Morte e vida. Por Adilson Roberto Gonçalves
Hipocrisia é a palavra que rege os supostos defensores da vida que obrigam crianças a serem mães e defendem estupradores como se fossem pais. A suspensão das diretrizes para atendimento de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual é mais um capítulo da insana busca pelo protagonismo paternalista, falso moralista e religioso…

Matamos uma menina de 12 anos em sua infância ao permitir que fosse estuprada por um homem de 35 anos. A hipocrisia corrói nossa sociedade e não são latas em conserva que modificarão isso. Matamos mulheres a todo instante ao retirarmos dela não apenas a vida, mas a dignidade de viver por entendê-las meros objetos de desejo e posse. Um jornal perguntou como mudar esse comportamento social e a resposta está na cultura e educação. Mas a cinética rápida e violenta da cultura do estupro está em descompasso com a termodinâmica pouco favorável da índole humana violenta. Precisamos ser o que desejamos e não o que, eventualmente, a natureza nos determina ser.
Temos de falar também de aborto porque está relacionado à cultura da morte disfarçada de vida, pois foi outra menina, de 13 anos, que quase foi impedida de realizar a interrupção da gravidez mesmo depois de ter sido estuprada e engravidada por um parente. Lembremos que uma das que fizeram intenso movimento contrário ao procedimento legal na criança foi a senadora Damares Alves que hoje fala a favor da ampliação da licença paternidade e defende cotas para pessoas trans. Aqui está valendo mais a conquista do voto do que a mudança de opinião.
Hipocrisia é a palavra que rege os supostos defensores da vida que obrigam crianças a serem mães e defendem estupradores como se fossem pais. A suspensão das diretrizes para atendimento de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual é mais um capítulo da insana busca pelo protagonismo paternalista, falso moralista e religioso de uma fração política que nos condena ao atraso.
Descriminalizar o aborto não é legalizá-lo ou incentivá-lo. É apenas tratar a situação, já traumática, como questão de saúde pública. E o que fizeram agora é mais um atentado contra a infância e sabem que dificilmente vingará, mas serviu para deixarem sua marca.
Marca da morte.
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– Adilson Roberto Gonçalves – pesquisador da Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista. Vive em Campinas.
