Alucinação. Por Lula Vieira
Alucinação…E o cheiro. O cheiro! Álcool, suor, urina e vômito. Traços de merda. Um pot-pourri de odores nojentos. Além da dor, a cabeça insistia em querer saber o que eu fazia ali, dormindo todo vomitado, cercado de pedaços de leiaute, numa sala que parecia ter abrigado uma família de macacos destruidores. E sozinho. Tirando a campainha na cabeça, havia silêncio.

No começo era só um branco, como se eu estivesse dentro de uma nuvem. Ou tivesse naufragado num algodão. Passei a munheca nos olhos e eles doeram. Havia um zumbido no ouvido, e a boca parecia pastosa. Em seguida uma dor não localizada me dava impressão que eu tinha caído num fosso. Tentei levantar e percebi que estava tonto. Em resumo, a sensação que tive foi a de que estava morrendo. Ou já estivesse morto, quem sabe como um morto se sente? Ou morto ou morrendo. Alguns segundos depois consegui sentar e tudo que estava sentindo piorou. A dor aumentou, desceu da cabeça e começou a se espalhar pelo corpo inteiro, principalmente nas costas e num braço. No braço era pior, eu estivera deitado sobre ele.
Levou algum tempo para eu entender o que estava ocorrendo. Estava num sofá, numa sala vagamente familiar, cercado de vômito que melava minhas mãos e escorria pela camiseta. Um cheiro horrível. Fazendo um parênteses, a gente consegue conviver com o cheiro do próprio corpo, com os gazes gerados dos próprios intestinos, consegue aturar o cheiro de merda desde que seja da nossa autoria. Vômito não. Fabricação própria ou de terceiros, o azedume do cheiro de vômito é sempre desagradável. Nojento. Talvez a melhor definição do adjetivo nojento. Cheiro de vômito, em qualquer circunstância… dá ânsias de vômito.
Olhei em volta. Sim, eu conhecia a sala. Era a sala de reunião de um cliente. Reconheci as cadeiras de couro pintadas de verde escuro, a mesa com as tomadas para computador. O sofá melado também era de couro e me lembrei que diziam que nesse sofá o Presidente comia a secretária. Ou, politicamente correto, o casal se comia, dividindo as responsabilidades pelo ato. Na hora não me lembrei deste detalhe fescenino. A utilidade verdadeira do sofá. Se tivesse lembrado, pelo meu estado geral eu teria desconfiado quem teria sido comido. Eu. Não que estivesse sentindo algo estranho no chamado âmago de meu ser. Mas o mau estar era tão grande que eu não teria localizado uma dor específica.
Fui me acostumando em estar no mundo. A sala parecia que tinha sido assaltada por uma legião inteira de vândalos. Haviam papéis espalhados por todos os lados, copos, xícaras. Consegui identificar entre os destroços alguns leiautes de anúncios. Até mesmo um storyboard (eram tempos disso), com tiras do papel Kraft que servia de cobertura lembrando serpentinas. Ou pareciam roupas rotas de Arlequim. Onde fui buscar esta comparação não sei. Mas a semelhança com os destroços de um baile de carnaval eram evidentes.
E o cheiro. O cheiro! Álcool, suor, urina e vômito. Traços de merda. Um pot-pourri de odores nojentos. Além da dor, a cabeça insistia em querer saber o que eu fazia ali, dormindo todo vomitado, cercado de pedaços de leiaute, numa sala que parecia ter abrigado uma família de macacos destruidores. E sozinho. Tirando a campainha na cabeça, havia silêncio. Ou melhor, havia também o zumbido de um motor elétrico. Talvez do ar condicionado. O que explicava o frio que subitamente comecei a sentir.
A cabeça doía, girava e pensava. Das recordações, a mais recente era que eu tinha estado naquela sala com a turma da agência para apresentar uma campanha. O restos eram flashes, como o Presidente dizendo que já eram seis horas e a gente “bem que podia” – as palavras eram dele – tomar um uisquezinho. Depois de um branco, havia a imagem do presidente sacudindo uma garrafa vazia para secretária dizendo: “Gilka, traz outra!”
Pois é – onde andarão meus colegas de agência, o cliente, a secretária Gilka e a gostosa da diretora de marketing? Sobre ela tinha uma historinha linda. Nosso Diretor de Arte disse um dia que o que ela tinha de peito, tinha de burra. Não sei como ela ficou sabendo e respondeu que o que ele tinha de pinto tinha de talento. Um cotoco. Assim, na lata. Nunca ninguém perguntou como ela sabia. Mas nunca mais alguém teve coragem de duvidar de sua capacidade profissional.
Não, não pensei nessa história naquela hora, claro que não. Mas pedaços de acontecimentos passavam pela minha cabeça como papéis picados. Nada parecia fazer sentido. Acordar em petição de miséria na sala de reunião deserta de um cliente não é –digamos – um acontecimento comum. Daqueles que se conta em casa com um sorrisinho (“meu bem, não sei o que houve, mas acordei na sala de reunião do cliente, sozinho, todo mijado e vomitado” Ao que a mulher responde: ”Estou sentindo o cheiro, meu bem…vai tomar banho e depois a gente conversa!”)
Continuei olhando a sala. Pedaço de Saigon. Tudo revirado, esses sapatos atrás da poltrona. Sapatos! Putaquepariu! Com pé dentro. Sapatos de mulher, de salto alto, juntinhos…Cacete, era o que faltava. Andei (rastejei ? ) até lá e encontrei o resto –os restos – da Diretora de Marketing . Nua e morta. Evidentemente nua e evidentemente morta, os olhos abertos vidrados e uma baba escorrendo pela boca. Os braços ao longo do corpo. Nenhum sangue, pelo menos à vista. Notei que não respirava. Como todo cadáver. Era a única coisa normal na cena. O resto todo era um absurdo.
Vou sair daqui, pensei. Claro, porra, pensei em cima. Mas, o que vou dizer. “Olha, a sala de reunião tá uma zona, tudo revirado…E tem o cadáver morto da Diretora de Marketing atrás do sofá… ” O chefe da portaria responde: “claro, seu Lula, até a próxima!” Ou, mais maluco ainda: “Estranho seria, seu Lula, se o senhor tivesse achado um cadáver vivo” .
Mas nada disso aconteceu. Desci dois lances de escada, o prédio do cliente totalmente vazio, passei pela portaria deserta e só encontrei meu carro estacionado.
Fui para casa, mas minha mulher e as crianças não estavam. Sozinho, tomei banho, joguei umas coisas na maleta da companhia aérea que a agência atendia. Antes de sair, me lembrei deste gravadorzinho que comprei em Manaus. Me hospedei no hotel perto do aeroporto. Que é onde estou gravando estas palavras, para ver se acho alguma coisa sensata para fazer, que não seja ir à polícia e dizer que estou chegando de uma sala de reunião num prédio vazio, e que lá se encontra um cadáver nu e de salto alto e que não tenho a menor ideia do que aconteceu. O endereço é Companhia Tal, avenida tal número tal.
Ao pensar nessa cena, me ocorre outra dúvida: será que aprovaram a campanha?
– Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
