Não basta exportar mais. É preciso exportar melhor. Por Antonio Carlos Fonseca Cristiano
Exportar melhor…A corrida global por mercados, cadeias produtivas e eficiência logística colocará infraestrutura, tecnologia e comércio exterior no centro da competitividade nacional.
Publicado originalmente no DIÁRIO DO LITORAL, edição de 17 de junho de 2026
Enquanto milhões de brasileiros acompanham tabelas, estatísticas e projeções da Copa do Mundo, uma disputa tão importante quanto a do futebol acontece longe dos gramados. Ela não tem árbitro, torcida organizada ou transmissão em horário nobre. Mas movimenta trilhões de dólares, define empregos, influencia preços e ajuda a determinar o ritmo de crescimento das economias.
É a “copa do mundo do comércio internacional”.
E, pela primeira vez em muitos anos, o Brasil chega a esse “campeonato” em condições de disputar posições mais ambiciosas.
O cenário global mudou. As antigas rotas comerciais já não funcionam da mesma forma. Conflitos geopolíticos, disputas tarifárias, gargalos marítimos e a busca por cadeias produtivas mais resilientes estão redesenhando o mapa do comércio mundial. Empresas e países passaram a buscar fornecedores mais confiáveis, diversificar origens e reduzir dependências estratégicas. Nesse novo jogo, o Brasil aparece como um dos poucos países capazes de ampliar simultaneamente sua oferta de alimentos, energia, minerais críticos e produtos industrializados.
Mas ter talento nunca foi suficiente para ganhar uma Copa. E o futebol brasileiro conhece bem essa lição.
Ao longo da história, vimos seleções tecnicamente brilhantes serem eliminadas por falta de organização, planejamento ou capacidade de adaptação. No comércio exterior, o risco é semelhante. O Brasil produz, exporta e movimenta volumes cada vez maiores. As projeções indicam que a movimentação portuária nacional pode saltar de cerca de 1,5 bilhão para até 1,8 bilhão de toneladas até 2030, enquanto o comércio exterior brasileiro pode se aproximar de R$ 900 bilhões no período.
A pergunta não é se haverá demanda. A pergunta é se teremos estrutura para aproveitá-la.
Os portos brasileiros vivem um ciclo relevante de investimentos, com dezenas de projetos previstos e bilhões de reais destinados à expansão da capacidade logística. No entanto, a discussão mais importante já não é apenas construir mais cais ou ampliar pátios. O desafio passou a ser fazer a carga circular com velocidade, previsibilidade e inteligência.
Na linguagem do futebol, não basta ter um estádio moderno. É preciso ter um time capaz de trocar passes com eficiência.
Hoje, um dos principais adversários da competitividade brasileira não está no exterior, mas dentro de casa. Os custos logísticos continuam representando parcela expressiva da economia nacional. A permanência média de cargas importadas ainda pode ser reduzida significativamente. Cada dia adicional de atraso gera custos financeiros, afeta estoques, compromete contratos e reduz a competitividade de importadores e exportadores.
Por isso, a transformação digital talvez seja a maior contratação da temporada.
A migração para o Portal Único de Comércio Exterior e a expansão da DUIMP representam algo semelhante ao uso da tecnologia no futebol moderno. Representa menos tempo perdido, mais integração entre sistemas e decisões mais rápidas. Em um ambiente global marcado pela imprevisibilidade, a velocidade de processamento passa a valer tanto quanto a capacidade física dos terminais.
Outro aspecto importante é que a disputa deixou de acontecer apenas entre países. Ela ocorre também entre corredores logísticos.
Portos, terminais e operadores competem por eficiência. O embarcador não escolhe apenas um destino, escolhe confiabilidade e previsibilidade. E escolhe também quem consegue entregar sua mercadoria no tempo certo e com menor custo possível. Nesse contexto, ativos como Santos, Paranaguá, Itapoá, Rio Grande e Pecém passam a desempenhar papéis cada vez mais estratégicos na inserção internacional do país.
Há ainda um fator pouco debatido fora do setor, que é a crescente importância do comércio Sul-Sul. O aumento das trocas entre países em desenvolvimento pode abrir uma janela histórica para o Brasil ampliar mercados e reduzir dependências tradicionais. É um movimento silencioso, mas potencialmente transformador para a próxima década.
No futebol, costuma-se dizer que grandes seleções são aquelas capazes de enxergar a partida alguns lances à frente. O mesmo vale para o comércio exterior.
A ainda temos eleições pela frente. Por isso, os próximos anos serão menos sobre capacidade física e mais sobre coordenação. Menos sobre quantidade e mais sobre eficiência. Menos sobre obras isoladas e mais sobre integração entre infraestrutura, tecnologia, regulação e sustentabilidade.
O Brasil já entrou em campo. Tem bons jogadores, recursos naturais abundantes e uma posição privilegiada no tabuleiro global.
Mas a Copa do comércio exterior não será vencida por quem produz mais. Será vencida por quem consegue mover mercadorias com mais inteligência, previsibilidade e velocidade.
E, como no futebol, a diferença entre levantar a taça e assistir à comemoração dos outros costuma estar nos detalhes.
ANTONIO CARLOS FONSECA CRISTIANO, “Caio” – Empresário, santista. Presidente da Marimex Inteligência Portuária em Logística Integrada.
