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Vestidos para Outra Época. Por Angelo Castello Branco

 Hospedaram-se num hotel na véspera do Ano-Novo. Quando chegou a hora da festa, ela vestiu um elegante vestido de baile. Ele colocou o smoking, o black tie. Chamaram um táxi e seguiram para o Clube Intermunicipal.

contínuo um desenho de linha de dança de casal isolado no ...
De vez em quando, a gente comete um erro muito humano: imagina que o passado continua nos esperando exatamente onde o deixamos.

Vi recentemente comentários nas redes sociais sobre uma imagem do Rock in Rio de 2026. Um palco famoso, desses que recebem artistas de projeção internacional, aparecia quase vazio. Pouquíssimas pessoas diante do espetáculo.

Naturalmente, uma fotografia não explica um evento inteiro. Pode ter sido apenas um momento isolado, uma apresentação fora do horário mais concorrido, uma circunstância qualquer. Mas a imagem ficou ali, provocando uma pergunta: onde estava o público?

Essa pergunta me fez lembrar uma história ocorrida bem longe do Rio de Janeiro, dos grandes palcos e das estrelas internacionais. Foi em Caruaru, no Agreste de Pernambuco.

Um casal havia deixado a cidade ainda jovem. Partira para o Rio de Janeiro, onde viveu, trabalhou e prosperou. Mas levou consigo uma lembrança que o tempo, em vez de apagar, foi tornando cada vez mais bonita: os bailes de Ano-Novo do Clube Intermunicipal de Caruaru.

Na memória deles, aquilo era um acontecimento extraordinário. Homens elegantes, mulheres maravilhosamente vestidas, uma grande festa. Décadas depois, decidiram voltar. Queriam reencontrar aquela Caruaru que haviam guardado dentro de si.

Hospedaram-se num hotel na véspera do Ano-Novo. Quando chegou a hora da festa, ela vestiu um elegante vestido de baile. Ele colocou o smoking, o black tie. Chamaram um táxi e seguiram para o Clube Intermunicipal.

O clube estava cheio.

Mas havia um pequeno problema: o passado não estava.

Os rapazes usavam bermudas, camisetas, tênis. Alguns, talvez, até chinelos. As moças vestiam shorts e roupas leves, próprias de outro tempo, de outros costumes, de outra ideia de elegância.

E lá estavam os dois, ela em traje de gala, ele de smoking, atravessando a multidão como dois visitantes vindos de uma fotografia antiga.

O clube era o mesmo. A festa era a mesma. Mas nada era igual.

Talvez seja assim também com a comunicação. Muitas vezes continuamos falando com o público que existia ontem, usando os caminhos de ontem, imaginando que as pessoas continuam nos mesmos lugares e prestando atenção às mesmas coisas.

Talvez aquela imagem do palco quase vazio no Rock in Rio — se realmente representava um problema e não apenas um instante isolado — tenha alguma coisa a nos dizer. Não basta ter um grande palco, uma grande marca ou artistas famosos. É preciso saber onde o público está e, principalmente, como chegar até ele.

O mundo muda. Os costumes mudam. Os meios de comunicação mudam. E, quando não percebemos isso, podemos acabar como aquele simpático casal de Caruaru: chegando à festa certa, no lugar certo, mas vestidos para outra época.

Entre candidatos, sobra ódio e faltam projetos Por Angelo Castelo Branco - Jornal do Sertão

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Angelo Castello Branco –  Jornalista. Autor de O Artífice do Entendimento – biografia do ex-vice-presidente Marco Maciel. Recifense,  advogado formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Membro da Academia Pernambucana de Letras. Com passagens pelo Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Diário de Pernambuco, Folha de S. Paulo e Gazeta Mercantil, como editor, repórter e colunista de Política.


 

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