Irã

… Os problemas se agravaram a partir do momento em que os aiatolás reativaram o programa nuclear do Xá, e foram buscar assessoria dos russos para uma tecnologia norte-americana. Mesmo tendo assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, as pretensões do Irã dos aiatolás não pareciam restritas à pesquisa científica. A nuclearização habilitaria a sua supremacia no campo militar…

Irã

Lembro-me vagamente que antes éramos dois,
 e que o amor intrometendo-se, tornou-nos um só... (Poema persa)

Se se penetrasse no coração do Irã só encontraria poesia, concluiu um daqueles sábios da Antiguidade. Ao contrário de quem só vê no Irã pretensões à hegemonia no Oriente Médio, o país cultiva uma profunda e milenar herança cultural legada pela antiga Pérsia, que tinha na poesia e nas artes o caminho para a educação e a valorização da sua identidade. Influenciavam a visão de mundo dos cidadãos, a língua e até a vida cotidiana. Hoje ainda valoriza seus poetas clássicos tanto quanto os seus líderes.

Por ali, narrativa e poesia sempre se cruzaram nas artes e na religião, até que, súbito, um grupo de religiosos islâmicos, contaminados pelo antijudaísmo, assumiu o controle total da sociedade. Depois da derrubada do governo Imperial, criaram, em 1979, um braço poderoso do exército convencional, que chamou de “Guarda Revolucionária”, para se proteger. Concomitante, passou a financiar a ação de grupos terroristas – Hezbollah, no Líbano; Hamas e Jihad Islâmica, na Palestina; Houtis, no Iêmen; Boko Haram, na Nigéria, e outros – todos compromissados em refutar a presença dos Estados Unidos na região, a combater o judaísmo e a destruir o Estado de Israel, em nome do que identificaram como “Sionismo” (“Sião”) – movimento de  criação e sustentação política de um Estado étnico judeu,  capaz de reunir seu povo disperso pelo mundo em diásporas seguidas ao longo da História.

Um dos berços da civilização, o Irã modernizou-se – embora ainda se cozinhe em fogão de lenha. Herdou fragmentos étnicos e territoriais do Império Otomano, derrotado na Primeira Guerra, reunindo grupos persas, turcos, curdos, indianos, armênios e outras culturas distintas no Oriente Médio. Depois de um início atribulado de Poder, coube a Muhamad Mossadegh, na condição de primeiro ministro (1951-1953), a defesa do controle, pelo Irã, do seu próprio petróleo, contra pretensões da Rússia e a exploração pelos ingleses. Foi assassinado logo depois.

Ainda Pérsia (550 AC), no século XIX foi invadido por povos islâmicos, manteve a convivência plural com as diferentes manifestações religiosas nativas – cristãos, judeus, zoroastras e armênios. Mas, seguindo os ensinamentos do Alcorão (livro sagrado) os islâmicos iranianos geraram uma divisão entre adeptos: xiitas e sunitas. Por se considerarem os mais puros seguidores do islamismo, os dirigentes – que se dizem descendentes de Maomé – assumiram expandir seu poder e domínio moral e político na região. O país chegou a ser atacado pelo Iraque, de Saddam Hussein, um sunita, temendo a maioria xiita no Irã, embora reivindicasse a mesma prerrogativa.

Foi salvo na disputa com Saddam pelo apoio militar dos EUA e de Israel. Após o conflito, com o Iraque enfraquecido, levou o governo iraniano a insistir no seu reconhecimento como uma “Potência Regional”, nas relações internacionais. Com a maior representação xiita do Planeta, auto reconhecia-se com capacidade para liderar e ditar os rumos de sua vizinhança. Contudo, deste a revolução de 1979, que derrubou o xá Reza Pahlevi (1941-1979), o programa nuclear iraniano, estava congelado pelos clérigos, por considerá-lo algo “anti islâmico”. Essa crença durou até que os aiatolás, em suas pretensões hegemônicas, descobriram nele, e em outras estratégias repressivas, alternativas para assumir a liderança no Oriente Médio.

Em troca de uma tolerante convivência com o Estado judaico de Israel, insistia no reconhecimento como “Potência Regional”. Parecia um “habeas corpus” para dar legitimidade às suas pretensões regionais não confessas. George Bush, dos EUA, rejeitou a ideia. Em resposta, os aiatolás tornaram explícita a sua intenção de “Varrer Israel do Mapa”.

O grande propulsor dessa tese foi o ex-presidente xiita, por dois mandatos, Mahmoud Ahmadinejad, que estendeu internamente uma política de intolerância e violência contra as demais minorias. Dizia-se amigo do Brasil. Mal localizava o país no mapa. Esteve por aqui não se sabe fazendo o quê. Mas criou laços. Teria sido morto nesse último fim de semana em sua residência particular em Teerã.

