Extrema direita francesa quer controlar Edições Grasset. Por Rui Martins
Toda imprensa francesa tem noticiado com destaque nestes dias a decisão de mais de 300 autores de romperem com a Editora Grasset, pela qual seus livros são editados. Grasset vinha sendo desde 1907, ano de sua criação, uma prestigiosa editora de literatura francesa e estrangeira, ensaios, romances, ciências humanas, etc.

Hoje, quando qualquer um pode editar, publicar e vender seu livro pela Amazon, alguém pode perguntar se as editoras são ainda importantes. Sim, são importantes porque sem elas, sem a seleção dos originais, sem a impressão desses originais para serem vendidos nas livrarias, muitos autores de valor ficariam desconhecidos.
Por coincidência, relembra-se nesta semana (23 de abril) a morte de dois monumentos da literatura mundial, há 410 anos, William Shakespeare e Miguel Cervantes. Ambos se tornaram lidos e conhecidos por terem seus originais publicados depois da criação da imprensa por Gutenberg.
Os primeiros livros impressos, surgidos na segunda metade do século XV, marcaram o fim do monopólio da cópia manual de livros em pergaminhos feita nos mosteiros, pela qual a Igreja controlava a escassa produção de livros.
O surgimento das primeiras gráficas de Gutenberg, de custo bem mais barato, permitiu a produção em série de livros, tornou a Bíblia acessível a todos, criando a livre interpretação de seus textos e provocando uma fratura no cristianismo com a Reforma de Lutero. Ao mesmo tempo, abriu caminho para a literatura com o surgimento da indústria editorial e permitiu a livre expressão das ideias.
Mas, logo depois, como contrapeso, surgiram a censura e a proibição da leitura de alguns livros. Resumindo, a edição de livros abriu o caminho para a modernidade e foi o germe das revoluções sociais com o acesso facilitado ao mundo das ideias. Outras invenções vieram e depois do livro se chegou aos jornais, ao rádio, à tevê e agora à internet com suas redes sociais e à expansão das mídias.
E chegamos aqui ao tema desta semana – quem detém a produção de livros pode controlar o pensamento dos intelectuais e do público melhor informado, assim como a TV e as redes sociais podem controlar o pensamento e o comportamento do povo, bem como dirigir suas opções políticas.
Toda imprensa francesa tem noticiado com destaque nestes dias a decisão de mais de 300 autores de romperem com a Editora Grasset, pela qual seus livros são editados. Grasset vinha sendo desde 1907, ano de sua criação, uma prestigiosa editora de literatura francesa e estrangeira, ensaios, romances, ciências humanas, etc.
Agora, importantes jornais franceses prevêem mesmo o risco de Grasset fechar pela recusa dos bons autores a ela entregarem seus originais para publicação. Nem sempre autores militantes de extrema direita têm o talento de Louis-Ferdinand Céline, notório militante pró-nazistas durante a Ocupação francesa. Isso limita o acesso da editora aos bons e inovadores originais.
Até agora, o prestígio da Grasset provinha de sua independência na seleção e publicação de bons originais, sem procurar favorecer este ou aquele conteúdo político.
O responsável pela crise é o milionário Vincent Bolloré, proprietário de Editions Grasset, mas igualmente do Canal+, Europe1, CNews, Le Journal du Dimanche, hoje transformados em órgãos de propaganda política.
Diante da proximidade das eleições francesas, com o fim do mandato de Emmanuel Macron, o milionário Bolloré deseja utilizar a penetração do seu aparelho midiático para a eleição do candidato Jordan Bardella, da extrema direita francesa, Rassemblement National, caso a atual presidenta do partido seja declarada inelegível em julho, pela Justiça francesa.
Sua intervenção na Grasset, da qual é proprietário, consistiu em demitir Olivier Nora, o respeitado responsável pela seleção dos originais e pela publicação dos livros Grasset há 26 anos.
Antes de demitir Olivier Nora para intervir na seleção de autores e originais da Grasset, Vincent Bolloré já havia provocado a mobilização dos estudantes de jornalismo ao liderar um grupo de investidores na compra da Escola Superior de Jornalismo de Paris.
Algumas referências:
Shakespeare e Cervantes
https://mosqueteirasliterarias.comunidades.net/os-inventores-do-mundo-e-da-literatura
https://www.dw.com/pt-br/os-400-anos-da-morte-de-cervantes-e-shakespeare/a-19206586
Vincent Bolloré
https://www.observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-internacional/bollore-o-magnata-da-imprensa-francesa/
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- Rui Martins também está em versão sonora no Youtube, em seu canal –
https://www.youtube.com/@rpertins

