PESQUISAS

…Pesquisa é um retrato do momento e a opinião pública, como dizia Magalhães Pinto, é como nuvem. Cada vez que você olha pode estar diferente…

duas mãos segurando binóculos. ilustração do conceito para informações de pesquisa, procurando algo, observar, espionar. ilustração vetorial em estilo cartoon plana. 7434000 Vetor no Vecteezy

A Folha está divulgando suas últimas pesquisas sobre a intenção de voto dos eleitores para Presidente da República. É claro que, com a subida do candidato bolsonarista, o pessoal do PT já está dizendo que se trata de um resultado comprado. Exatamente o mesmo que diziam os adversários durante todo tempo que Lula se mostrava imbatível.

Aliás, dizer que uma pesquisa é comprada é uma besteira. Toda pesquisa é comprada. Os chamados Institutos de Pesquisa são empresas que não trabalham de graça. Alguém tem sempre que encomendar uma pesquisa e pagar por ela. Comprar o resultado é que é impossível nos institutos sérios.

A confiança naquilo que é apresentado é fundamental para que os partidos e os candidatos tracem suas estratégias. Uma coisa que é absurda é vincular os resultados de pesquisa em diferentes oportunidades com o resultado final. Pesquisa é um retrato do momento e a opinião pública, como dizia Magalhães Pinto, é como nuvem. Cada vez que você olha pode estar diferente.

Parênteses: em quase sessenta anos de profissão nunca vi, na intimidade, um político profissional duvidar do resultado de uma pesquisa. Reclamar é sempre da boca pra fora. Mas eu quero hoje recordar de uma profissional da área chamada Maria Thereza, dona da Retrato, durante muito tempo uma das mais respeitadas empresas de pesquisa do Brasil.

Nos áureos tempos, a Globo não entrava no ar sem ouvi-la, sobre passado, presente e futuro. De certa forma era ela quem orientava programadores das redes de televisão abertas e fechadas, políticos e empresas. Maria Tereza sabia ouvir as pessoas, entender suas motivações, traduzir seus discursos nem sempre sinceros. Como ela própria afirmava: “as pessoas dizem o que imaginam que fica bem dizer, mas fazem o que sentem”.

Saber o que as pessoas realmente sentem sempre foi o seu grande talento. Uma craque. O grande problema da Maria Tereza era na hora de apresentar os resultados de suas pesquisas. Certa ocasião, um empresário que não gostou do relatório de uma enquete teve a coragem de, na frente de todo mundo, encomendar “outra mais favorável”. Segundo ele, não estava pagando para ouvir críticas.

Também teve o político que, após ouvir os números finais de centenas de entrevistas com eleitores, afirmou: “esta é a sua opinião sobre o que eles disseram. A minha é que eles queriam dizer outra coisa”. E nada mais acrescentou. O fato de ter perdido as eleições não diminuiu em nada o belíssimo impacto dessa bravata dita com voz alterada na convenção do partido.

Outra vez, Maria Tereza fez uma extensa pesquisa para uma grande multinacional. O chefão, meio insensível ao fato que roupas sujas se lavam na maior intimidade possível, resolveu armar um show e convidou quase a empresa inteira para conhecer os resultados. Nessa reunião ficou claro que havia uma área que era muito mal julgada pelos consumidores. Esse departamento estava sob a responsabilidade de uma senhora que ficou revoltada com as opiniões sobre o serviço que prestava. A cada afirmação da Maria Tereza, ela rebatia com dados, com outras versões, com desmentidos formais. Santamente Maria replicava dizendo que não era opinião dela, mas do povo, do usuário, do consumidor. Nada disso adiantava. Cada crítica merecia um discurso violento mostrando o lado contrário, a absoluta injustiça do mundo diante de tanto esforço em acertar, em prestar um serviço deslumbrante, em noites mal dormidas e sacrifícios enormes. Até que, finalmente, a tal senhora grita: “porra, vocês são uns filhos da puta! Ficam ouvindo estas coisas das pessoas, tomam nota, e não rebatem, não mostram o outro lado, não mandam estes caras à merda!  Afinal, quem é que está pagando vocês? Somos nós ou é este bando de pés rapados?”

Fiquei imaginando uma moderadora de discussão em grupo dizendo para um participante: “Cale a boca seu merda! Quem é você para criticar este serviço, seu babaca inconsequente! Dobre a língua e nunca mais repita este monte de baboseira!” Seria um sucesso. Fernando Gerardo, de saudosa memória, sempre disse que consumidor é para consumir, não para dar pitaco. Achava que o consumidor tinha dois direitos: pagar e não chiar. Segundo ele, olha só, basta dar um holofote para esses merdas e eles se sentem os donos do mundo.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

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