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Errar é humano, mas a IA pode esconder isso…Por Amadeu Robalinho

ERRAR É HUMANO: QUANDO A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMEÇA A ESCONDER O ERRO HUMANO

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Há uma contradição silenciosa no modo como a sociedade contemporânea começa a utilizar a Inteligência Artificial. Criamos máquinas capazes de produzir textos, imagens, análises, códigos, sínteses e respostas em poucos segundos, mas, ao mesmo tempo, começamos a utilizá-las não apenas para ampliar o conhecimento humano, mas para esconder as limitações, os erros e, em alguns casos, a própria ausência de conhecimento de quem as utiliza.

Errar é humano. O problema começa quando passamos a utilizar a tecnologia para eliminar não o erro, mas os vestígios que permitem identificá-lo. Estamos diante de uma questão que ultrapassa a tecnologia. Trata-se de uma questão científica, educacional, cultural e, sobretudo, estratégica. A Inteligência Artificial generativa pode representar uma das maiores ferramentas de ampliação da capacidade humana já desenvolvidas. Entretanto, ela não transforma automaticamente informação em conhecimento, nem conhecimento em ciência. Uma resposta bem escrita não significa necessariamente uma resposta verdadeira. Uma argumentação elegante não é sinônimo de profundidade. Uma linguagem sofisticada não comprova domínio intelectual.

O Próprio ²NIST, ao tratar dos riscos da IA generativa, identifica o fenômeno denominado “confabulação”, quando sistemas produzem informações falsas ou incorretas apresentadas com elevado grau de confiança. O problema torna-se ainda mais grave quando o usuário passa a confiar na aparência de precisão produzida pela máquina.

É nesse ponto que surge uma nova prática que merece atenção: utilizar uma ferramenta de Inteligência Artificial para produzir determinado conteúdo e, posteriormente, utilizar outra ferramenta de IA para “humanizar” o texto.

A pergunta estratégica é inevitável: estamos humanizando a máquina ou artificializando o ser humano? A diferença não é meramente semântica.

Quando um indivíduo pesquisa, interpreta, confronta fontes, formula hipóteses, erra, corrige, escreve e reescreve, existe um processo intelectual. O resultado final é consequência de uma trajetória cognitiva. O erro, nesse contexto, não é apenas uma falha. Ele pode ser parte do próprio processo de aprendizagem. Quando, entretanto, alguém delega à máquina a pesquisa, a estruturação das ideias, a redação, a revisão, a correção gramatical, a adequação estilística e, finalmente, utiliza outra máquina para retirar do texto os sinais de que ele foi produzido artificialmente, corre-se o risco de criar uma espécie de circuito fechado.

A máquina produz. Outra máquina aperfeiçoa. Uma terceira pode verificar. E o ser humano apenas publica. É possível que estejamos construindo uma fábrica de perpetuação da produção de ninguém.

Esse talvez seja um dos paradoxos mais importantes da era da Inteligência Artificial. Quanto mais sofisticadas forem as ferramentas utilizadas para produzir textos aparentemente humanos, maior poderá ser a dificuldade de identificar onde termina o pensamento original e onde começa a reprodução estatística de padrões existentes.

A consequência pode ser uma produção intelectual de enorme volume, mas de reduzida originalidade.

Muita superfície e pouca profundidade. Muito conteúdo e pouco conhecimento. Muita publicação e pouca descoberta. Muita informação e pouca inteligência.  O problema assume proporções ainda maiores quando essa dinâmica alcança a produção científica.

A ciência não evolui simplesmente porque produz mais textos. Ela evolui quando produz novas perguntas, novas hipóteses, novos métodos, novas evidências e novas explicações para fenômenos ainda não suficientemente compreendidos.

Se milhões de pesquisadores passarem a utilizar sistemas semelhantes, treinados sobre conjuntos de dados semelhantes, orientados por padrões semelhantes e solicitados a escrever de maneira semelhante, poderemos enfrentar um fenômeno paradoxal: uma tecnologia criada para ampliar a diversidade intelectual poderá contribuir, se utilizada de maneira inadequada, para a padronização do pensamento.

