Paliativos literários. Por Adilson Roberto Gonçalves
… Um desses segmentos literários inclui a contínua e infatigável batalha contra preconceitos explícitos e implícitos da sociedade. Por exemplo, no artigo “Métodos para abrandar o racismo”, publicado no mês passado na Folha de S. Paulo (10/5), Thais Travassos e Matheus Gabriel Freire fizeram o que se espera: discutem a obra de Monteiro Lobato, sem a intenção de cancelá-la…

Enquanto traidores da Pátria não são devidamente punidos, revisitemos algumas questões literárias que servem tanto para apaziguar angústias existenciais políticas, quanto para relembrar o passado, de tal forma que erros não sejam mais cometidos.
Assim, no meio de tantos atrasos institucionais, é alvissareira a notícia de que o comércio livreiro continua em alta em nosso país, com crescimento em vendas que chegou a 6,5% em 2025. Ainda que não se esteja avaliando a qualidade do conteúdo publicado, ao menos temos um viés de não perder os leitores, com foco no público infanto-juvenil. Quem já tem uma certa idade e não lê, dificilmente passará a fazê-lo. De qualquer forma, deveríamos iniciar um projeto mais robusto de estímulo à leitura. Teorias sobre o assunto não faltam: que as coloquemos em prática.
Um desses segmentos literários inclui a contínua e infatigável batalha contra preconceitos explícitos e implícitos da sociedade. Por exemplo, no artigo “Métodos para abrandar o racismo”, publicado no mês passado na Folha de S. Paulo (10/5), Thais Travassos e Matheus Gabriel Freire fizeram o que se espera: discutem a obra de Monteiro Lobato, sem a intenção de cancelá-la, como propõem alguns preguiçosos intelectuais. No mais, deve-se avaliar o quanto a literatura infantil lobatiana influenciou a formação racista de seus leitores. Na mesma toada, teríamos de cancelar – ou pelo menos evitar – toda a obra de Lima Barreto por ser um misógino e machista renhido. Com certeza não faço nem uma coisa nem outra, e ambos continuam leituras importantes da formação social de nosso país. Para constar, Lima Barreto foi o aniversariante de maio e Monteiro Lobato, de abril.
Do âmbito histórico, ainda que não esteja no formato de livro, o relatório final da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos concluiu que Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura. O colunista José Paulo Cavalcanti Filho, participante da Comissão Nacional da Verdade que elaborou o relatório anterior, discorda e apresenta outros argumentos, refutando a tese de assassinato(https://www.chumbogordo.com.br/469498-jk-de-novo-1-de-2-por-jose-paulo-cavalcanti-filho/; https://www.chumbogordo.com.br/469735-jk-de-novo-2-de-2-por-jose-paulo-cavalcanti-filho/).
Leiamos todos os relatórios. No mais, o recente livro do professor e historiador Felipe Loureiro “Olhares Ianques: A Ditadura Brasileira nos Arquivos Norteamericanos” (Companhia das Letras), relatando a conivência e cumplicidade da Fiesp com a ditadura e seus porões, soma-se ao relatório sobre o assassinato de JK para contribuir com o devido esclarecimento de nosso tenebroso passado. No entanto, enquanto não punirmos devidamente aqueles crimes, praticados por militares e civis, continuaremos ameaçados por golpes e golpistas, disfarçados agora de direitistas defensores da “liberdade de expressão”.
A leitura ajudará sobremaneira nessa empreitada.
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– Adilson Roberto Gonçalves – pesquisador da Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista. Vive em Campinas.