Os problemas se agravaram a partir do momento em que os aiatolás reativaram o programa nuclear do Xá, e foram buscar assessoria dos russos para uma tecnologia norte-americana. Mesmo tendo assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, as pretensões do Irã dos aiatolás não pareciam restritas à pesquisa científica. A nuclearização habilitaria a sua supremacia no campo militar. Consideravam-se os mais puros seguidores muçulmanos do islamismo, dos ensinamentos de Maomé, e inclusive o líder Supremo (primeiro, o Khomeini e, depois, o Khamenei) como descendentes direto do profeta Maomé. Seu programa nuclear era sistematicamente denunciado, sobretudo por Israel – que é um estado nuclearizado -, como propenso à fabricação da “bomba atômica”, e até o seu uso devido àquelas insinuações de superioridade. Na verdade, não era muito diferente do que passava pela cabeça do Xá.

Tenho o prazer de citar aqui o admirável repórter Samy Adghirni, que foi correspondente do jornal Correio Braziliense no Irã por mais de dois anos, e escreveu um belíssimo livro intitulado “Os Iranianos”, publicado pela editora Contexto. Documentou a vida social, cultural e política do país. “O Irã diz se ater a um enriquecimento de urânio a 20% de pureza, necessário para fins civis, O problema é que esse nível supõe a superação de todas as principais dificuldades técnicas iniciais no caminho da bomba. Quem enriquece urânio a 20%, consegue saltar com relativa facilidade para os 90%, necessários para usos militares”. Além de possuir centrais para enriquecer urânio, o Irã construía um reator de água pesada na cidade de Arak. Supostamente era voltado para a produção de equipamento médico, com potencial, entretanto, de gerar uma bomba de plutônio, um rejeito concentrado do urânio 235.

Num momento de vacilo retórico espiritual, o aiatolá Khamenei, há 40 anos como Líder Supremo, acima de todos os poderes do Estado, explicou que possuir armas de destruição em massa seria “anti-islâmico”. Procurava justificar-se ante as Comissões de Inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e, em particular, aos ex-presidentes dos Estados Unidos – Bush, Obama, Biden e aos europeus. Esbarrou, enfim, na intempestividade de Trump, que deu mais ouvidos à Benjamin Netanyahu que, repetidamente, acusa o Irã de estar caminhando para produção da “bomba atômica”, se já não a tiver.

Foi difícil escrever este artigo. Vi-me me diante do dilema da corrupção no Banco Master e o roubo no INSS, envolvendo mais de 40 políticos, empresários, e até personalidades do Governo, e o desafio da guerra do Irã. Ambos os temas cabem na “agenda setting” do noticiário da mídia. A corrupção é um tema recorrente por aqui. Repete-se: muda de face, mas envolve quase sempre os mesmos personagens que parecem colados no Poder. Acho que não sabem fazer outra coisa.

Optei pela Guerra no Irã. Tem uma novidade importante. Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, acaba de ser escolhido Líder Supremo do Irã. É um clérigo bem relacionado por ter sempre trabalhado no gabinete do pai. Sua escolha indica que a linha dura pode continuar. Trata-se, entretanto, de uma figura de bastidores, cuja visibilidade vem da filiação hereditária. Certo de que o Irã está derrotado nesta guerra, Trump manifestou sua contrariedade com a continuidade do atual regime iraniano. Para ele, aquele que não tiver o seu reconhecimento não irá durar.

Os poetas e artistas não estão indiferentes a um desfecho possível. A poesia ufanista começa a ver tudo com um certo pessimismo. Em Shiraz, cidade dos poetas, próxima a Persépolis …meu irmão chama o jardim de cemitério/ ri da quantidade de ervas daninhas/ e conta os corpos dos peixes/ na água adoecida…” (Forough Farrokhzad).

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Aylê-Salassié F. Quintão –  Consultor de projetos sociais | Consultor da Catalytica Empreendimentos e Inovações Sociais. Jornalista, professor, doutor em História Cultural, ex-guarda florestal do Parque Nacional de Brasília. Vive em Brasília. Autor de  “AMERICANIDADE”, “Pinguela: a maldição do Vice”. Brasília: Otimismo, 2018
Autor, entre outros, de Lanternas Flutuantes:
Português –   LANTERNA FLUTUANTES, habitando poeticamente o mundo
Alemão – Schwimmende-laternen-1508  (Ominia Scriptum, Alemanha)
Inglês – Floating Lanterns  
Polonês – Pływające latarnie  – poetycko zamieszkiwać świat  
novo livro de Aylê-Salassiê: TERRITÓRIO LIVRE!

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