A questão não é afirmar que isso necessariamente ocorrerá, mas reconhecer que o risco existe e merece investigação.  A própria ¹ UNESCO chama atenção para os impactos da IA sobre o pensamento humano, a educação, as ciências, a cultura e a comunicação, defendendo princípios como diversidade, supervisão humana, responsabilidade, transparência e preservação da diversidade cultural.

E aqui chegamos a uma questão ainda mais profunda: o que acontecerá com a cultura clássica?

O conhecimento humano não nasceu dos algoritmos. A ciência moderna foi construída sobre séculos de leitura, debate, experimentação, discordância, observação e transmissão de conhecimento. Filosofia, matemática, literatura, história, engenharia, física, química, direito e medicina foram desenvolvidos por homens e mulheres que precisaram pensar antes de perguntar às máquinas.

A leitura de um livro não era apenas uma forma de obter informação. Era um exercício de concentração. A escrita não era apenas uma forma de comunicar. Era um exercício de organização do pensamento.  A pesquisa não era apenas uma busca por respostas. Era um exercício de formulação de perguntas.  O risco contemporâneo está em transformar essas três atividades em simples comandos. Perguntar à máquina pode ser extremamente eficiente. Pensar antes de perguntar continua sendo indispensável.

Essa diferença é fundamental para a soberania de uma nação.

Uma sociedade que perde a capacidade de produzir conhecimento próprio torna-se progressivamente dependente daqueles que controlam as plataformas, os modelos, os dados, a infraestrutura computacional, os semicondutores, os centros de processamento, os sistemas de comunicação e os mecanismos de treinamento da inteligência artificial.

Portanto, a discussão sobre IA não pode ficar restrita à produtividade.  Ela precisa ser incorporada à agenda de soberania nacional.

Quem controla a infraestrutura de inteligência controla uma parcela crescente da capacidade de produzir, interpretar e distribuir conhecimento. Quem controla os dados possui uma vantagem estratégica. Quem controla os modelos possui capacidade de influenciar processos cognitivos. E quem depende integralmente de sistemas externos para produzir conhecimento estratégico corre o risco de terceirizar parte de sua própria autonomia intelectual.

Isso é Defesa.  Isso é Estratégia. Isso é Soberania.

Uma nação tecnologicamente dependente pode possuir território, população, recursos naturais e forças militares, mas continuar vulnerável se não possuir capacidade própria de produzir conhecimento, tecnologia e inteligência.

Por isso, a questão não deve ser “usar ou não usar Inteligência Artificial”.  Essa é uma falsa escolha.

A pergunta correta é: como utilizar a Inteligência Artificial sem entregar a ela aquilo que constitui a essência da capacidade humana de pensar?

A resposta passa por educação, cultura científica, formação crítica, domínio tecnológico e responsabilidade intelectual. A IA deve ser instrumento de ampliação da inteligência humana, não substituta da inteligência humana.  Deve acelerar cálculos, comparar grandes volumes de dados, auxiliar pesquisas, identificar padrões, apoiar simulações, contribuir para engenharia, medicina, defesa, indústria e planejamento estratégico.

Mas a responsabilidade pela hipótese, pela decisão, pela interpretação e pela consequência precisa continuar sendo humana. Não se trata de combater a tecnologia. Trata-se de impedir que a tecnologia combata silenciosamente a capacidade humana de pensar.

Existe ainda uma pergunta provocativa: essa cobra vai engolir o próprio robô?

Se os sistemas de Inteligência Artificial passarem a ser treinados cada vez mais sobre conteúdos produzidos por outras Inteligências Artificiais, poderemos entrar em um ciclo de retroalimentação no qual a máquina começa a aprender progressivamente com aquilo que ela mesma, ou sistemas semelhantes, produziram.

