês da previsão que, em casa, à noite, encontrei algo que, realmente, está me deixando com a pulga atrás da orelha. Foi  longa matéria publicada no site de um jornal inglês contando algo não sobre desastres siderais, como a queda de um cometa em nossas cabeças. A reportagem falava de Ovnis, os famosos objetos voadores não identificados que a maioria chama de discos. Entre as várias coisas a respeito que fui lendo, de repente me chamou a atenção frase pronunciada por um diretor da Nasa, a agência espacial americana. Ele disse o seguinte ao repórter que o entrevistava:

         — Se vocês souberem ao menos uma fração do que sabemos, nunca mais dormirão sossegados.

         Depois de ler e reler o comentário confesso que, de fato, naquela noite fiquei com a impressão de que me observavam do lado de fora do quarto. Não que eu estivesse com a janela aberta. Mas sim que olhos cor de sangue me viam através dela. Levantei e tomei alguns Buchanan’s, para dormir novamente. E até agora não sei se o lido no jornal britânico foi apenas pretexto. Pois, inclusive, tive o cuidado de colocar no som, como fundo musical, algumas Sonatas para Piano de Wolfgang Amadeus…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 

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