Saudades penduradas. Por Antonio Contente
Como pode ser fecundo recordar até os abandonos. Inclusive porque, de repente, a dor que possa ter gerado algum amargor de momento será filtrada mais tarde para, nas horas das saudades penduradas, virem a nós como um cântico que poderia ser de oração…
Ora, amigos, vamos falar a verdade, não há quem não tenha, em algum recanto d’alma, saudades penduradas. Que podem aflorar, inclusive, nem só nas horas mortas; mas, até, no fragor das andanças das horas vivas. Gosto de procurar as minhas nos instantes em que o vento da tarde bate na janela, inundado pelos aromas dos jardins de outrora. Jardins, mesmo os presentes, só são jardins se paira sobre suas folhas e flores algo de antigo; pois no que foi é que mora o encanto de sermos tomados pelo eterno.
Outro chamamento formidável para as saudades penduradas são as chuvas. Pra mim, então, filho da Amazônia Profunda onde os aguaceiros duram, como nas narrativas de Garcia Marquez, cem anos na sua feição mais passageira, a primeira nuvem que se intromete no azul já é o chamamento. Para fazer emergir das brumas a grande casa de madeira onde vivi a infância, na ponta de uma ilha, flutuante tufo verde a navegar no rio imenso. Trovão é abrir a partitura; silvar dos ventos, meigos acordes; para, finalmente, termos os pingos a bater sobre os beirais. O que torna meigamente densas as melódicas sinuosidades daquilo que se abriga nas folhas e nos galhos do todo da sinfonia.
Também saudade pendurada é uma outra casa, esta aqui mesmo em Campinas, solar de duas ou três águas que se viam cobertos pelas pepitas de ouro que as sibipirunas soltam para tornar mais vivos os significados dos outubros. Eu a conheci num setembro e, anos depois, escrevi, acho que até em livro, que todas as pessoas deviam ter uma casa, necessariamente em setembro. Nem culpo a Primavera que rodeia a época, mas amores então nascidos se não se perenizam no viés do para sempre, são tão densos e frutíferos nos tempos decorridos que as saudades deles acabam por ser criativas, meigas, alongadas, macias; companhia perfeita para os recolhimentos das horas em que o olhar se perde para achar a resolução das sombras. Onde moram os amores eternos mesmo sendo breves, pois breves são as felicidades duradouras.
Às vezes me pergunto por onde andam certas moças que foram importantes o suficiente para se tornar saudades penduradas. Por mim passa, de vez em quando, a menina de cabelos curtos e olhos vivos, com aroma de brisas matinais na pele alva. Como era bom o ar de grandeza imprescindível que o estar com ela dava ao cristalizado cintilar das estrelas. Como suas mãos, de dedos de pianista que nunca foi, acabavam por reger, com a precisão de quem conhece as partituras das belezas, o envolver e o acalentar nas claves, de sol ou de fá, do belo.
No último céu baixo de chuvas que logo bateram no fragor da ventania, eu, por exemplo, puxei para mim a saudade pendurada daquela linda manhã de Verão amazônico, em Joanes, Ilha do Marajó. Quando, com certa moça que os anos aureolados trouxeram e o tempo nesta vida já levou, nos entregamos às ruas com leito de grama muito verde por onde veículos motorizados não podiam circular. Como foi bom ornar o calor, batido pelos ventos do mar que corriam sobre as beiras de muros tomados por heras anteriores às eras, com o perfume que vinha daqueles cabelos negros. Que esvoaçavam, pedindo o gesto de graça das mãos, leves como um suspiro de pétalas.
E nada melhor para se encaixar na lembrança de agora, do que o lugar onde estávamos. Ruas estreitas, limpas, com casas de janelas baixas a permitir que quase entrassem pelas janelas os galhos dos oitis e acácias. No dobrar de certo espaço que poderia ser uma praça, vimos cercas de estacas que continham os sempre transbordantes limites de quintais. Neles árvores de galhos amplos, com certeza não apenas abertos para o pousar dos pássaros; sim mais propícios ainda para o íntimo abrigar dos ninhos.
Como pode ser fecundo recordar até os abandonos. Inclusive porque, de repente, a dor que possa ter gerado algum amargor de momento será filtrada mais tarde para, nas horas das saudades penduradas, virem a nós como um cântico que poderia ser de oração; o que houve de beleza, certamente, é o que vai contar para a carícia do saber se entregar ao eixo do passado e da memória.
Mas, afinal, o que me fez sentar diante da tela do computador, foi um trovão a anunciar iminência de chuva. Mesmo gostando tanto destes aguaceiros da época, temi que o que chegava pudesse impedir um amigo, com quem estive pela manhã e de quem conheço a história, de ir ao encontro de uma moça pela qual está apaixonado faz mais de 20 anos. Como já se uniram e separaram dezenas de vezes, fiquei com medo que o moço nem tão moço perdesse um instante que, depois, ficará pendente em algum polo para ser baixado na hora das lembranças. Até porque a menina que também não é tão menina, por seus mistérios, magias e encantos, conduz esse veterano homem às emoções de ir frequentemente à nobre parede das recordações. Seria, então, injusto que uma impertinente chuvarada pudesse impedir mais aquele instante que, numa literatura futura à qual eu pudesse me entregar, seria certamente riquíssimo como prólogo. Para narrar a respeito de mais uma nova e criativa saudade pendurada…
Alguém pode estar a perguntar, não existem as saudades que não valem a pena ser lembradas? Sim, naturalmente, lá estão elas, também penduradas. Só que num outro lugar, onde há sempre luz de sol. Porém, sem quase nunca receber a nítida poesia de um suave plenilúnio. Que também chamam de luar…
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

Sentir saudades por quem suspirando um dia, saudades por quem vivemos poucos ou muitos instantes inesquecíveis lá atrás, no tempo, saudades penduradas na sacada do coração, ah….essas me vem sem prévio aviso. Agora, em dias em que estou jururu, chovendo há dias lá fora, como hoje, daí eu sinto saudade daquilo que eu nao vivi apesar de querer…. que ficou página em branco…