A consequência pode ser uma espécie de erosão da diversidade informacional. Se o conhecimento original diminui e a reprodução sintética aumenta, o sistema pode produzir cada vez mais conteúdo e, simultaneamente, reduzir a proporção de novidade existente nesse conteúdo.  É a multiplicação da cópia com aparência de criação.  É a industrialização da repetição. É a possibilidade de termos uma gigantesca biblioteca digital repleta de textos, mas progressivamente contaminada por uma pergunta fundamental: quem realmente pensou tudo isso?

Essa pergunta não é uma ameaça à Inteligência Artificial. É uma exigência de maturidade diante dela.

A verdadeira revolução da IA não estará em produzir milhões de textos indistinguíveis entre si. Estará em permitir que seres humanos capazes façam aquilo que antes era impossível: compreender sistemas complexos, formular hipóteses mais sofisticadas, desenvolver tecnologias, antecipar riscos, proteger sociedades e ampliar as fronteiras do conhecimento.

O verdadeiro salto tecnológico não será substituir o pesquisador.   Será aumentar a capacidade do pesquisador.  Não será eliminar o erro. Será permitir que o erro seja identificado mais rapidamente.

Não será retirar o ser humano do processo. Será tornar o ser humano mais capaz dentro dele.  Porque uma sociedade que não aceita mais errar pode também deixar de experimentar.

E uma sociedade que deixa de experimentar pode deixar de descobrir.

O erro humano, quando reconhecido, analisado e corrigido, é uma das engrenagens do progresso científico. O perigo está em utilizar a tecnologia para mascará-lo, escondê-lo e transformá-lo em uma produção aparentemente perfeita.  A perfeição artificial pode ser intelectualmente estéril. A imperfeição humana pode ser cientificamente fértil. É nesse equilíbrio que estará uma das grandes disputas estratégicas do século XXI.

Não entre homem e máquina, mas entre conhecimento autêntico e reprodução automatizada. Entre pensamento e padrão. Entre ciência e aparência de ciência. Entre soberania intelectual e dependência tecnológica.

A Inteligência Artificial poderá ser uma das maiores ferramentas de emancipação intelectual da humanidade. Mas também poderá se transformar em uma máquina extraordinariamente eficiente de produzir respostas sem necessariamente produzir conhecimento.

A escolha não será feita pelos algoritmos. Será feita por nós.

E talvez a maior demonstração de inteligência humana, diante da Inteligência Artificial, seja continuar tendo coragem para fazer aquilo que nenhuma máquina pode fazer em nosso lugar: pensar, duvidar, questionar, discordar, experimentar, errar, corrigir e, finalmente, descobrir algo que ainda não existia.

Porque, no final, a questão não é saber se a máquina consegue escrever como um ser humano.

A questão realmente estratégica é saber se o ser humano continuará sendo capaz de pensar como um ser humano.


amadeu robalinho dantas da gama neto

Amadeu Robalinho Dantas da Gama Neto –  Engenheiro Naval pós-graduado pelo Grupo Unyleya Educacional e especialista em Política, Estratégia, Defesa Nacional e Segurança Pública pela FAMESC/Instituto Venturo, em parceria com a ADESG. Atua como Conselheiro de Defesa Nacional e Segurança Pública da ADESG-PE, dedicando-se à pesquisa de soluções sistêmicas para a resiliência infraestrutural e tecnológica do Estado brasileiro. Vive em Recife.

E-mail: engenheiroamadeurobalinho@gmail.com


 

Notas:
¹ UNESCO— Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. É uma agência especializada da ONU, criada em 1945. Atua em educação, ciência, cultura, comunicação e patrimônio. Na área de IA, trabalha especialmente com ética, educação, direitos humanos, diversidade cultural e impactos sociais da tecnologia.
² NIST— National Institute of Standards and Technology (Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia). É uma instituição científica e tecnológica do governo dos Estados Unidos, vinculada ao Departamento de Comércio. Desenvolve padrões, métodos e orientações técnicas para áreas como cibersegurança, inteligência artificial, engenharia, metrologia e gestão de riscos.

 

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