JACAREZINHO - solução?

Não há solução. Por Edmilson Siqueira

…a solução não existe. Há mais de 40 anos vejo o tráfico de drogas no Brasil correr livremente no país, apesar de todas as operações, todas as chacinas, todas as prisões de grandes traficantes e de toneladas de drogas. Tenho certeza que, depois da operação da semana passada, não faltou droga em nenhum ponto do Brasil e os consumidores puderam todos ser abastecidos, cheirando, fumando e injetando à vontade…

solução?

A Polícia Civil do Rio realizou a maior operação já vista contra bandidos escondidos numa favela. O resultado foi terrível: um policial e 27 bandidos mortos. Eles são bandidos na versão oficial e talvez sejam mesmo, embora a operação venha sendo condenada em praticamente todos os veículos de imprensa e entidades de direitos humanos. E podem ser 28 inocentes também, todos fuzilados sem possibilidade de defesa. Ou alguns bandidos e alguns inocentes. Não se sabe. E não se saberá. A operação vai continuar sendo discutida, aplaudida de um lado e condenada de outro. O problema não é ela, do mesmo modo que ela jamais será a solução.

Isso porque a solução não existe. Há mais de 40 anos vejo o tráfico de drogas no Brasil correr livremente no país, apesar de todas as operações, todas as chacinas, todas as prisões de grandes traficantes e de toneladas de drogas. Tenho certeza que, depois da operação da semana passada, não faltou droga em nenhum ponto do Brasil e os consumidores puderam todos ser abastecidos, cheirando, fumando e injetando à vontade. Talvez nem o preço de mercado tenha sofrido qualquer abalo com a matança no Jacarezinho. O problemas ali na favela, pode ter sido resolvido por alguns dias. Se os mortos eram mesmo uma quadrilha, já deve ter outra mandando na “comunidade”.

Quando assisto na tevê aquelas imagens áreas da região da ocorrência, aquele mar de casas sem qualquer simetria, às vezes com uma ou outra rua aparente, o resto é viela, beco separando os barracos de alvenaria ou de madeira, tenho certeza que não haverá solução alguma para o problema da violência não só no Rio, mas em todas as grandes cidades do Brasil.

Já vinha tendo essa sensação de total impossibilidade de solução e impotência dos governos há muito tempo, desde quando os chefões do tráfico nas favelas começaram a ter 22, 23 anos. Alguns chegavam aos 30, mas mais que isso era muito difícil. E, assim que morriam, antes ou pouco depois dos 30, eram substituídos rapidamente. Mão de obra especializada não faltava à época e hoje talvez esteja muito mais farta, afinal, nos últimos 30 anos, o crime passou a fazer jus ao adjetivo “organizado”.

Nos anos 1980, fui testemunha ocular da entrada da cocaína junto à classe média baixa: a redação em que trabalhava era dividida entre os “caretas” e os que cheiravam. “Caretas” era o apelido que os viciados no pó davam a nós, que não éramos chegados ao vício. A tranquilidade como se comprava e como se usava a droga era um sinal de que a expansão do negócio, num país onde o crime compensa, era inevitável. Afinal, os lucros eram enormes e, no Rio, o governador, diziam, deixava os morros em paz (vale dizer, o tráfico) em troca de apoio eleitoral e da diminuição, não muita, diga-se, da violência na cidade.

A sensação de impotência dos governos – a postura do governo carioca deve ter sido copiada por outros – em resolver a situação do crime organizado aumentou bastante quando percebeu-se que muita gente na polícia ou era corrompida pelo crime ou estava se preparando para nele entrar de cabeça, formando as tais milícias. Policiais descobriram que, melhor do que receber um pixuleco, era expulsar o tráfico de uma região e dominá-la. Primeiro, só cobravam uma taxa de segurança, depois instalaram micro ditaduras criminosas, cobrando desde tevê a cabo clandestina, até botijão de gás e a cerveja da vendinha. Drogas, então, era o que dava mais lucro. Criaram seus “países” dentro da cidade, que elegeram vereadores e deputados e se infiltraram na administração pública. Estão aí, firmes e fortes.

As denúncias contra esse estado paralelo, por melhores que sejam, como no filme Tropa de Choque 2, têm o efeito de protestar em casa, diante da TV, contra uma decisão do VAR num jogo de futebol.

Quando escrevo essas linhas, há várias investigações em curso contra a operação no Jacarezinho, todas elas noticiadas na mídia, comme il faut, acompanhadas de comentários sérios contra esse “absurdo”. O resultado de todas essas investigações será a punição de um ou outro policial que, se for expulso da força, provavelmente engrossará o time dos bandidos de grosso calibre numa milícia qualquer. Ou pode não ocorrer absolutamente nada contra os autores da operação, pois percebo que até o governador do Rio já veio a público defendê-los. E há gente graúda em Brasília, a começar pelo próprio presidente da República e seus filhos, que aplaudiram a matança, adeptos da morte como são. Todos os que defenderam a operação não sabem se os mortos eram mesmo bandidos ou mesmo se havia algum inocente entre eles.

Como se vê, o Brasil que hoje eleva à categoria de inocentes os maiores corruptos da história da humanidade, também deverá perdoar os policiais que barbarizaram a favela carioca e nada resolveram – a não ser talvez a vingança pelo policial morto – em relação ao tráfico, às quadrilhas organizadas e, muito menos, à ação das milícias que hoje infestam também bairros do Rio de Janeiro e de outras cidades grandes espalhadas pelo Brasil. Tudo vai continuar. O crime, no Brasil, é organizadíssimo, alcançando os mais altos escalões.

Solução? Eu disse que ela não existe. Façamos então um exercício mental: a solução começaria com o povo elegendo vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente honestos. Eles mudariam a Constituição, desobrigariam o governo de ser a mãe dos brasileiros pobres e dos muitos ricos, criariam condições para investimentos privados, venderiam ao mercado todas as estatais, acabariam com as mamatas dos marajás em todos os poderes, cumpririam as leis contra quem as desrespeitasse e incentivariam todos os setores da economia a produzir mais e melhor.

Como se vê, é impossível mesmo, a começar pelo primeiro item: eleger políticos honestos.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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3 thoughts on “Não há solução. Por Edmilson Siqueira

  1. E não tem solução mesmo: em todas as propostas (irrealizáveis) apontadas o verbo está no FUTURO DO PRETÉRITO… Maldito tempo verbal!
    começaria mudariam desobrigariam criariam venderiam acabariam cumpririam incentivariam

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