Os dois sem teto. Por Antonio Contente
Sem teto…a fatídica exclamação do “não há vagas” novamente se repetiu; com o aguaceiro aumentando, bateu uma espécie de desespero. Ao volante do carro, de repente Odair ouviu a mulher apontar: — Olhe ali, querido, é uma delegacia. Se não indicarem um pouso, quem sabe nos deixam dormir em alguma cela vaga lá mesmo.

A surpresa pode ser o inesperado programado, com endereço certo; o inesperado, porém, é a surpresa que despenca do nada. Certamente o casal de brasileiros Odair e Norberta, em viagem pela Europa, não pensou nisso ao alugar carro em Portugal para passar uns dias na Espanha. É verdade que até saíram com bom tempo em Lisboa, mas, ao se aproximarem da fronteira, as chuvas, comuns no Outono, começaram a marcar presença. O que, de resto, num primeiro momento, não atrapalhou nada. Bem ao contrário do fato de não terem feito reserva de hotel na capital espanhola, onde chegaram no fim da tarde em rota de pouco mais de 600 quilômetros. Os fatídicos “não há vagas” se sucederam com impressionante constância, logo, porém, explicada: ocorria exatamente o turbilhão do 12 de outubro, quando no pais ibérico comemoram o Dia da Hispanidade, acoplado às festas de Nossa Senhora do Pilar, a padroeira do país. Com manifestações espalhadas por todo lado, de fato nem nas escondidas pousadinhas havia a mais longínqua ou remota cama disponível.
Quando o casal recebeu a dica de que poderia encontrar abrigo em Aranjuez, cidade relativamente perto da capital, a noite já se formara e a chuva apertara. Lá, porém, a fatídica exclamação do “não há vagas” novamente se repetiu; com o aguaceiro aumentando, bateu uma espécie de desespero. Ao volante do carro, de repente Odair ouviu a mulher apontar:
— Olhe ali, querido, é uma delegacia. Se não indicarem um pouso, quem sabe nos deixam dormir em alguma cela vaga lá mesmo. Afinal, aqui é primeiro mundo; os cárceres não são tão lotados como no Brasil…
No instante em que a dupla se postou diante do delegado o relógio marcava 21 horas. Explicaram o problema e a primeira reação do policial foi coçar a barba por fazer e esmagar a bagana do cigarro no cinzeiro.
— Sabe? – Ele finalmente diz – Não posso colocá-los numa cela pela simples e boa razão que vocês não fizeram nada.
— Mas doutor…
— Impossível. Se o distinto casal não cometeu crime nenhum, não poderá ser encarcerado. Mas vocês podem estacionar o carro aí na frente e dormir dentro dele.
— Com essa chuva e esse frio?
Sob baixa temperatura e o aguaceiro que aumentava, retornaram ao veículo. Todavia, nem chegaram a dar partida, pois Norberta teve a ideia:
— Já sei, hospital!
— O que é que tem hospital?
— Vamos procurar um dizendo que preciso ser internada. Vou alegar que estou com dores no estomago e que é necessário fazer uma ressonância.
— Pode ser boa alternativa – Odair concordou – até porque não faz nem um mês que você arrancou o apêndice supurado.
Na própria delegacia conseguiram o endereço do hospital mais perto e se dirigiram para lá. Entraram com a mulher se apoiando no ombro do marido, atendimento imediato. Norberta narrou para o médico o que estava sentindo e, não demorou muito, o casal encontrava-se instalado num quarto. Quando os enfermeiros apareceram para levar a paciente para o procedimento de exames no abdome, os dois até pensaram em revelar que, na realidade, queriam apenas um lugar para dormir. Temendo, contudo, reação igual ao do delegado a afirmar que não poderia recolhê-los a uma cela sem crime, a moça deitou na maca a fim de ser levada para a ressonância. O marido ficou na sala de espera.
Passa-se mais de duas horas, o rapaz começara a andar de um lado para o outro, inquieto. Reaparece o médico.
— Ela vai ter que ser operada – murmura, o tom grave.
— Operada?
— Imediatamente. A sala de cirurgia já está sendo preparada.
— Mas meu Deus – Odair abre os braços – o que é que minha mulher tem?
— Isso – o doutor mostra os exames.
— E do que se trata?
— Uma pinça de metal. Sua mulher fez operação de apêndice e esqueceram, dentro dela, uma pinça de metal.
O marido passa a mão no rosto, depois na cabeça. Por fim murmura, quase num esgar:
— Tudo bem, doutor, seja o que Deus quiser… E olha que o cirurgião que a operou no Brasil não era nenhum cubano do Mais Médicos…
O cirurgião espanhol não entendeu. E partiu para resolver a emergência. De resto, com sucesso.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
