Sobre um amigo que se mandou. Por Lula Vieira
Outro dia sonhei com o Paulinho, um amigo e colega que a vida me deu e que amei e que nos deixou há tempos, muito antes do que seria justo. Paulinho, o Paulo Costa, foi embora num dia feio como o de hoje e parece que foi ontem…

Outro dia sonhei com o Paulinho, um amigo e colega que a vida me deu e que amei e que nos deixou há tempos, muito antes do que seria justo. Paulinho, o Paulo Costa, foi embora num dia feio como o de hoje e parece que foi ontem. Ele estava doente, tinha um câncer na boca que lhe dificultava falar e comer. Mas ainda escrevia – era redator – com a mesma qualidade que conheci durante os vinte e tantos anos que trabalhamos juntos. Era um craque. Não apenas nos anúncios, mas também nos poemas, contos, cartas e bilhetes que costumava mandar.
Nunca consegui ficar indiferente a um texto do Paulinho, principalmente quando brigava comigo e, sem saco para falar pessoalmente, escrevia sua indignação. Quando digo que jamais fui indiferente a um texto do Paulinho posso provar: me lembro de uma carta que me enviou quando, por decisão do Departamento Pessoal da JMM, em 1968 mais ou menos, ficou resolvido que seria instituído um livro de ponto. A razão era meramente burocrática, mas o irritou profundamente. Ele tinha na época vinte e poucos anos e se parecia com o Chico Buarque no jeitão e no talento. Sua carta era carregada de uma ironia tão aguda que desmoralizou completamente a ideia do ponto. Mais ainda – me deixou profundamente envergonhado por ter considerado viável exigir do Paulinho que se submetesse a horários rígidos.
O mais terrível é que ele trabalhava mais do que todo mundo, chegava antes e saia depois. Mas não assinaria o livro de ponto por uma questão de princípios. Em todos esses anos que trabalhamos juntos confesso que sempre tive inveja da qualidade do seu texto, sempre elegante, sempre poético e sobretudo, sempre bem humorado. Numa ocasião, a Aerolineas Argentinas criou uma excursão à Antártida e nos pediu um anúncio. Título do Paulinho: “Antartida, estupidamente gelada, por 60 cruzeiros por mês”. Outra vez criou um cartão de Natal que tinha como ilustração uma criança bem com cara de recém-nascida. O texto: “Parabéns, Deus. É um menino!”
Quando ele casou, numa pequena cidade do interior do Rio, convidou toda a imensa criação da agência, incluindo a numerosa turma do estúdio. Invadimos a cidadezinha a tal ponto que a cerveja acabou em todos os poucos bares, a padaria trabalhou dobrado e a única pizzaria teve que fechar as portas por falta de ingredientes. Paulinho bebeu conosco até a hora da cerimônia e na festa se esqueceu que era o noivo ajudando a emporcalhar o próprio carro.
Uma vez no meu aniversário ele e Marcelo Martinez me deram um quadro que se referia a um discurso que eu tinha feito criticando o nosso símio ancestral. Eu disse que se não fosse as ideias dele, desse primeiro macaco que resolveu descer da árvore e começou a andar ereto e pensar besteiras, poderíamos estar felizes comendo bananas e macacas, sem agências, clientes e anúncios. No meu aniversário, os dois me deram de presente um quadro onde havia o desenho de um macaco e saindo de sua cabeça uma colagem de dezenas de símbolos de nossa dita civilização: trens, aviões, pizza, a Torre Eiffel, e por aí afora. Debaixo desta imagem, um texto do Paulinho: “Tuas ideias fizeram um mundo cruel. Mas um mundo”.
Ele era avesso a badalações e era profundamente tímido. Gente infinitamente menos brilhante (eu mesmo) apareceu mais e recebeu mais rapapés e homenagens. Para ele, segundo ele mesmo, as oportunidades chegavam ou fora de hora ou sem muita utilidade. É dele a frase: “a mim me coube uma sereia no cio. Tudo ótimo, mas não tenho pau de peixe”. Não era um triste, nem um macambúzio. Podia às vezes ficar melancólico. Mas seu imenso talento não permitia que ficasse chato.
Foi minha filha que deu a notícia de sua morte. Tive ímpetos de ir ao seu velório, como fui aos velórios do Cid Pacheco e do Fernando Barbosa Lima. Cheguei a chamar o táxi. Mas me deu uma enorme necessidade de sentar na poltrona de meu quarto e pensar no Paulinho. E tentar conviver com a certeza de que não fiz por ele o que ele fez por mim. Tentar justificar minhas ausências e minha profunda – indesculpável – ingratidão. Me lembrei que. de alguma forma ou de outra muitas vezes, muitas mesmo, ajudei o Paulinho. Protegi o Paulinho. Fui leniente, fui até mentiroso por ele. Mas ainda assim não paguei tudo que ele me deu. Não consegui me livrar do sentimento de que a vida é profundamente injusta. Na poltrona de meu quarto pensei que o Paulinho se foi. E ficaram muitos filhos da puta.
Um deles estava sentado na poltrona do meu quarto.
Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
